“Temos que nos perguntar todo dia se somos livres ou escravos”, diz Paulina Chiziane

9 minutos atrás

“Se não tem problemas no meu trabalham, eles inventam”, conta a primeira mulher a publicar um romance em Moçambique

Paulina Chiziane, escritora | Foto: Alessandra Goes Alves

Apesar de ter sido a primeira mulher a publicar um romance em Moçambique (Baladas do amor ao vento, em 1990), Paulina Chiziane recusa o estatuto de romancista. Nascida na província de Gaza, ao sul do país, a escritora tem na tradição de sua região e em seu histórico familiar as origens da marca de sua literatura: a contação de histórias. “Venho de uma tradição africana bantu, que tem uma forma de lidar com a emissão de mensagens a partir da oralidade”, afirma ela, cuja primeira escola de arte foram as rodas de fogueira em sua casa.

Crescida nos subúrbios de Maputo, Chiziane ingressou na Universidade Eduardo Mondlane para estudar Linguística, curso que jamais concluiu. Na capital, envolveu-se com a luta da Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo) pela independência do país, organização da qual saiu, nos anos 80, para se dedicar à literatura. Primeiro, publicou contos na imprensa moçambicana e só depois se dedicou aos romances. “Sou uma aventureira. No começo, eu era escritora de fim-de-semana. Trabalhava todos os dias e escrevia na sexta à noite. Dormia pouco e continuava no sábado. Ser mulher é quebrar fronteiras e se arriscar”, defende ela, vencedora do Prêmio José Craveirinha (o maior da literatura moçambicana) por Niketche: Uma História de Poligamia, em 2003.

Se é difícil limitar a biografia de Paulina Chiziane a um único espaço, o mesmo ocorre com sua literatura, capulana tecida por histórias de mulheres, amores, conflitos, política e espiritualidades. Avessa a qualquer classificação, Chiziane tem a literatura como exercício de liberdade — para ela, condição para transitar entre temas polêmicos e expandir a humanidade de si mesma, de suas histórias e do leitor.

“Construímos uma sociedade nova através da palavra. E isso não vai ser de um dia para o outro. A escravatura durou quase cinco séculos e a libertação durará outros séculos. Palavras são para construir nova identidade. Lutar por liberdade é desconstruir mentiras construídas como verdades. Nós temos a palavra e vamos usá-la em sua potência máxima para desconstruir mentiras construídas ao longo de séculos”, afirmou a escritora.

Na FLICA (Festa Literária Internacional de Cachoeira – Bahia – Brasil), a senhora disse que o Brasil te devolve a história de ser mulher e negra. Por quê?

Paulina Chiziane – Venho de um país de maioria negra. O racismo para mim não existe no meu país e no continente africano. Claro, sempre há um racismo escondido, mas de modo diferente daqui. Quando saio de Moçambique e vou para outro país em lugares como a Europa e a Ásia, começo a sentir um bocado o racismo. Começo a sentir que o tratamento é diferente. Quando vim para o Brasil, no princípio, senti mais a diferença mas, ao mesmo tempo, achei estranho porque as estatísticas falam de um país com grande maioria negra. Mas, em termos práticos, quando vamos para o aeroporto, os aviões, nas grandes instituições, os negros não são visíveis. Agora começam a ser um pouco mais. Isso me chamou a atenção. Chegar ao Brasil e encontrar essa comunidade de descendentes de africanos, que vive a condição que vive e faz uma luta para se libertar muito semelhante àquela que fazemos em Moçambique. Algo mudou. Me deu muita força.

Que dificuldades você enfrentou como mulher negra na literatura? Quais as diferenças entre hoje e o período em que você começou?

Paulina – Sou uma das escritoras mais contestadas do meu pais. No começo, perguntavam “onde estudou?”, “o que sabe?”. Aquela ideia de perguntar o que uma negra com o meu estatuto social tinha para escrever. Quem tem poder usa a estratégia do silenciamento. Se não tem problemas no meu trabalham, eles inventam. É uma luta constante. Minha literatura tem sido essa: de lutar a cada dia. Vieram me falar que a escravidão é coisa do passado, mas ela continua. A mulher negra pode se tornar escrava da ideia de que o cabelo do outro é melhor do que o dela. Temos que nos perguntar todos os dias se somos livres ou se somos escravos.

Sinto que a mulher negra está presente no Brasil hoje. Claro que já havia vozes antes, mas na escrita, era invisível. E quando surgimos no cinema, era sempre a mulher que trabalhava como babá, que fazia faxina.. E hoje a situação tende a mudar e isso é muito bom. Há hoje mais espaços fora daquele papel subalterno. Claro, temos muito a fazer ainda, mas já é visível a diferença.

O que é o empoderamento da mulher para você?

Paulina – Liberdade para pensar, agir e decidir. Ela pensa e que tenha liberdade para materializar o que ela sonha. Poder dizer o que faço é não faço, o que quero e não quero.

