Assassinato do radialista Jefferson Pureza completa 1 ano

21/01/19 por Angelina Nunes*, do Programa Tim Lopes

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Morte de radialista foi o primeiro caso apurado pela Abraji dentro do Programa Tim Lopes; seis acusados de participação no crime estão presos

Radialista Jefferson Pureza foi assassinado há um ano | Foto: arquivo pessoal

Um ano após o assassinato do radialista Jefferson Pureza, 39 anos, em Edealina, no interior de Goiás, os seis acusados de envolvimento no crime continuam presos. Três adolescentes cumprem medidas socioeducativas: um seria o atirador, o outro teria pilotado a moto e o terceiro, indicado os dois para o serviço. O vereador José Eduardo Alves da Silva, acusado de ser o mandante, Marcelo Rodrigues dos Santos e Leandro Cintra da Silva foram citados na sentença de pronúncia do juiz Aluizio Martins Pereira de Souza, da comarca de Jandaia, no final de dezembro de 2018.

Na prática, isso significa que o magistrado encaminhou o caso para ser julgado por um tribunal do júri. O radialista foi morto na noite de 17 de janeiro de 2018, com três tiros no rosto, enquanto descansava na varanda de sua casa. Segundo os depoimentos que constam do inquérito, o crime foi negociado por R$ 5 mil e um revólver 38.

Na sentença, o juiz reforça que as prisões preventivas foram decretadas para garantir a ordem pública e que ainda persistem os mesmos motivos da manutenção da prisão até a solução definitiva do caso, já que “o crime em exame é de extrema gravidade”. Ele lembra ainda que os acusados possuem passagens pela polícia e pela justiça. Além disso, recomenda cautela porque “persiste a possibilidade de as testemunhas serem coagidas ou constrangidas com a liberdade dos pronunciados”. Por isso, indeferiu o pedido de liberdade provisória formulado pelo advogado do vereador. A defesa do acusado também entrou com embargo para a sentença de pronúncia.

“Existem provas robustas que comprovam a participação dos três maiores. As defesas dos acusados têm utilizado meios processuais permitidos por lei para provocar a demora do julgamento. Esperamos que o tribunal do júri seja marcado ainda neste primeiro semestre”, afirma o advogado Joel Pires, que atua como assistente de acusação junto ao Ministério Público.

O assassinato do radialista foi o primeiro caso tratado dentro do Programa Tim Lopes, desenvolvido pela Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), com apoio da Open Society Foundations, para combater a violência contra jornalistas e a impunidade dos responsáveis. Em caso de crimes ligados ao exercício da profissão, uma rede de veículos da mídia tradicional e independente é acionada para acompanhar as investigações e publicar reportagens sobre as denúncias em que o jornalista trabalhava até ser morto. Integram a rede hoje: Agência Pública, Correio (BA), O Globo, Poder 360, Ponte Jornalismo, Projeto Colabora, TV Aratu, TV Globo e Veja.

O segundo caso abordado pelo programa foi o do radialista Jairo de Sousa, 43 anos, em Bragança, no Pará, morto na madrugada de 21 de junho de 2018 com dois tiros, quando chegava para trabalhar na rádio Pérola FM. O suspeito de ser o mandante é o vereador Cesar Monteiro. Ele teria contratado um grupo de oito pessoas para realizar o crime. O vereador e mais sete estão presos; um continua foragido.

Ameaças e morte

Jefferson Pureza iniciou seu trabalho em Edealina em 2016 e fazia referência e acusações constantes sobre despachos e contratos realizados, no ano anterior, pela administração municipal. O radialista pertencia a um grupo político de oposição ao do ex-prefeito João Batista Gomes Rodrigues, o Batista Boiadeiro (PTB), e do vereador José Eduardo, secretário de Ações Urbanas na gestão de Batista Boiadeiro.

Um ano antes de seu assassinato, no programa “A voz do povo” do dia 26 de janeiro de 2017, Pureza usou o microfone da rádio para revelar a existência de um plano para sua morte. Disse que, se algo lhe acontecesse, os responsáveis seriam o vereador e o ex-prefeito. O programa tinha uma hora de duração, a partir das 11h, e era veiculado pela rádio comunitária Beira Rio FM.

Outros incidentes ocorreram ao longo de 2017. Em agosto, um transmissor da rádio foi furtado e houve um pequeno incêndio. No mês seguinte, a casa que o radialista mantinha em Pontalina, cidade vizinha onde moravam a ex-mulher e os filhos, foi atingida por tiros. Em novembro, em Edealina, aconteceu um novo incêndio que destruiu as instalações da rádio comunitária e o receptor foi furtado. Para driblar a falta de espaço físico para suas transmissões, o radialista chegou a usar o perfil no Facebook para veicular o programa por alguns dias.

