Após desaparecimento de PM Juliane, Paraisópolis teme represália

    Vida na comunidade estava normal nesta sexta (3/8), mas bar onde Juliane dos Santos Duarte foi abordada e vista pela última vez permanecia fechado

    Rua Melchior Giola, em Paraisópolis, onde PM desapareceu | Foto: Maria Teresa Cruz/Ponte Jornalismo

    A média a R$ 1,70 da sempre movimentada Padaria Sorocaba, em Paraisópolis, zona sul de São Paulo, estava sendo vendida normalmente na manhã desta sexta-feira (3/8). Assim como a loja de bijuterias, a de roupas e o sacolão, vizinhos da padoca, e a barraca de pastel, bem em frente, todas estavam em pleno funcionamento. A única situação que fugia do script era o insistente barulho de helicóptero sobrevoando a comunidade, além do forte aparato policial em um dos acessos da comunidade, na Avenida Giovanni Gronchi, próximo à Avenida José Galante. Havia, contudo, uma atmosfera de preocupação no ar.

    A polícia continua em busca da PM Juliane dos Santos Duarte, 27 anos, desaparecida desde a madrugada da quinta-feira (2/8), quando foi vista pela última vez no Bar do Litrão, na Rua Melchior Giola, a 20 metros da Padaria Sorocaba. “Depois do que aconteceu, não sei se vai abrir não, viu”, me informa uma moradora. O bar é bastante conhecido na comunidade e, de acordo com outro morador, “bomba” às sextas-feiras, sagrado dia de baile funk no local.

    Fachada do Bar do Litrão, que permanecia fechado nesta sexta-feira | Foto: reprodução GoogleMaps

    De acordo com a investigação, Juliane estava de folga e, depois de participar de um churrasco na casa de um casal de amigos, decidiu ir com duas amigas tomar uma cerveja no Bar do Litrão. Em um determinado momento da noite, o celular de uma das amigas teria sumido e Juliane decidiu se identificar como policial e cobrar das pessoas que estavam no local o paradeiro do aparelho. A Ponte tentou contato com uma das testemunhas, que se limitou a dizer que “não iria se pronunciar e que confia no trabalho da polícia”.

    “Três pessoas já foram ouvidas e confirmam essa versão de que ela, nesse momento, teria se apresentado como policial e dito que o celular teria que aparecer”, explica o delegado Antonio Sucupira, do 89º DP (Portal do Morumbi), responsável pela área. Pouco tempo depois, quatro homens encapuzados teriam chegado ao bar e perguntado aos frequentadores quem seria a policial. Juliane, então, foi levada para fora do local e testemunhas ouviram dois disparos. Em seguida, os homens levaram a PM embora.

    Segundo apurou a Ponte, o caso segue sendo tratado como desaparecimento e a investigação não descarta nenhuma possibilidade, inclusive a de Juliane estar viva e mantida em cativeiro. A soldado está lotada em uma companhia que faz patrulhamento no Jabaquara, bairro da zona sul da cidade, e está na corporação há dois anos.

    PM Juliane dos Santos Duarte | Foto: arquivo pessoal

    As pessoas da comunidade não querem falar sobre o caso. Quem fala, pede anonimato. Para uma moradora, Juliane se colocou em completo risco indo a um bar dentro da comunidade e muito próximo a um ponto de venda de drogas e ainda por cima se apresentando como policial. “Olha, acho que ela foi ou muito corajosa ou muito ingênua”, disse. O tráfico de drogas local está sob comando do PCC (Primeiro Comando da Capital) desde 2003, quando Juarez, o então operador do tráfico no local, chamado pelos moradores de “prefeito”, foi expulso pela facção.

    Investigadores ligados ao caso concordam com a visão da moradora e afirmam que a PM errou ao se identificar como policial estando sozinha num lugar onde não conhecia.

    Um morador demonstra preocupação com o que poderá acontecer nos próximos dias, a depender do desfecho da história. “A polícia vai cobrar, com certeza. E tenho muito medo de sobrar para quem não tem nada ver com isso tudo, como sempre acontece”, desabafa. “Eu fico o dia todo fora, mas minha mãe e minha filha estão lá. Soube que tem muita polícia em vários acessos da comunidade. Vamos ver como vai desenrolar o pancadão no fim de semana”.

    A reportagem verificou a presença da Força Tática, Cavalaria da PM e do GOE (Grupo de Operações Especiais) em diversos acessos da comunidade, auxiliando nas buscas que, de acordo com a Polícia Civil, devem continuar nos próximos dias.

    No fim da tarde desta sexta-feira*, a Polícia Civil recebeu imagens de câmeras de segurança da região da Praça Panamericana, na zona oeste de São Paulo, que mostram um suspeito abandonando a moto da PM Juliane dos Santos Duarte. As imagens serão consideradas nas buscas e no processo de investigação.

    *Reportagem atualizada às 20h13 do dia 3/8 

    Errata às 0h10 de 7/8 – Juliane era soldado, e não cabo, como noticiado inicialmente na reportagem. A informação foi corrigida.

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