Artigo | O MEC, a KGB e a paranoia antimarxista

01/02/19 por Sílvia Gonçalves, especial para Ponte

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O sistema educacional e as mídias nunca deixaram de ser burguesas e capitalistas

Presidente Jair Bolsonaro cumprimenta o ministro Ricardo Vélez em sua posse no MEC | Valter Campanato/Agência Brasil

Parece uma comédia de erros com resultados trágicos. Em nota, na qual se defende das acusações do colunista Ancelmo Gois, do Globo, por supostamente ter censurado vídeos considerados “esquerdistas”, o MEC (Ministério da Educação) acusa o jornalista de, pasmem, ser treinado em “marxismo e leninismo”. A delirante comunicação, publicada, na noite de quarta-feira(30) na página oficial do MEC no Facebook , demonstra a investida do pensamento conspiratório ao novo governo ao propagar um absurdo perigo comunista, criando um inimigo imaginário como forma de se legitimar.

A nota divulgada pelo MEC é de um amadorismo quase inacreditável. Escrita em caixa alta e com erros de grafia, a comunicação tenta esclarecer a retirada de vídeos da TV INES, do INES (Instituto Nacional de Educação de Surdos) – sob a tutela do Ministério da Educação. Informa que, de fato, produções que abordavam a biografia de personagens como Marx, Engels e Nietzsche foram retiradas do ar, mas que tal “censura” em nada tem a ver com a gestão do ministro Ricardo Vélez Rodriguez. Esclarece a nota que os vídeos foram retirados do ar em abril e novembro de 2018, tendo o novo ministro assumido o cargo em janeiro de 2019.

O desmentido do MEC, porém, é ofuscado no último parágrafo da nota. Ao final do texto, associa o colunista Ancelmo Gois ao socialismo soviético, sugerindo que o jornalista tenha tido ligações com a extinta agência de espionagem KGB após ter sido treinado em, ipsis litteris, “marxismo e leninismo” na década de 1960.
A rocambolesca nota deve ser vista mais do que uma piada de mau gosto. Revela o quão longe chegou o novo governo e seu Ministério da Educação em seu anacrônico delírio conspiratório.

Para começar, o próprio ministro da Educação, Ricardo Velez, é um exemplo acabado de anacronismo e paranoia. Entusiasta do movimento Escola sem Partido, o ministro, Diante de uma pasta com pautas tão sérias como a formação dos professores e a falta de infraestrutura, Velez prefere localizar sua luta no combate à influência do educador Paulo Freire e ao que chama de “entulho marxista”.

Nesse processo visando varrer o viés ideológico da educação brasileira, o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), maior meio de ingresso ao ensino superior do país, vem sofrendo constantes ataques por parte do novo governo. A última proposta é a vistoria das provas pelo presidente.

Com o Enem, novo governo agiu rápido. Exonerou a presidente do INEP (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira), Maria Inês Fini, no dia 14. No lugar de Maria Inês, foi nomeado o engenheiro Marcus Vinícius Rodrigues. Ligado aos militares, Rodrigues já avisou com todas as letras que “o presidente Bolsonaro é o dono do Enem”

Ao evocar uma suposta doutrinação, o novo governo recorre à ideia de marxismo cultural, conceito difundido pela direita brasileira amparado pela “produção filosófica” do pensador contemporâneo (ironia) Olavo de Carvalho. De modo geral, marxismo cultural remete a uma fantasiosa conspiração. Na insensatez olaviana, comunistas improváveis em 2018 estariam infiltrados nas escolas, na mídia, nas universidades. Doutrinadores ferozes, tais soldados vermelhos estariam preparando terreno para a revolução comunista a partir da manipulação ideológica, da destruição da família e dos valores tradicionais.

Assustador, não? Acontece que tais concepções são pura falácia. Uma conspiração fantasiosa gerada por uma leitura equivocada das obras do pensador Antonio Gramsci e dos teóricos da Escola Frankfurt. De modo bem simplificado, Gramsci e os baluartes de Frankfurt se dedicaram em entender como instituições como as escolas e a mídia contribuíam para a legitimação do capitalismo na sociedade ocidental.

A grande ironia e onde reside o desatino dos marxistas culturais está em enxergar uma conspiração comunista justamente em instituições que, para Gramsci e para frankfurtianos, possibilitam a perpetuação do capitalismo e não seu enfraquecimento. Basta pensar: quando o sistema educacional e as mídias deixaram de ser burguesas e capitalistas? A resposta é óbvia. Nunca deixaram de ser.

A pergunta que fica é entender como o medo gerado por uma teoria tão rasa quanto a do marxismo cultural ganhou espaço a ponto de passar a interferir nas pautas do Ministério da Educação e no maior mecanismo de inserção no ensino universitário do Brasil. A resposta reside exatamente na pergunta: o medo. O pânico moral causado por um inimigo inexistente.

No delírio, os esquerdistas e os movimentos sociais são a própria representação do perigo. Sob o risco de desmoronamento do mundo como conhecemos, aqueles que representam a ameaça devem ser considerados inimigos e eliminados. É provável que foi munido dessa ânsia em eliminar seu opositor que Bolsonaro, sem o menor pudor, se mostrou impelido a “varrer do mapa os bandidos vermelhos”.

A fabricação de inimigos é velha conhecida de governos autoritários. A filósofa Hannah Arendt estudou a questão quando analisou a origem de governos totalitários e em especial o Estado nazista. Arendt percebeu que a concepção de um inimigo objetivo não só legitima o próprio autoritarismo, mas forja, pelo medo e pelo ódio, um sentimento de coesão e de pertencimento. Assim, assustados com uma fantasia absurda, para o governo Bolsonaro, as escolas passam a ser vistas como antros de doutrinação a crianças indefesas. Professores são alçados à condição de inimigos em potencial.

Nesse cenário, a educação não perde seu viés ideológico. Ao contrário, assume uma proposta obscurantista, em que qualquer menção à diversidade de pensamento, erroneamente travestida de inimigo moral, deve ser silenciada em nome do autoritarismo. Um imenso e talvez irreversível retrocesso.

*Silvia Gonçalves é jornalista, cientista social e doutoranda pela UFJF (Universidade Federal de Juiz de Fora)

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