Ameaças de morte levam Jean Wyllys a deixar o Brasil e Bolsonaros comemoram

Deputado federal do RJ e primeiro parlamentar assumidamente gay no país justifica decisão por real ameaça contra a vida; enquanto isso, presidente e seus filhos festejam: ‘Vá com Deus e seja feliz’

Jean assumiria o seu terceiro mandato consecutivo como deputado federal pelo RJ | Foto: José Cruz/Agência Brasil

O deputado federal pelo Rio de Janeiro Jean Wyllys decidiu renunciar ao cargo e não retornará ao país, se exilando em um local não informado com medo das ameaças de morte que tem sofrido de forma constante. Ele é alvo recorrente de notícias mentirosas, especialmente durante a campanha eleitoral, sendo perseguido por grupos conservadores que apoiam o presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL).

Jean revelou a decisão em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, justificando as recorrentes ameaças de morte e o assassinato da vereadora Marielle Franco entre os motivos para a decisão. O deputado já apontava viver “pela metade”, conforme dito em entrevista para a Ponte no dia 10 de dezembro de 2018.

“A minha vida é uma vida pela metade. Eu fico constrangido de ir num lugar de passeio, de lazer, com uma escolta. Não é bacana. Nos últimos meses eu fui apenas uma vez ao cinema. Quando eventualmente consigo ir ao teatro vou de escolta”, explicou Jean. “Moro a duas quadras da praia de Copacabana e tem dois meses que não piso na areia. Eu posso ser atacado a qualquer momento. Essa não é apenas uma sensação, é uma constatação”, completa.

À Folha, Jean detalhou o porquê de se afastar definitivamente da vida pública e permanecer fora do Brasil. “Me apavora saber que o filho do presidente [Jair Bolsonaro] contratou no seu gabinete a esposa e a mãe do sicário”, afirma Wyllys. “O presidente que sempre me difamou, que sempre me insultou de maneira aberta, que sempre utilizou de homofobia contra mim. Esse ambiente não é seguro para mim”, completou.

O deputado ainda citou entre as motivações para ter desistido do mandato o caso de três casais lésbicos agredidos desde a eleição de Bolsonaro e ameaças de morte a ele feito por uma desembargadora do Rio de Janeiro. “O [ex-presidente do Uruguai] Pepe Mujica, quando soube que eu estava ameaçado de morte, falou para mim: “Rapaz, se cuide. Os mártires não são heróis”. E é isso: eu não quero me sacrificar”, explicou.

Na votação da Câmara dos Deputados pelo impeachment de Dilma Rousseff (PT) da presidência em 2016, Jean Wyllys cuspiu em Jair Bolsonaro, então deputado federal, quando o capitão reformado do Exército exaltou o coronel Carlos Alberto Brilhante Usta – reconhecido pela Justiça brasileira como um torturador da época da ditadura. Jean acabou investigado pelo Conselho de Ética da Câmara dos Deputados por conta da ação, e o grupo definiu uma advertência como pena. Em contrapartida, Bolsonaro não teve nenhuma punição por apoiar publicamente um torturador da ditadura.

Suplente rebate Bolsonaro

Horas depois da entrevista ser publicada pela Folha, o presidente eleito e seus filhos usaram as redes sociais para comemorar. “Grande dia”, postou Jair Bolsonaro, seguido de um joinha, uma bandeira do Brasil e um símbolo de arma com as mãos. Posteriormente o presidente negou ter se referido à decisão de Jean, mas à “missão” concluída em Davos, na Suíça, durante o Fórum Econômico Mundial.

“Vá com Deus e seja feliz!”, escreveu Carlos Bolsonaro, vereador do Rio de Janeiro e responsável por gerir as redes sociais do pai.

 

Eduardo Bolsonaro, deputado federal eleito por São Paulo, preferiu postar uma entrevista do pai para a TV Record sobre sua participação do Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça. Flávio Bolsonaro, senador eleito pelo Rio de Janeiro e  que empregou em seu gabinete enquanto deputado estadual parentes de integrantes de milícias cariocas envolvidos no assassinato de Marielle Franco, segundo o jornal O Globo, publicou uma fala de Jair Bolsonaro o defendendo de denúncias.

O substituto de Jean Wyllys no mandato é David Miranda, também ativista LGBT. Ele aproveitou a postagem de Jair Bolsonaro para rebater. “Respeite o Jean, Jair, e segura sua empolgação. Sai um LGBT, mas entra outro e, que vem do Jacarezinho. Outro que em 2 anos aprovou mais projetos que você em 28 anos. Nos vemos em Brasília”, tuitou.

 

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