Jornalista brasileiro atravessa fronteira entre Turquia e Iraque para testemunhar histórias de famílias que vivem o terror da guerra envolvendo o Estado Islâmico
Os caminhos até escapar dos tiros e mísseis, prisões, enforcamentos em praça pública, abusos sexuais e outros terrores da guerra. Este é cotidiano contado no documentário “Iraque: Relatos Deserto”, feito por pessoas que moram em três campos para refugiados ao redor de Mossul, terceira maior cidade do Iraque e metrópole devastada pela guerra contra o Estado Islâmico.
Durante a produção do curta-metragem, o jornalista Guilherme Lima acompanhou a rotina de famílias que foram expulsas de onde moravam e que atualmente sobrevivem com a ajuda de organizações humanitárias. Muitas crianças nasceram em campos para refugiados ou durante a fuga das famílias em meio à violência de extremistas. O medo de ser encontrado e punidos por terroristas impede muitas pessoas de contar como e porque saíram de onde moravam.
Entretanto, entre centenas de milhares de refugiados, um pequeno grupo desafiou as barreiras impostas pelo Estado Islâmico e decidiu contar suas experiências. Entre os depoimentos, uma mulher lembra que foi presa e julgada pelos terroristas. Absolvida, acabou expulsa de Mossul e separada de sua família. Ela detalha o que presenciou na cadeia, os seus traumas e como conseguiu forças para sobreviver.
Um ex-militar da equipe de Osama Bin Laden, terrorista acusado de planejar o ataque às torres gêmeas nos Estados Unidos, em 2001, diz que tudo o que deseja é paz. Para ele, a única preocupação é garantir um futuro sem guerra para a filha e todas as crianças iraquianas. Também mostra a história de um casal, que luta para que a infância dos sete filhos seja feliz, mesmo em uma zona de conflito – área considerada pela ONU como um dos locais mais perigosos do mundo.
Estas são algumas das histórias contatas por pessoas que sobreviveram ao surgimento e à violência do Estado Islâmico. Atualmente, elas vivem em condições subumanas, em tendas sem aquecimento ideal para enfrentar o inverno ou sistema de ventilação para aliviar o calor do verão no deserto.
A ajuda humanitária está desaparecendo gradativamente, já que a guerra oficialmente acabou em julho de 2018, segundo o governo do Iraque. Quem mora nos campos para refugiados diz não saber como será a vida sem a ajuda de ONGs (Organizações Não-Governamentais). Não há empregos, as casas estão em ruínas e o governo admitiu não ter recursos para reconstruir as regiões atingidas pela guerra.
A maneira encontrada para superar os limites impostos pelo conflito é garantir recursos básicos, como água e alimentação nos campos para refugiados. O documentário Relatos do Deserto foi produzido em três destes campos. Um deles é o maior do Iraque e foi feito exclusivamente para abrigar a população muçulmana. São cerca de três mil famílias que dividem um terreno a céu aberto.
A segregação de pessoas por religião também existe em outros campos para refugiados, inclusive cristãos. Algumas pessoas enfrentaram o medo e o trauma para contar como foram expulsos de onde moravam e dizer como é a rotina e a dependência de recursos vindos de organizações humanitárias, cada vez mais escassos.