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Protesto cobra justiça por adolescente negro morto por PM

02/08/20 por Jeniffer Mendonça

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Há 4 meses, Igor Rocha foi morto com um tiro na nuca no Jardim São Savério, na zona sul de SP; “enquanto eu respirar, eu vou lutar pelo meu filho”, afirma mãe do menino

À frente Ana Paula Rocha, mãe de Igor, e manifestantes na Av. dos Ourives, em protesto à morte do adolescente, ocorrida em abril | Foto: Jeniffer Mendonça/Ponte Jornalismo

Ana Paula Rocha, 45, não conseguia passar pela travessa Ruth Cabral Troncarelli, no Jardim São Savério, na zona sul da capital paulista. Cobradora em uma empresa de ônibus, costuma desviar o caminho desde que seu filho Igor Rocha Ramos, 16, foi morto por um PM, em abril. No dia em que se completam exatos quatro meses sem respostas pela morte do adolescente, na tarde deste domingo (2/8), Ana decidiu atravessar a viela.

Com punhos cerrados, familiares e moradores do bairro caminharam em repúdio à violência policial. “O amor pelo meu filho me dá forças para lutar por justiça, não só por ele, mas por outras mães”, desabafa Ana. “Olha o quanto a polícia matou. E ainda na pandemia”, critica.

No protesto, manifestantes refizeram o caminho do menino, quando a mãe havia pedido para ele ir a uma padaria próxima para comprar pão e cigarro, já que estava doente por causa da Covid-19. O jovem foi atingido pelas costas, na nuca, na viela, quando teria corrido após os policiais terem anunciado a abordagem.

Segundo a mãe, Igor tinha sido ameaçado pelo policial dois meses antes, depois que o jovem tinha saído da Fundação Casa após internação em 2019 por causa de um roubo de carro. “Meu filho se ajeitou, pagou pelo o que ele fez e estava se reerguendo. Não é justo tirar a vida de um menino que tinha tudo pela frente”, desabafa Ana.

Em camiseta, Ana Paula homenageia o filho Igor | Foto: Jeniffer Mendonça/Ponte Jornalismo

“Quando chegar a noite, esse policial vai ter o filho, a família para abraçar, e eu? Eu não vou poder mais abraçar meu filho, é como se tivessem me matado também”, diz sem conter as lágrimas. “E o mais triste é que meu filho não é o primeiro e nem vai ser o último, por isso as mães têm que se mobilizar, para que eles paguem e percam o distintivo. Um policial assim não pode ficar nas ruas. Como eles colocam a cabeça no travesseiro sabendo que tiraram a vida de uma família?” questiona a mãe.

O protesto contou com a oração do Pai Nosso em homenagem ao menino e seguiu pelas ruas do bairro. Para Maria Nilda de Carvalho Mota, articuladora da Rede de Proteção e Resistência Contra o Genocídio, uma das organizadoras da manifestação, é necessário dar visibilidade ao caso para que não seja esquecido. “Esse é um ato simbólico, não só porque se completam quatro meses da morte do Igor, mas também porque vai puxar outras mães, outras famílias, a lutarem pelos seus direitos”.

Em determinado trecho da avenida dos Ourives, onde o ato fechava a via, uma viatura da Polícia Militar parou no local. À Ponte, os policiais disseram que foram chamados por moradores de um dos condomínios no local, o Edifício Villaggio Romano. “O pessoal tá obstruindo a via, né, senhora, vamos aguardar e ver o que fazer”, disse um deles.

Outras três viaturas apareceram na avenida e uma das moradoras do prédio, uma mulher branca, segundo os manifestantes, havia “mandado o pessoal tomar no cu”. O gesto fez os presentes gritarem “a gente está pedindo paz”, “se fosse seu filho isso não ia acontecer porque você é branca”. Eles também gritaram “racistas” em direção aos PMs.

Protesto seguiu pela rua Raimundo Nina Rodrigues, na zona leste de SP | Foto: Jeniffer Mendonça/Ponte Jornalismo

Cerca de 20 minutos depois, o grupo decidiu deixar a via e sair em caminhada pelo quarteirão, por meio da rua Raimundo Nina Rodrigues. No trajeto, eles passaram pela rua Menino do Engenho, onde aconteceu a chacina de três jovens durante os Crimes de Maio de 2006, quando mais de 500 civis foram mortos em reação aos ataques do PCC (Primeiro Comando da Capital), que mataram 59 agentes da segurança pública.

Grafite na Rua Menino do Engenho que homenageia Fernando Elza, uma das vítimas dos Crimes de Maio de 2006 | Foto: Jeniffer Mendonça/Ponte Jornalismo

Em uma das paredes da rua há um grafite de uma das vítimas, Fernando Elza, que tinha 21 anos na época e era conhecido como rapper Malote. Ele havia sobrevivido ao ataque e foi assassinado seis meses depois. “A gente está aqui por todas essas vidas que foram perdidas nas mãos da polícia”, complementa Maria Nilda, da Rede.

O protesto se encerrou em frente à casa da família. Os manifestantes rezaram um Pai Nosso, gritaram “Igor Presente” e fizeram uma salva de palmas em homenagem ao rapaz. “Esse é só o primeiro desses atos, enquanto eu respirar, enquanto eu viver, eu vou lutar pelo meu filho e por todos esses meninos”, garantiu Ana.

Outro lado

A Ponte entrou em contato com a assessoria de imprensa da Secretaria de Segurança Pública para saber o andamento das investigações do caso.

Em nota*, a InPress, assessoria de imprensa terceirizada da SSP, informou que o caso está sendo investigado pelo DHPP, da Polícia Civil, e também por um inquérito na PM.

“Familiares da vítima já foram ouvidos e informações provenientes da Ouvidoria anexadas ao inquérito. A autoridade policial intimou novas testemunhas para depoimentos e solicitou dilação de prazo ao Tribunal de Justiça”, informou a pasta.

*Reportagem atualizada às 10h15, de 05/08/2020, após recebimento de nota da SSP.

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