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Artigo | Bolsonaro e o pânico moral

31/12/18 por Silvia Gonçalves, especial para Ponte

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Presidente de extrema direita se apega ao medo para estimular cruzada moral contra o ‘esquerdismo’ e a ‘ideologia de gênero’, e, assim, coloca em segundo plano o debate sobre o que esperar de seu governo

O presidente eleito Jair Bolsonaro quando ainda era deputado em uma sessão da Câmara | Foto: Wilson Dias/Agência Brasil

Desde sua campanha, o presidente eleito Jair Bolsonaro tem se valido do pânico moral com a difusão do medo a um suposto perigo comunista e a uma improvável doutrinação LGBTQ+ nas escolas. Ao apelar para uma cruzada moral, o novo presidente acaba por eclipsar o debate sobre seu plano de governo e a opção por pautas econômicas ultraliberais, como a política de privatizações e a redução de direitos trabalhistas. O conceito de pânico moral foi difundido na década de 1960 pelo sulafricano Stanley Cohen¹.

Com a expressão, o autor queria explicar como, a partir da difusão de estereótipos e exageros, um grupo de social passa a ser temido como um perigo para os valores mais amplos da sociedade. Um exemplo de como Bolsonaro se vale dos assuntos morais para se esquivar de pautas mais “concretas” em relação ao seu plano de governo aconteceu em uma de suas primeiras declarações após ser eleito presidente do Brasil. Iniciou sua fala pelas redes sociais comentando sobre a reforma da previdência, uma das principais pautas de seu futuro governo. Sobre o assunto, passível de afetar milhões de brasileiros, o presidente eleito deu apenas respostas evasivas. Destacou frases imprecisas como “se pudesse, não retiraria direitos”. Contudo, ao falar sobre uma questão do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), o presidente foi bem mais profícuo. Indignado, considerou a questão, que trata sobre expressões utilizadas por gays e travestis, como “absurdo”. Prometeu que, após ser empossado, tomará conhecimento do Exame antes de ser aplicado.

Tais declarações de Bolsonaro revelam muito sobre o posicionamento do novo presidente. Em sua cruzada baseada no medo, declarou a uma delirante doutrinação comunista e a uma inexistente ideologia de gênero como os inimigos morais da nação. Não se chega ao estágio de pânico moral ao acaso. Requer um processo específico, que basicamente compreende três fases, seguindo à risca o roteiro de Cohen. No Brasil, é possível perceber tal processo de forma nítida. Na primeira fase, surgiriam uma série de boatos e rumores, geralmente relacionados aos LGBTQ+ e a uma delirante ameaça comunista. Entre o escárnio de uns e a incredulidade de outros, fomos bombardeados pelas ironicamente célebres fake news suspeitamente difundidas em favor do candidato eleito à presidência.

Como sinal dos tempos, no caso brasileiro, o pânico foi difundido pelo Whatsapp. Neste quesito, a lista de impropérios é tão absurda que chega a ser difícil pensar que alguém tenha acreditado na existência de mamadeiras em forma de pênis distribuídas em escolas paulistanas ou que a candidata à vice-presidência na chapa adversária tenha ligação com o atendo que vitimou Bolsonaro.

Na verdade, quanto mais exageradas e deturpadas forem as “informações”, mais eficiente o processo. Sim, o sensacionalismo é uma das principais ferramentas. Na segunda etapa do processo, quando o movimento de distorção e exagero dos dados já estava estabelecido, ocorreu o trabalho de demonização. Criaram-se estereótipos, bodes expiatórios, supostamente causadores da “desordem social”. Responsabilizados pela crise dos valores tradicionais, os “esquerdistas” – por mais difuso e impreciso que seja o conceito- foram tomados como os causadores da perda do “valores da família” e da “crise de autoridade da nação”.

Na terceira etapa do trajeto de pânico moral, floresceu um discurso, no qual se estabeleceu uma polarização rasa entre duas categorias tão enigmáticas, quanto irreais: o grupo dos que representam o mal, os bodes expiatórios responsáveis por problemas imaginários, exagerados e distorcidos; e entre os grupos que representam o bem (ou o cidadão de bem, como queiram), aqueles portadores de todas as virtudes relacionadas à ordem. O problema é que, diante dessa dicotomização despropositada, ganhou espaço o desejo pelo consenso por via autoritária. E esse é o grande perigo. Na última fase do processo de pânico moral, diante de uma separação fabricada, a coesão social se faz pela eliminação do outro.

Nesse sentido, não foi sem razão a virulência do discurso de Bolsonaro contra a questão do Enem. Em sua peculiar forma de pensar, embalada pela influência de “filósofos” como Olavo de Carvalho, o Ministério da Educação dos anos de governo do PT seria a instância, cujo principal objetivo era adestrar crianças, fatalmente suscetíveis à doutrinação esquerdista e de gênero. Em sua sanha em eliminar “os bandidos vermelhos”, as escolas são estrategicamente perigosas, sendo necessária a atuação enérgica para evitar a influência comunista e homossexual.

Acontece que, enquanto vocifera contra o Enem, pouco se sabe sobre seu plano de governo. Os escassos indícios nos chegam por conta do radicalismo liberal de seu ministro da economia ou pelas velhas barganhas políticas que colocaram o DEM novamente no centro do poder, Sobre as reformas tributárias e da previdência, apenas raras e confusas palavras, que deixam antever a perda de direitos da população em geral.

Nesse cenário de poucas certezas, parece que amparar-se no discurso moral ao escolher supostos inimigos do país é uma das estratégias mais eficientes utilizadas pelo presidente eleito. Colocando os militantes de esquerda e a população LGBTQ+ como primeiros alvos em nome de uma suposta cruzada moral, perdemos a chance de debater os planos do novo presidente para o país.

  1. Embora difundido por Cohen, a noção de pânico moral é usada pela primeira vez por Jock Young

*Silvia Gonçalves é jornalista, cientista social e doutoranda pela UFJF (Universidade Federal de Juiz de Fora)

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