Para você, como deve ser a relação entre literatura e política?

Paulina – A literatura tem que ser livre. E a literatura muitas vezes guia o caminho da política. Por exemplo: através da literatura nós denunciamos injustiças e despertamos consciências em uma determinada sociedade. E aí a consciência é muito mais alta. E aqueles que estão conscientes podem mudar o curso da política. Em Moçambique aconteceu isso. José Craveirinha e Noémia de Sousa escreveram e despertaram a consciência do povo. E aí a luta foi muito mais forte. A consciência do opressor e do oprimido equilibraram-se. E houve liberdade. Eu tive sorte. E no meu país ainda temos sorte. Escritores perseguidos hoje ainda não existem. Portanto, falo do regime de modo independente. A Noémia de Sousa fugiu para o exílio porque o sistema a perseguia. José Craveirinha ficou na prisão. Em vários países essa perseguição existe hoje.

Você não se diz romancista, mas afirma contar histórias. Como esse processo se deu e por que escolheu contar histórias?

Paulina – Venho de uma tradição africana bantu, que tem uma forma de lidar com a emissão de emitir mensagem a partir da oralidade. Convivo com uma cultura europeia, que tem uma forma de contar, devidamente estruturada. O romance é formal, tem regras. Contar uma história é um espaço de liberdade. Por isso não me sinto confortável em dizer que sou algo que não vou conseguir cumprir. Quero falar de liberdade, é isso o que eu faço. Meus livros não tem uma estética regida, porque também não quero. Escrevi O canto dos escravos em verso, mas não é propriamente poesia formal. Achei que funcionasse melhor apresentar o livro em verso, um verso completamente livre. Agora, se quisesse fazer poesia, perderia muito tempo em procurar rimas e uma estética que não faz parte de mim. O que quero é dizer a mensagem com palavras curtas. E não é propriamente poesia. Os estudiosos de literatura vão dizer “não há poesia porque deveria ter seguido essa e aquela forma”. Eu quero trabalhar em liberdade.

E o que é a liberdade para você?

Paulina – É o essencial. Aquilo que é essencial para a vida de todos os seres. É o espaço por onde eu posso sonhar um mundo melhor. E sem ter ninguém para dizer “vai por aqui ou por ali”.

E você se sente livre?

Paulina – Se eu fosse livre, não escreveria. Seria um ser morto. Porque eu acho que a liberdade é aquilo que todos procuramos. Encontramos um pouco, na nossa vida. E que também foge. Para mim, a liberdade é esse lugar que sempre se percebe mas que, quando se alcança, foge de nós imediatamente. Por isso que é bonito. A literatura me permitiu ser um pouco mais livre.

Que silêncios da senhora as palavras ainda não traduziram?

Paulina – Eu falo das coisas, mas minha palavra é silenciada. Há palavras que não consigo dizer, embora queira dizer. Há palavras que me sinto obrigada a silenciar.

Por exemplo…?

Paulina – Não consigo dizer.

No ano passado, você disse em algumas entrevistas que não iria mais escrever. Por que?

Paulina – Pode ser que haja algum acontecimento, mas não quero fazer guerra para escrever nada. Deixo para a geração mais nova. Tenho netas e netos, às vezes estou trabalhando no computador e eles querem jogar qualquer coisa. Me dizem “vovó, vamos caçar borboletas”. Nesses momento, além de liberdade, me sinto uma mulher absolutamente realizada. Gosto de fazer isso e cuidar das minhas flores. Entretanto, se houver algum acontecimento, vou fazendo um registro, sem pressa, sem pretensão, sem nada.

Em sua participação na Flica, você disse que a literatura é construir uma identidade mais humana a partir da palavra. Como?

Paulina – Vamos pegar os processos históricos. Os historiadores falam “uma armada composta por dez navios, comandado por tal marechal capturou uma aldeia e escravizou sessenta mil pessoas”. Mas a literatura vai falar do dilema, da mulher que ficou, do homem que partiu, do sofrimento ao longo do percurso, do sofrimento do marechal que levou uma flechada de um índio e gangrenou até morrer. Quando essa história formal “seca” se transforma em literatura, a gente começa a compreender um ao outro. Por exemplo, o marechal que se apaixona por uma negra no meio do mar e vive uma história de amor. Já não é aquela coisa rígida que nada diz, como se contassem pedras, mas é uma história que faz as pessoas se tornarem mais humanas. Os brancos também amam, também se apaixonam, também são pessoas. Palavra é construção. Palavra é desconstrução. E temos que ter consciência da importância da palavra. Tenho que lutar para ser aquilo que eu sou. Se não nos cuidamos, somos escravistas de nós próprios. A luta para a liberdade de um se reflete no outro. À medida que vamos nos libertando todos, a sociedade fica mais harmoniosa e mais humana.

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