‘Saí do hospital com minha esposa morta e eu, acusado de ladrão’

22/04/20 por Nathane Dovale, especial para a Ponte

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Vigilante de 62 anos conta que funcionários de hospital em Gravataí (RS) o acusaram de ter furtado um celular e bateram nele, dizendo: ‘negro não é cidadão’

Maria Gonçalves, à esquerda, seguido pela filha, Joyce, e o marido, Everaldo, em festa de aniversário do neto, no ano passado| Foto: Arquivo pessoal

“Entrei com a minha esposa viva no hospital e saí de lá com ela morta, e eu acusado de ladrão”, diz Everaldo da Silva Fonseca, 62 anos. Após sair do trabalho, no último sábado (18/4), o vigilante foi até o Hospital Dom João Becker, em Gravataí, região metropolitana de Porto Alegre (RS), visitar a esposa, Maria Gonçalves Lopes, 55 anos, que estava internada por problemas no fígado.

Everaldo foi acusado de ter furtado o celular de uma enfermeira, agredido fisicamente por seguranças do hospital e sofreu injúrias raciais. Logo após a agressão, a enfermeira percebeu o equívoco e encontrou o celular. 

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“Fui lá para cuidar dela. Na hora que entraram na sala, eu estava dando carinho para ela. Sempre fomos muito carinhoso um com o outro. Eu não entendi o que estava acontecendo, mas entraram lá me acusando de ter roubado o celular da enfermeira, gritavam para mim ‘nego sem vergonha’, diziam que negro não era cidadão. Eu não entendi nada”, relata o vigilante.

Segundo Everaldo, um segurança, uma técnica de enfermagem e uma enfermeira entraram na sala fazendo acusações. “Abriram minha mochila, jogaram minhas roupas no chão, minha marmita e meus documentos. Não satisfeitos, começaram a mexer nos lençóis que estavam na maca da minha esposa, reviraram até as fraldas que ela tava usando. Minha esposa ficou desesperada, assustada por causa da cena”, conta. 

Fachada do hospital Dom João Becker | Foto: Paulo rsmenezes/Wikimedia

Após o segurança revirar todos os seus pertences, começou a agredir o vigilante de 62 anos com socos nas costas. “Eu dizia que não estava com o celular, que não tinha pegado nada de ninguém, mas eles não acreditaram. Depois entrou a enfermeira dizendo que o celular estava com ela”, diz. 

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Everaldo afirma que, após a enfermeira dizer que o celular não tinha sido furtado, o levaram para outra sala. “Eles tentaram me agradar, me ofereceram comida, pediram desculpas e me deixaram fora do quarto onde estava minha esposa. Três horas depois, me informaram que ela havia morrido. Quando cheguei lá o corpo dela já estava dentro de um saco preto, sem nenhum cuidado”, conta. 

Segundo a filha de Everaldo, Joyce Fonseca, 28 anos, a mãe morreu de uma parada cardiorrespiratória. “Minha mãe morreu de boca aberta de tanto gritar. O que causou a parada cardíaca nela foi o que ocorreu. O mais triste é que minha mãe partiu vendo meu pai apanhar. O hospital colocou que ela morreu de desnutrição, sendo que ela não estava desnutrida, estava com um problema no fígado. Ela faleceu de parada cardíaca e eles estão mentindo a causa”, diz. 

Everaldo conta que não recebeu nenhum apoio do hospital após o ocorrido. “Nós não mexemos com ninguém, sofremos preconceito e agora que eu tenho medo do que pode acontecer comigo e com meu filho. Já é ruim para nós, negros, no dia a dia, e ainda passar por essa situação. O hospital está distorcendo tudo o que aconteceu e se negando a assumir”, relatou. 

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O delegado da  1˚ Delegacia de Política Civil de Gravataí, Márcio Zaquelo, informa que o caso foi registrado no local e que foi aberto um inquérito para apurar os fatos. “Ele (Everaldo) fez a B.O e relatou o que houve. Segundo o que foi contado, os fatos se caracterizam como crime de constrangimento ilegal, pois revistaram dentro das fraldas da paciente e injúria racial, devido ao que foi dito ao idoso. Ele foi encaminhado para fazer exame de corpo e delito, devido às agressões. Fomos até o hospital pedir o registro das imagens para somar ao inquérito”, disse. 

Antes de investigar, hospital já tem sua conclusão

O Hospital Dom João Becker afirma que abriu sindicância para investigar o episódio, mas, mesmo antes da conclusão da investigação interna, já tem sua conclusão: a de que não houve “agressões nem injúria racial conforme especulado” contra Everaldo e sua família.

Veja a íntegra da nota do hospital.

Com relação aos fatos ocorridos nas dependências do Hospital Dom João Becker na madrugada do último sábado, 18/04, envolvendo familiar de paciente, salientamos que, na manhã deste domingo, 19/04, foi iniciada uma sindicância interna para averiguação do evento, com base no Código de Conduta vigente em todos os hospitais da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre.
Assim, com base nos elementos apurados até o momento, cabe informar:
1. A paciente foi levada ao hospital Dom João Becker pela SAMU na manhã do dia 17/4, em estado grave em razão de doença pré-existente. Recebeu todo atendimento médico necessário ao quadro clínico.
2. Por volta de 4h00, houve um episódio de suspeita de furto de celular nas dependências do hospital, no qual lamentavelmente, por circunstâncias, o familiar acabou sendo envolvido. Contudo, a situação foi prontamente esclarecida. A suspeita não decorreu de motivo racial, tampouco houve agressão ou injúria racial conforme especulado indevidamente em redes sociais;
3. No momento do fato a paciente encontrava-se dormindo e não tomou conhecimento do ocorrido. O óbito ocorreu por volta de 9h50 por causas naturais, devido à gravidade de doença crônica pré-existente, não havendo qualquer relação plausível de causa e consequência entre os eventos, conforme atestam todos os documentos de registro assistencial;
4. A Direção do Hospital Dom João Becker lamenta profundamente o ocorrido, que está em total desalinhamento com seus padrões éticos e de conduta e informa que os envolvidos foram afastados de suas funções até à conclusão das apurações.
Por fim, informamos que a apuração, para maior detalhamento dos fatos, ainda está em curso e os resultados serão divulgados oportunamente.

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