Tentaram calar o pai do Armandinho

    Cartunista Alexandre Beck, que criticou a PM em uma tira de novembro de 2018 e acabou repreendido pela Brigada Militar do RS, teve contrato rescindido em todos os jornais onde publicava em SC

    Alexandre Beck foi desligado de todos os jornais de SC onde publicava | Foto: reprodução Facebook

    Alexandre Beck é um sujeito inofensivo. Tem fala mansa, em um discurso onde as palavras são todas muito bem pensadas. Saem como a conta gotas. Não aparenta ser um sujeito impulsivo. Gosta de estar em contato com a natureza e, inclusive, tem por hábito se afastar de tempos em tempos da cidade grande para ficar em algum recanto com muito verde. Nestes lugares, como o próprio Alexandre diz, consegue aterrar. “Manter os pés no chão e se manter são”, aponta.

    O cartunista criou o personagem Armandinho, há quase dez anos, um garoto perspicaz que vê o mundo sob uma ótica humanista e, apesar de aparentar ingenuidade, suscita reflexões.

    Em dezembro de 2018, contudo, quatro jornais de Santa Catarina nos quais o ilustrador publicava suas tirinhas consideraram que ele poderia oferecer, sim, algum perigo. Todos decidiram rescindir o contrato com seu trabalho. Em uma dessas publicações, o Diário Catarinense, Beck chegou a ter regime de contratação como ilustrador, desde 2000. Alguns anos depois, acabou passando a freelar (trabalhar sem vínculo em carteira assinada) e publicar as tirinhas em quatro jornais do estado. A alegação para interromper a publicação: corte de gastos.

    Alexandre acredita que “pode ser só isso mesmo”, afinal, os jornais “cortam mesmo, demitem”, diz, consciente. A coincidência – ou não – é que a rescisão de contrato do ilustrador com as publicações catarinenses acontece após três fatos: a eleição presidencial de Jair Bolsonaro; a eleição estadual de Carlos Moisés, o Comandante Moisés, do mesmo partido do presidente; e duas notas de repúdio enviadas ao jornal Zero Hora, do Rio Grande do Sul, em novembro: uma redigida pela Brigada Militar (a Polícia Militar local) pela publicação de uma tirinha que criticava a violência policial e o racismo institucional; e outra, enviada poucos dias depois, do Conselho Regional de Medicina do mesmo estado, pela crítica a atuação da classe médica no sistema público de saúde.

    A partir de fevereiro, Beck, que segue publicando em jornais do Rio Grande do Sul e com a página do Armandinho atualizada, passa também a enviar alguns trabalhos para a Ponte Jornalismo.

    Confira entrevista com Alexandre Beck:

    Ponte – Como foi informado da interrupção da publicação do seu trabalho?

    Alexandre – Fui contratado ainda em 2000 como ilustrador pelo Diário Catarinense. Em 2002 eu comecei a fazer tirinha, em 2005 eu saí do jornal e em 2009 eu voltei para fazer só tirinha, mas trabalhando de casa. O Diário Catarinense era da RBS (Rede Brasil Sul), que tem atuação em Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Foi ali que nasceu o Armandinho, em 2010. Já faz alguns anos, não sei quantos, que a RBS vendeu a parte dela de SC para um grupo de empresários, da NSC Comunicação. Ou seja, mudaram os donos. Eu continuei publicando, já publicava em outros jornais aqui [em Santa Catarina]No dia 16 de dezembro, recebi a ligação de alguém do Diário Catarinense dizendo que infelizmente não iam mais conseguir publicar minhas tirinhas. Questionei se as outras publicações também [além do Diário, a NSC tem outros três jornais] e a pessoa disse que sim. No dia seguinte, fui falar com eles pessoalmente e disseram que estavam me procurando fazia uns dez dias e que era pra eu ter saído antes. O argumento dado foi corte de custos, redução de despesas, reformulação do jornal diante da crise dos jornais, a questão da internet.