O assassinato ocorreu na noite de 17 de janeiro de 2018, em uma casa alugada pelo radialista apenas 15 dias antes. O imóvel fica em uma rua da periferia da cidade, onde ele morava com a companheira, de 17 anos, grávida de quatro meses. Antes disso, desde que chegara a Edealina, Pureza vivia em um quarto do Hotel Bambu, no centro da cidade.

O vereador

Poucos dias depois do assassinato de Jefferson Pureza, mesmo sem ter sido convocado oficialmente, o vereador José Eduardo Alves da Silva foi à delegacia de Edeia prestar esclarecimentos. No depoimento de quatro páginas e meia, de 30 de janeiro de 2018, ele narra a sua vida na cidade, seu conturbado casamento que terminou após 17 anos e os ataques que recebia do radialista. Silva disse que Pureza só se referia a ele como “vereador da transferência de votos”, pois o acusava de ter transferido eleitores de outras cidades para garantir sua eleição e de ter se apropriado da terra da roça comunitária.

Sobre a acusação de ter planejado um atentado contra o radialista, Silva afirmou que, em 2017, teria combinado com um rapaz chamado Junio de dar uma surra em Jefferson “para ele sumir da cidade” e atear fogo em seu carro. O dinheiro prometido, R$ 3 mil, seria pago pelo pastor Thiago (Marinho, atual secretário de Administração). Segundo o depoimento, pelo fato de sua mulher ter descoberto, o plano não foi adiante. O pastor negou em depoimento que estivesse envolvido no caso.

O vereador também revelou que, em 2013, se separou da mulher, Marley Alves de Jesus Faleiro, por ter descoberto um caso dela com um rapaz e, na ocasião, durante uma discussão tê-la agarrado pelo pescoço, ameaçando-a de morte. A mulher se mudou para Uberlândia (MG). Ele disse ainda ser ciumento e que chegou a contratar um rapaz chamado Daniel para matá-la por R$ 5 mil. No entanto, o pai do vereador descobriu o plano e o fez desistir, mas ele perdeu o dinheiro da negociação. A separação durou quatro meses, e eles reataram. Em novembro de 2017, os dois se separaram, porque a mulher não perdoou a sua traição “com uma tal de Kelly”.

Separados, o vereador passou a desconfiar que a ex-mulher estaria tendo um caso com o radialista e disse ter voltado ao plano de mandar dar uma surra em Jefferson Pureza. Ele contou que, em dezembro de 2017, Marcelo Rodrigues dos Santos, o apresentou a dois rapazes em Aragoiânia, cidade vizinha. O encontro aconteceu em um lava jato, e o valor combinado para o serviço seria de R$ 4 mil. No entanto, segundo ele, pelo fato de Marcelo ter sido preso (por envolvimento em tráfico), o plano não se consumou.

Essa versão ganhou novos detalhes com depoimentos dos envolvidos e, em 6 de abril do ano passado, o Ministério Público ofereceu denúncia contra o vereador, Marcelo Santos e Leandro Cintra da Silva, dono do lava jato onde teria acontecido a negociação. A denúncia fala que, “motivado pelas críticas recebidas e com ciúme da esposa”, o vereador planejou executar Jefferson Pureza em janeiro de 2017 por R$ 3 mil, mas o plano não foi adiante. Um novo plano foi criado em dezembro, quando Silva, junto com Marcelo, encontrou Leandro e o adolescente Gabriel Gonçalves Feliciano, a quem fez a proposta de matar o radialista.

Feliciano não aceitou e indicou Thiago Batista Nunes, que rejeitou os R$ 4 mil oferecidos e alegou que só aceitaria o serviço por R$ 5 mil e um revólver. Marcelo Santos teria indicado Rodrigo Moura para pilotar a moto. Depois do crime, Thiago Nunes procurou Feliciano e o ameaçou, caso ele revelasse os bastidores da negociação. O vereador teria também teria procurado Feliciano e lhe dado R$ 200 por ter indicado os adolescentes para a execução do crime.

Novas versões

Acompanhado de advogados, os envolvidos deram outras versões. O vereador nega que tenha mandado matar o radialista e conta ter ido a Aragoiânia apenas para ajudar Marcelo Santos a buscar uma carteira de trabalho e conversado com ele sobre o problema pelo qual estava passando, a separação da mulher e as desconfianças do envolvimento dela com o radialista. Nessa versão, Santos o teria conduzido ao lava jato e apresentado as pessoas para executar a morte do radialista. Depois de algumas conversas, o vereador teria desistido do assunto.

Já Santos admite que estava em regime semiaberto e que tinha sido preso por não ter comparecido em juízo por estar trabalhando em um serviço temporário. Ele confirmou ter ido com o vereador a Aragoiânia em busca de sua carteira de trabalho que estava em um emprego anterior. Nessa versão, o vereador é quem teria falado em dar uma surra em Pureza. Santos nega ter apresentado os adolescentes.

