Artigo | Thelma campeã do BBB mostra para os pretos e pretas que vencer é possível

28/04/20 por Keilla Vila Flor, especial para Ponte

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O racismo não acabou com a vitória de Thelma e nem teria acabado se fosse Babu o ganhador, mas prêmio significa representatividade e encorajamento

O BBB20 é seu, Thelminha | Foto: Reprodução/TV Globo

Nesta terça-feira (28/4), o BBB20, reality show da TV Globo, chegou ao fim com o melhor desfecho dentro da final formada: Thelminha Assis foi escolhida campeã pelo público, deixando Rafa Kalliman e Manu Gavassi para trás.

Thelma Regina Maria dos Santos Assis tem 35 anos, é médica, passista, é mulher preta. No pódio da final, era a única inscrita, por isso iniciou o programa sendo desconhecida do grande público e seu carisma e pulso firme para lidar com os conflitos dentro do confinamento conquistaram uma legião de admiradores fora da “casa mais vigiada do Brasil”, como habitualmente diz o apresentador Thiago Leifert.

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A coerência de suas escolhas e atitudes fez com que Thelma tivesse torcida e apoio para vencer não só os fã clubes numerosos das outras duas concorrentes somados aos das suas supostas amigas durante o confinamento, como também os inúmeros ataques racistas.

Mesmo que Thelma não tivesse levado o R$ 1,5 milhão do prêmio, ela já seria vencedora por tudo que ela é: médica, passista, filha, esposa, mulher e negra. Na edição que valorizou os debates sobre feminismo é fundamental ressaltar que Thelma é uma mulher preta!

Thelminha durante o confinamento | Foto: reprodução/Instagram

Ser preta fez com que Thelma não fosse prioridade para nenhuma de suas companheiras de confinamento da “comunidade hippie”; fez com que ela não se enquadrasse na alcunha de “fada sensata” – muito pelo contrário! Todas as vezes em que Thelma se impôs no jogo, ela teve suas atitudes questionadas pelas próprias “amigas” de confinamento, como quando ela confrontou as ditas “fadas” por dizerem ter medo do Babu [Santana, ator que foi eliminado na semifinal], ou quando ela e Flayslane brigaram e as supostas amigas estavam no cômodo ao lado fingindo que nada acontecia.

Thelma é uma mulher preta e qualquer análise feminista que desconsidere isso não merece sequer ser lida.

Na retrospectiva do programa apresentada pela emissora foi interessante observar como essa edição foi realmente “Girl Power” e o feminismo esteve em alta – com direito a Rafa apontando dedo na cara de Hadson, dizendo que ele é machista. Imagina o alvoroço que seria se algum dos participantes negros apontasse o dedo na cara de outro e o acusasse de racismo? O desfecho seria óbvio: aqui fora iriam querer processá-lo pela acusação e seque iriam se importar com o problema: o racismo.

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A maior parte do(as) artistas e influencers negros(as) iniciou o último paredão antes da final (composto por Babu, Rafa e Thelma) fazendo campanha para que Babu e Thelma permanecessem no jogo, porque apesar das discordâncias dos dois dentro do confinamento, nós, aqui fora, percebíamos que a aliança entre eles era real. Entretanto, os ataques dos fãs enfurecidos das “fadas” fez com que alguns artistas e influencers optassem por um dos dois – já que essa foi também a estratégia tão controversa quanto compreensível adotada pelos administradores das páginas dos participantes. Mesmo com a divisão dos votos, alguns influencers continuaram puxando mutirões de votos para eliminar Rafa Kalimann, pela compreensão de que o cenário ideal dentro de um programa que só atingiu igualdade de participantes brancos e negros após a eliminação de dezesseis participantes, era levar dois pretos para a final.

Thelminha antes de entrar no BBB | Foto: arquivo pessoal

Infelizmente não aconteceu e Babu foi eliminado. Imediatamente após sair, Babu, que dentro da casa sacrificou sua única aliança — com Prior — para manter sua palavra de não votar na Thelma enquanto existissem outras opções, afirmou mais uma vez que estava comprometido com a ideia de pelo menos um dos pretos ganhar o programa.

No cenário de uma final formada por Manu Gavassi, que tem um enorme número de fãs, e Rafa Kalimann, que além de ser uma influencer com milhões de seguidores, ainda usava de um discurso apelativo de caridade para vencer o programa, houve enorme apreensão quanto à possibilidade de Thelma ganhar. Essa apreensão não está ligada à descrença em Thelma, mas na certeza de que vivemos num país racista.

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Não, o racismo não acabou com a vitória da Thelma. Também não teria acabado se Babu estivesse no pódio. Quem reforça a ideia de que a vitória de Thelma põe fim ao racismo no Brasil é justamente quem está, neste momento, questionando coisas como “e agora? O racismo acabou?”. Demonstra, inclusive, que de racismo nada entende, mas odeia ver os pretos felizes, comemorando.

Nós, que observamos aqui de fora diversas falas e comportamentos racistas dos participantes serem remediados com interpretações errôneas ou rasas sobre racismo estrutural, sempre estivemos cientes que um preto no topo não representa a emancipação de todo povo negro, mas que a vitória de um preto é vitória para todos nós. As vitórias de Gleici [Damasceno, vencedora da edição 18 do programa] e de Thelma são representatividade, porque elas encorajam, porque mudaram vidas — se não muitas vidas, as delas mesmas. Enquanto para alguns, representatividade se resume em mera representação vazia, para nós, ela abre portas na vida e na mente, gera empregos, abre caminhos. Afinal, é preciso que um preto vença para que os outros saibam que vencer é possível.

Homenagem feita para Thelminha por Atila Britto | Foto: reprodução/Instagram

Antes de Thelma, recentemente tivemos Gleici Damasceno como vencedora do BBB18. Assim como Babu, Gleici foi acusada de se vitimizar; assim como Thelma, foi chamada de “planta” e quando ganhou, os racistas insatisfeitos com a vitória de uma mulher negra diziam que ela só venceu por ser negra, “por cota”, porque se fez de coitada. Ser negro é apenas “só” para quem não é. Só nós, que somos negros, sabemos o peso de ser.

No ano passado, a vencedora do BBB19 foi Paula von Sperling, que foi processada por racismo logo após o programa por debochar de religiões de matriz africana, além das inúmeras falas completamente problemáticas ditas pela ganhadora do reality e que eram constantemente debatidas pelos integrantes da “Gaiola”, principalmente Gabriela Hebling e Rodrigo França, na tentativa de promover a desconstrução da colega de confinamento. 

Após a vitória de Thelma na noite desta segunda-feira (27/4), diversas pessoas sugeriram que nós deveríamos apagar o BBB19 e contar apenas as edições de 2018 e 2020. Apagar a vitória de Paula seria como apagar um retrato do Brasil. Apesar de a maioria da nossa população ser formada por Thelmas, boa parte se sente representada por Paulas. Entender isso é fundamental para compreender por que precisamos, a cada oportunidade, repetir que a vitória da Thelma é uma vitória negra.

O racismo não descansa e se a gente não der suporte aos nossos, não serão as Paulas, Marcelas, Gizellys ou Ivys que o farão, porque ela se protegem e se defendem para manutenção do status quo que relega às pessoas negras a ideia de que todas as nossas vitórias são “cota”, sem responsabilizarem pelo debate racial.

Obrigada, Thelma, por continuar pavimentando os caminhos!

Keilla Vila Flor é historiadora, professora e modelo. Colunista literária do Ativismo Negro

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