    Ponte – Você se envolveu em novembro em um caso de uma tirinha publicada no Zero Hora que desagradou a Brigada Militar do Rio Grande do Sul. Mesmo assim, acredita que a interrupção de publicação foi motivada só por corte de custos?

    Alexandre – Eu acho que é possível que seja só isso. Porque eles cortam, mandam embora mesmo. Desde que comecei a publicar no Diário Catarinense, há dez anos, nunca tive aumento, por exemplo. Então eu acho que pode ser só isso [questão financeira]. Por outro lado, é difícil a gente não associar isso ao que aconteceu imediatamente antes, um mês antes. Mas é muito difícil eu tentar julgar isso. Eu vou estar só supondo. Na verdade, eu espero ser demitido, mas demitido entre aspas, porque não sou funcionário de nenhum local, mas digo ir perdendo o espaço nos jornais. Os jornais impressos têm um público, no geral, muito conservador. Eu sei que ali não é um terreno seguro para eu caminhar com as tirinhas. Mas é um espaço interessante para gerar algumas discussões, levantar algumas questões. Tem tira que eu publico na internet, por exemplo na página do Armandinho, mas não mando para os jornais.

    Ponte – Tipo uma autocensura. Por quê?

    Alexandre – Porque é um espaço que eu não queria perder, para ter esse canal de comunicação com um público mais conservador. Eu tenho plena consciência de onde estou, eu estou no sul do país. Tudo aponta para que as notas que aconteceram em novembro [da Brigada Militar do RS referente a uma tirinha que falava sobre racismo na polícia e do Conselho Regional de Medicina – RS, dias depois, por causa de uma outra tirinha que critica o atendimento pública de saúde] sejam reflexo do resultado das eleições. Da eleição do candidato presidencial. Porque eu mandei tiras para o jornal e as notas de repúdio vieram por causa dessas tiras que são, a princípio, até menos ofensivas do que algumas outras que eu já tinha publicado no próprio jornal.

    Ponte – Quais?

    Alexandre – Ah, algumas que tinham potencial mais “ofensivo”. E isso eu digo entre aspas, porque não é ofensivo, mas mais explícito. As mais críticas eu nem mando para o jornal. As notas de repúdio eu tenho certeza que vieram nessa onda pós eleição. Vindo desses setores, a Brigada Militar e, infelizmente, os médicos, que é uma turma que tem uma postura mais conservadora. Ou seja, vieram evidentemente nessa esteira da vitória do Bolsonaro.

    Ponte – E como você acredita que fica o debate de ideias ao deixar de publicar nesses locais que, como você mesmo disse, são mais conservadores? Empobrecido? Porque é aquela história de pregar para convertidos…

    Alexandre – Eu acho que sim. Em relação ao jornal, em relação aos custos que eles alegaram, eu sei que para o jornal, por conta desse público que eles tem, eu tenho um custo não só financeiro. Eles reclamam demais para o jornal. Com relação às bolhas, eu acho que a gente tem que debater mesmo. Só que não com memes, entende? E a impressão que eu tenho é que os bolsonaristas só usam memes para debater. Ninguém anda querendo se aprofundar em questões. Existe um endeusamento desse anti intelectualismo, essa anti informação. Não é uma turma fácil de ser conversada, de acessar. Ainda mais que tem uma turma ali que se auto intitula cidadão de bem, doutor, um pessoal de uma elite, que não é fácil. Eu sempre estou aberto a discussão, mas precisa ser em um nível minimo de racionalidade. Caso contrário, você entra num campo de ofensa que não nos leva para nenhum lugar bom.  Eu não gosto de rotular, mas tem uma turma que se encaixa mesmo em um perfil bem fascista e com esses eu tenho evitado debater.

    Ponte – A gente falou da eleição de Bolsonaro, mas o governador de Santa Catarina é apoiador dele e do mesmo partido, o PSL. Isso também não deu força para o que te aconteceu? Os meios de comunicação temerem alguma animosidade?