Acusado de ter atirado no radialista, o adolescente Thiago Nunes nega o crime, mas confirma ter sido procurado por Gabriel Feliciano para fazer um serviço. Ele disse ter conhecido o vereador, que estava muito nervoso e teria lhe oferecido R$ 5 mil e uma arma, mas que ele não havia aceitado a oferta. Já Rodrigo Moura, que teria pilotado a moto usada na noite do crime, agora diz que não sabe de nada.

Por sua vez, Feliciano afirma ter recebido a proposta do vereador para matar o radialista, mas que não aceitou e indicou Nunes e Moura. Ele contou ainda que, após o crime, foi ameaçado por Nunes para que assumisse todo o crime, caso contrário, mataria sua família. Feliciano disse ter ficado com medo de morrer e, ao ser interrogado na delegacia de Edeia, assumiu o crime, mas como não sabia dos detalhes caiu em contradição e contou o que acontecera no encontro com Nunes. O dono do lava jato, Leandro Cintra da Silva, confirma o encontro em seu estabelecimento, mas disse ter se afastado e não ouvido nada.

As denúncias

Em seus programas de rádio, Jefferson Pureza fazia referência a dois processos de 2015 que envolvem o ex-prefeito João Batista Boiadeiro e que estão no Fórum de Edeia. Um deles diz respeito a obras e suspeita de fraude licitatória. No processo, o Centro de Inteligência do Ministério Público de Goiás apresenta um relatório feito em 16 de dezembro de 2016, em que mostra as ligações entre as empresas e o ex-prefeito.

No relatório, o MP cruza os dados das empresas. O representante de uma delas, Leopoldina Construtora, é José Cassiano da Costa, que também aparece em outro contrato entre a prefeitura e uma empresa chamada Leiliane Alves de Lima, que ganhou contrato de transporte escolar. Nesse segundo contrato, ele é identificado como motorista que fará o transporte. Costa é citado no relatório em que o MP pede novas diligências, além de solicitar que todos os envolvidos sejam ouvidos mais uma vez para explicar essa relação entre os contratos de empresas e o ex-prefeito.

O relatório mostra que, a partir do cruzamento de dados, a empresa Leopoldina mudou a razão social, continuando a ganhar as obras da prefeitura e eventos, já que incorporou outras atividades à empresa. O processo está parado no Fórum. Cassiano hoje é secretário municipal responsável pelo Departamento de Transportes, Obras e Desenvolvimento Urbano, na gestão do atual prefeito, Winicius Miranda (PSB), do mesmo grupo político do ex-prefeito.

Nesse processo, a obra em questão é um estacionamento. A denúncia foi feita por Sírio dos Santos Souza que afirmou ter sido contratado para a obra, recebido do próprio prefeito R$ 25 mil e executado 85% do serviço quando foi dispensado. A prefeitura então contratou outra empresa, a Leopoldina Construtora, para realizar o mesmo serviço, que já estava praticamente concluído, e receber R$ 13 mil. A empresa fechou outros contratos com a prefeitura em 2015, totalizando R$ 384,8 mil. A Leopoldina mudou sua razão social (Sheknar Construtora) e ampliou suas funções com outro braço da empresa, a Sheknar Eventos, que também usa a denominação VHS Eventos.

No segundo processo, em 19.dez.2017, a promotora Maria Cecília de Jesus Ferreira ofereceu denúncia contra o ex-prefeito João Batista e Divino Célio Neves, também ex-prefeito da cidade. O caso ocorreu em 2015 e resultou, na época, na prisão em flagrante do então prefeito João Batista, que estaria usando maquinário da prefeitura para extração ilegal de areia em um rio que passa pela fazenda de Divino Neves. A carga seria levada para a fazenda de João Batista. A denúncia foi feita, e os policiais da capital foram ao local e prenderam o então prefeito.

A perícia mostrou que houve o crime ambiental e iniciou então uma batalha de recursos, na qual o então prefeito teve uma parcial vitória, já que possuía foro privilegiado. O caso ficou parado até 2018, quando foi feito novo recurso e, constatado que João Batista já não teria o benefício do foro privilegiado, podendo ser julgado. O MP então ofereceu denúncia. Até agora não houve progresso no caso.

*Angelina Nunes é mestre em Comunicação pela Uerj (RJ). Ela recebeu prêmios internacionais de jornalismo, como Rey de España, IPYS e SIP, e nacionais, como Esso, Embratel, Vladimir Herzog e CNH. É membro do International Consortium of Investigative Journalists (ICIJ) e coordenadora do Programa Tim Lopes.

 

Programa Tim Lopes é uma reação da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) à violência contra jornalistas. Em caso de crimes ligados ao exercício da profissão, uma rede de veículos da mídia tradicional e independente é acionada para acompanhar as investigações e publicar reportagens sobre as denúncias em que o jornalista trabalhava até ser morto. Integram a rede hoje: Agência Pública, Correio (BA), Globo, Poder 360, Ponte Jornalismo, Projeto Colabora, TV Aratu, O Globo e Veja.

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