Temendo despejo, ocupantes do Paissandu impedem limpeza na praça

Movimentos de moradia que se uniram aos sobreviventes do desabamento se negam a deixar Largo do Paissandu alegando falta de garantias, como o auxílio-aluguel a todos os acampados

A Prefeitura Regional Sé recuou, na manhã desta quarta-feira (20/6), de usar caminhões-pipa e jatos de água com produtos químicos na limpeza do Largo do Paissandu, no centro de São Paulo, onde um acampamento,  formado por antigos moradores do edifício Wilton Paes de Almeida e outros sem-teto, resiste há 50 dias. São aproximadamente cem barracos, que abrigam um pequeno grupo de sobreviventes do desabamento, pessoas vindas da região da Luz, da favela do Moinho e até mesmo de outras ocupações da região central. De acordo com a própria prefeitura de São Paulo, cerca de 20% são vítimas do prédio que desabou durante um incêndio no feriado do 1º de maio. A maior parte dos ex-moradores já recebeu o auxílio-aluguel e deixou a praça. A tragédia deixou sete mortos, duas pessoas desaparecidas e mais de uma centena de desabrigados.

Moradora da ocupação limpa a frente da sua barraca | Foto: Daniel Arroyo/Ponte Jornalismo

A prefeitura havia informado por escrito sobre o procedimento a ser realizado no entorno da Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, agendado para esta manhã, A resistência dos moradores em removerem suas barracas para a entrada dos caminhões fez com que os agentes municipais se limitassem a varrer o local, removendo pequenas quantidades de roupas velhas, copos descartáveis e folhas que despencam das árvores que cobrem o acampamento Raphaelly Vitória da Silva Ribeiro – nome dado em homenagem ao bebê que nasceu no local e morreu minutos após o parto no último dia 6. Após mais de 50 dias de ocupação, o chão de pedra portuguesa está encardido e o intenso cheiro de urina beira o insuportável.

Um dos moradores da ocupação com o filho dele | Foto: Daniel Arroyo/Ponte Jornalismo

Uma das razões para isso é a falta de manutenção, por parte da prefeitura, dos 10 banheiros químicos instalados no local, sendo 4 para mulheres e 3 para homens. A reportagem notou urina e fezes no chão dos banheiros, além de água empoçada.

“Querem manter as piores condições possíveis para ver se as pessoas saem daqui. Querem vencer pelo cansaço. Desde o início deveriam ter colocado essas pessoas em hotéis simples e pousadas pelo centro, assim como foi adotado no programa De Braços Abertos [criados pelo ex-prefeito Fernando Haddad para abrigar moradores de rua e dependentes químicos da região da Luz]. Se quisessem efetivamente resolver a situação já tinham resolvido. O que não dá é a cidade mais rica do país conviver com essa situação de degradação”, afirmou o advogado Ariel de Castro Alves, que acompanhou toda a ação.

Banheiros químicos deveriam ser mantidos pela prefeitura | Foto: Daniel Arroyo/Ponte Jornalismo

Diante do cenário, assessores do prefeito regional da Sé, Eduardo Odloak, que estiveram no local, afirmaram que a utilização dos jatos de água com produtos químicos era mais do que necessária na praça.

À reportagem, moradores disseram que se recusaram a retirar suas barracas pela falta de garantia de que poderiam retornar logo após o término da ação. Eles contam que só deixarão o local após todos os moradores receberem o auxílio-moradia. Segundo eles, a promessa da prefeitura é finalizar o cadastro e atender todas as famílias, inclusive realizando o pagamento do auxílio, até o próximo dia 25, segunda-feira. No entanto, a resistência já mostra sinais de abalo. O semblante das pessoas é bem diferente do início da ocupação, com um ar cansado e uma certa descrença de de uma solução que os permitam não mais dormir ao relento.

Procurada, até a publicação da matéria, a prefeitura ainda não havia se pronunciado sobre a data de pagamento. Sobre a limpeza dos banheiros químicos, a administração do prefeito Bruno Covas (PSDB) informou que vai notificar a Inova -empresa que atua na limpeza da região central- a proceder uma ação no local. A mesma Inova deixou 30 saco de lixo para uso dos moradores.

Equipe de limpeza da prefeitura | Foto: Daniel Arroyo/Ponte Jornalismo

‘Não vamos sair daqui’

Uma das mais exaltadas durante as conversas com agentes da prefeitura era Leofabia Rodrigues da Silva, uma das moradoras mais antigas do prédio atingido pelo fogo. “Nós não somos ‘nóias’. Não vão tirar nossas barracas. Eles podem varrer, fazer o serviço deles, mas sem tirar nossas barracas. Não somos cachorro para sair com água”, gritou.

