Alunos denunciam censura no Instituto Nacional de Educação de Surdos

30/01/19 por Leonardo Coelho, especial para Ponte

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Vídeos sobre pensadores progressistas, da filósofa Marilena Chauí e do político Jean Wyllys estão entre os que saíram do catálogo sem explicações oficiais ou técnicas; MEC liga jornalista a serviço de espionagem da Rússia

Sede do INES fica sediado no centro do Rio de Janeiro | Foto: Reprodução

Uma série de vídeos publicados na WebTV, canal online do INES (Instituto Nacional de Educação de Surdos), vinculado ao Ministério da Educação, sumiram do catálogo do site sem qualquer tipo de explicação. Em comum, os episódios retirados tratam de temáticas consideradas de esquerda ou progressistas, como detalhamento da obra do pensador alemão Karl Marx, criador do marxismo.

A denúncia sobre a retirada dos videos veio da representante dos alunos no conselho diretor do INES, Dandara Ribeiro, que é pedagoga e estudante da instituição. Ela soube do sumiço ocorrido no site através de uma professora da instituição que, ao tentar achar um programa de entrevistas feito pela TV INES na qual o ex-deputado Jean Wyllys aparecia, acabou não encontrando o episódio.

A informação correu o INES, motivando alunos e professores a verificar outros possíveis sumiços – em uma espécie de pente fino na WebTV. No fim, eles deram falta de quatorze vídeos, conforme explicado pelos alunos, sendo treze deles do programa Manuário e um do Café com Pimenta, conteúdos criados pela própria instituição.

O programa Manuário tem entre seus objetivos ser um dicionário visual para a comunidade surda. Dentre os conteúdos retirados do catálogo há vídeos que trazem perfis de conhecidos pensadores de esquerda, como o italiano Antonio Gramsci, o próprio Karl Marx, do francês Felix Guattari, e dos brasileiros Marilena Chauí e Boaventura de Souza Santos. Há outros episódios que também sumiram.

A lista com os demais vídeos retirados do ar, intencionalmente ou não, inclui uma entrevista com o agora auto-exilado político Jean Wyllys no programa Café com Pimenta – que gerou a descoberta do sumiço dos vídeos graças a pesquisa de uma professora – e um episódio do programa Vida em Libras que falava sobre feminismo. Toda a checagem dos links foi feita no dia 28 de janeiro de 2019.

Acessibilidade para surdos é uma bandeira empunhada pela primeira dama, Michelle Bolsonaro. Durante a posse presidencial de Jair (PSL), Michelle discursou antes do marido em libras (a língua brasileira de sinais) e integra o Ministério de Surdos e Mudos da Igreja Batista Atitude, localizada na cidade do Rio de Janeiro.

Ao mesmo tempo, Bolsonaro prometeu combater o que chama de “doutrinação de esquerda” na educação nacional. “Uma das metas para tirarmos o Brasil das piores posições nos rankings de educação do mundo é combater o lixo marxista que se instalou nas instituições de ensino. Junto com o Ministro de Educação e outros envolvidos vamos evoluir em formar cidadãos e não mais militantes políticos”, escreveu o presidente em seu perfil na rede social Twitter, um dia antes da posse.

A Ponte entrou em contato com o MEC (Ministério da Educação) para cobrar explicações sobre a denúncia dos alunos do INES. Em nota, o órgão apontou que há uma sindicância no instituto para obter informações sobre a retirada dos vídeos do ar. Depois, assumiu um tom agressivo e recheado de teoria da conspiração para atacar o jornalista Ancelmo Gois, que revelou a denúncia no jornal O Globo.

“A apuração preliminar já identificou, entretanto, que os vídeos foram retirados em abril e em novembro de 2018, o que demonstra que a nota publicada na coluna de Ancelmo Gois, no jornal O Globo, do dia 29 de janeiro de 2019, é tanto falsa quanto maldosa ao atribuir a responsabilidade ao Ministro da Educação, professor Ricardo Vélez Rodríguez, que só assumiu o Ministério, em janeiro deste ano”, atacou o MEC, na nota, antes de entoar uma lógica lunática.

“Ao contrário do que quer fazer crer o colunista, ludibriando dessa forma os leitores do jornal O Globo, durante a sua vida como docente, o ministro da Educação [Ricardo Vélez Rodríguez] sempre ensinou e defendeu a pluralidade e o debate de ideias, recusando-se a adotar métodos de manipulação da informação, desaparecimento de pessoas e de objetos, que eram próprios de organizações como a KGB, o serviço secreto do governo comunista na antiga União Soviética, que na década de 1960, quando de sua fuga do Brasil para a Rússia, protegeu e forneceu identidade falsa para o colunista de O Globo”, ataca o ministro. “Na época, segundo ele próprio declarou em entrevista ao site da Associação Brasileira de Imprensa em 2009, Ancelmo Gois foi treinado em marxismo e leninismo na Escola de Formação de Jovens Quadros do Partido Comunista soviético”, finaliza.

O Ministério da Educação também disse em nota que “a apuração preliminar já identificou que os vídeos foram retirados em abril e em novembro de 2018.” A reportagem apurou, entretanto, que ao menos três vídeos (Manuário – Karl Marx; Vida em Libras – Feminismo e Café Com Pimenta – Jean Wyllys 1) estavam online ao menos até dia 2 de janeiro de 2019, quando a atual administração já estava no poder

A Ponte ainda acionou a ACERP (Associação de Comunicação Educativa Roquette Pinto), responsável por gerenciar o site da TV INES. Até a publicação desta reportagem, não houve resposta sobre o motivo para o desaparecimento dos vídeos do catálogo da WebTV.

Características de censura

Diretor geral do INES, Paulo Bulhões, por sua vez, evidenciou em seu perfil no Facebook sua surpresa com a situação – ele divulgou um vídeo em libras para se posicionar. Ao mesmo tempo, publicou uma nota oficial da instituição, explicando que cobrou esclarecimentos da ACERP “em três dias sobre as motivações e as datas da retirada do material”. Bulhões sustenta ainda que pediu providências para que os vídeos sejam recolocados no ar.

Os alunos seguem indignados com a situação. Para Dandara, o que aconteceu é bem próximo da censura. “O universo da surdez já têm uma taxa muito alta de exclusão escolar, então, não pode haver qualquer tipo de cerceamento de conteúdo. Muitas vezes, esse é o único material em libras que o surdo pode acessar diretamente”, explica.

O ocorrido deixou o clima entre funcionários e alunos ruim antes mesmo de ter início o ano letivo na instituição. Para um professor do INES que preferiu o anonimato, há receio entre os colegas de que o INES “se transforme em um laboratório para esse novo governo dada a relativa invisibilidade da instituição e a proximidade da comunidade surda com a atual primeira dama, Michelle Bolsonaro”, revela.

Outros profissionais de referência na comunidade surda e de Libras também se posicionaram sobre o ocorrido na instituição, citando que a presença de lideranças surdas no novo governo cria esperança que demandas antigas sejam enfrentadas, desde que sem a privação de conhecimento, como o que os alunos denunciam ter acontecido no INES.

“Caso eles quiserem colocar autores renomados que tenham simpatia do atual governo, podem pedir novos episódios sem necessariamente retirar outros”, avalia o docente em Libras Valdo Nobrega, da UFPB (Universidade Federal da Paraíba). Segundo Nobrega, os materiais produzidos têm cunho meramente pedagógico e são utilizados em aulas em Libras de história, filosofia, etc. “Parece que o governo não compreende a utilidade da TV INES, a pioneira na mídia que utiliza a Libras como a língua principal na comunidade surda”, completa.

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