    Alexandre – Algo pode estar acontecendo para agradar. Eu sei que os meios de comunicação aqui são muito ligados a política. Mas também não tenho como dizer que pode ter alguma relação. Mas isso é uma forma de política que aqui na imprensa existe. Eles não querem ter atrito, querem criar um canal de diálogo com quem está no poder e nessas corre o risco de eles colocarem a informação em segundo plano. E eu acredito que o papel da imprensa seria o da boa informação, do bom jornalismo. Portanto, não descartaria [uma relação entre as coisas], mas não dá pra dizer que o desligamento foi por causa disso ou daquilo.

    Ponte – E como avalia daqui para frente? Estamos, de fato, vivendo tempos sombrios?

    Alexandre – Eu era muito pessimista em relação a esse governo. Por tudo que ele estava anunciando, demonstrando. Mas não achei que fosse ser tão ruim. Eu fui pego de surpreso com meu pessimismo. Eu quase estava sendo otimista. Não esperava que fosse tão grave. E é só um primeiro início. E tá muito escrachado. Esse anúncio, por exemplo, do [deputado da bancada ruralista] Valdir Colatto para comandar as florestas [Serviço Florestal Brasileiro[. Esse cara que propôs a permissão de caças a animais, inclusive em áreas protegidas. A gente sabia o nível que eram aquelas pessoas, o nível das pessoas que votaram nele. Já existia uma questão séria com relação aos preconceitos, a uma desinformação muito latente. Mas não achava que fosse ser tão grave assim. É deprimente. Eu não consigo mais falar com parentes que votaram no Bolsonaro. Eu até tentei reavaliar, mas é difícil não responsabilizar as pessoas que votaram nele por tudo isso que está acontecendo e que ainda vai acontecer. Ninguém veio pedir desculpas para mim por ter votado no Bolsonaro. Esse é um drama pessoal que eu tenho. Ao mesmo tempo, a gente vê tanta gente boa lutando.

    Ponte – Há um movimento de resistência, apesar do desânimo?

    Alexandre – Sim. Tem muita gente boa na luta. Podíamos nos acomodar no nosso canto? Eu, como homem branco, classe média, poderia continuar aqui no meu canto fazendo meu trabalho. Porque essas medidas de agora podem não me afetar diretamente. Mas estão afetando um monte de gente que não merece ou que já esta sendo punido mais do que já é e já foi historicamente. Então eu quero trabalhar dobrado. Por mais que doa, eu to fazendo materiais que não pensava em fazer.

    Ponte – Quais?

    Alexandre – É ate engraçado, porque o pessoal sempre achou e falou que as minhas tirinhas eram resistência, mas vou te dizer que estava meio acomodado aqui. Vou continuar com as tirinhas, mas quero criar outros materiais, como HQ, outros personagens. O pessoal me conhece mais pelo Armandinho, mas eu tenho muito mais coisas pra fazer e, inclusive, materiais do Armandinho temáticos, por exemplo, em relação ao meio ambiente, em relação aos direitos humanos. E é até curioso, porque eu já fui para universidades, tipo a Unicamp, já fui também para a Unesp, em [São José do] Rio Preto (SP), para falar sobre direitos humanos e quis saber que material eles estavam usando. E vi as tiras do Armandinho e percebi que nunca tinha me tocado que Armandinho tratava de direitos humanos, foram professores que começaram a me dizer que faziam esse uso, eu comecei a receber a solicitação.

    Ponte – No Rio Grande do Sul você continua publicando?

    Alexandre – Sim. Em três eu publico diariamente.

    Ponte – E como não desistir?

    Alexandre – Eu vivo uma parte do tempo no mato, roçando, plantando. Lá eu consigo aterrar, manter o pé no chão, me manter são, na consciência para essa luta que a gente precisa ter e temo que seja longa. Eu acho que a gente tem que ser um pouco realista: não vamos conseguir recuperar tudo que esta sendo perdido e entregue em pouco tempo. Mas o pessimista de verdade teria desistido da luta faz tempo. Eu acho que tem que manter a esperança e combater o bom combate. Não consigo me encarar como pessimista, porque, se eu fosse, já teria desistido.

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