Do outro lado, funcionários da prefeitura regional escalados para dialogar com os acampados tentavam mostrar que estavam em “missão de paz”, principalmente destacando que não havia presença de forças de segurança usadas durante ações de zeladoria, como a Polícia Militar e a GCM (Guarda Civil Metropolitana). Eles também afirmaram ter avisado os moradores 48 horas antes sobre a ação de zeladoria, o que foi confirmado pelos acampados.

Cesar, morador do 1º andar do prédio que desabou | Foto: Daniel Arroyo/Ponte Jornalismo

Enquanto os servidores municipais se desdobravam na tentativa de convencer os moradores a liberar a entrada da equipe de limpeza na área cercada por grades desde a tragédia, o prefeito regional da Sé, Eduardo Odloak foi visto pela equipe de reportagem ao telefone, dentro de um carro preto, estacionado a cerca de 50 metros da praça. Questionado sobre a ausência de Odloak durante a ação, um assessor afirmou que sua presença “chamaria mais atenção”.

Prefeito regional da Sé, Eduardo Odloak, não queria chamar atenção, segundo assessor | Foto: Daniel Arroyo/Ponte Jornalismo

Durante a limpeza, a maior parte dos moradores se mostrou indiferente com a ação. Alguns continuaram dormindo, outros permaneceram sentados na entrada de suas barracas. Crianças se divertiam jogando bafo com figurinhas da milionária Copa do Mundo 2018.

Uma funcionária da empresa de limpeza se queixou. “Não deixam a gente entrar, como é que vamos limpar uma coisa que não deixam”, sussurrou bem perto da reportagem.

Atrito entre vizinhos

A falta de uma solução quanto a permanência dos moradores no local já é motivo de atrito entre as pessoas que vivem nas barracas e vizinhos do Largo, como o comerciante de uma floricultura que há anos tem ponto na região e está vendo seu lucro despencar após a ocupação. “Ninguém entra mais aqui para comprar. Nem o telefone toca mais”, conta o proprietário, o português José Morim, que está no Brasil há mais de 50 anos.

Seo José, dono de floricultura na praça, alega que acampamento está lhe causando prejuízo | Foto: Daniel Arroyo/Ponte Jornalismo

Embora reclame da presença dos acampados, José coloca o imbróglio todo na conta do poder público. “Na hora que ocuparam, já estavam errados, mas deixaram. O erro é das autoridades. No meio dessa gente tem muita gente que não precisa dessas ofertas do governo, prejudicando aquelas que mais necessitam. Não adianta vir com adoçante, vir com limpeza. As autoridades têm que vir com solução. Isso não é vida para as crianças”, completou.

Foto: Daniel Arroyo/Ponte Jornalismo

Durante uma pausa em uma pequena discussão com o comerciante Morim sobre crenças e a pressão que ele faz para que as famílias deixem o local, o vendedor ambulante Adilson Silva, 48 anos, também lembrou a demora do poder público para uma solução definitiva aos desabrigados. “Se era para lavar por que não lavaram antes? Só vieram depois de 50 dias. Nós reconhecemos que está sujo, mas isso não é motivo para fazer com que a gente saia daqui. A igreja é a que mais pressiona para que a gente saia daqui”.

Foto: Daniel Arroyo/Ponte Jornalismo

Outro lado

Em nota, a Prefeitura de São Paulo afirma que “realizou todas as ações possíveis para atendimento e abrigamento das famílias vítimas do desabamento e que disponibilizou abrigo emergencial com ampla capacidade de acolhimento dos desabrigados, leitos, acesso a banho, alimentação, e paga auxílio-moradia para 221 famílias que comprovadamente estavam na ocupação do edifício Wilton Paes de Almeida”.

Além disso, ressalta que para o atendimento habitacional, as famílias assinaram um termo de compromisso que determina a utilização do benefício para aluguel, além da saída do local de risco.  “Assim, para o saque da segunda parcela devem usar o benefício para a finalidade proposta e custeio com moradia adequada. Esta situação vale para todos, inclusive para quem permanece na praça”.

O prefeitura também reforça que na última semana a Justiça Federal indeferiu todos os pedidos da Defensoria Pública, um deles solicitava a colocação de tendas, estrutura e banheiros químicos na praça. Entendendo que não há razão jurídica para que as famílias ali permaneçam, e diante do atendimento emergencial já disponibilizado pelo município, o juiz não apenas indeferiu o pedido como também alterou a decisão proferida anteriormente e estabeleceu o prazo para que os banheiros sejam retirados do local até o dia 30 de junho. O único deferimento foi com relação ao atendimento definitivo das famílias vítimas do desabamento, compromisso já assumido anteriormente à decisão pelo município.

*Reportagem atualizada em 21/6, às 2h05

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