Bancada do Psol vai apresentar projeto de CPI para investigar milícias, anuncia Freixo

Em coletiva de imprensa, partido cobra ainda uma resposta: quem mandou matar Marielle?; Marcelo Freixo comemora prisões, mas alfineta: ‘um ano é inaceitável para termos apenas a informação de quem executou’

Deputados do Psol durante coletiva | Foto: Reprodução/Facebook

“Hoje não é um dia que a gente tem pra comemorar. Hoje não é um dia que a gente sente qualquer felicidade. Hoje é mais um dia triste, mas é um dia importante, a gente reconhece a importância dessas prisões. Eu acompanho de perto essas investigações. É importante dizer que um ano é um tempo inaceitável para essa primeira resposta, é inaceitável essa demora, não há justificativa para que, quase um ano depois, só agora, a gente tenha informação de quem executou Marielle. Mas que bom que essa informação chegou”, disse Marcelo Freixo, deputado federal do Psol-RJ, na abertura da coletiva de imprensa do partido em Brasília nesta terça-feira (12/3).

O deputado federal trabalhou por 10 anos ao lado de Marielle Franco, executada na noite de 14 de março de 2018, um crime que ficou 363 dias sem resposta. Nesta terça-feira (12/3) pela manhã, dois suspeitos de assassinar a vereadora foram presos no Rio: a promotoria aponta que o sargento reformado da Polícia Militar Ronnie Lessa, 48 anos, e o ex-PM Elcio Vieira de Queiroz, estavam no carro prata que emparelhou com o veículo de Marielle. Queiroz, expulso da corporação, estava na direção, enquanto Lessa teria atirado.

“Quem matou Marielle não foi apenas quem puxou o gatilho, quem matou Marielle foi quem planejou a sua morte, quem contratou e politicamente desejou eliminar Marielle. É muito importante para o país, mais do que o Rio de Janeiro, é maior que o interesse do Psol, saber quem mandou matar Marielle? Qual o motivo político? Qual a motivação que matou Marielle? Este é um crime contra a democracia”, indagou Freixo. “Não é por que Marielle era de esquerda, não é por que Marielle era do Psol, é por que há um grupo político no Brasil capaz de matar como forma de fazer política, isso é inaceitável”, completou.

Durante a coletiva, o deputado federal anunciou que o Psol vai propor a criação de uma CPI para investigar a atuação das milícias. A CPI será discutida nesta terça pela bancada do Psol na Câmara dos Deputados. Freixo relembrou que, desde 2008, quando concluiu a CPI das Milícias ao lado de Marielle, era de conhecimento público que “crime, polícia e política não se separam mais no Rio de Janeiro”. E completa: “essa é uma estrutura de máfia, que vai custar caro se a gente não tomar todas as medidas que a gente tem que tomar. É projeto de poder, a milícia não é estado paralelo, a milícia é estado leiloado. A milícia domina território para projeto de poder, a milícia frequenta palácio, a milícia se articula com o que há mais de violento”.

Marcelo Freixo salientou a importância de separar as demandas do tráfico e das milícias, pois elas se articulam de maneiras diferentes. “São grupos distintos. A CPI das Milícias gerou a prisão de muitos milicianos, deputados, vereadores, todos os líderes de milícias foram presos naquela época. Mas elas não acabaram porque elas interessam a muita gente, elas ajudam a eleger prefeitos, senadores e deputados, se aproxima de pessoas importantes da República. Não é aceitável que até hoje as pessoas façam política negociando com o crime”, defende.

Freixo citou Wilson Witzel (PSC-RJ), governador do Rio, em sua fala. “A gente teve que pagar com a vida da Marielle o preço da insegurança e do conluio político de tantos anos e de vários governos. Não nos cabe insinuar e apontar para os mandantes, não é nosso papel, cabe a Polícia Civil em um prazo viável quem é o mandante. Que bom que o governador do Rio não está, neste momento, ao lado de quem rasga placa, está do lado da polícia e da justiça. A gente acha que a justiça só chega quando a gente souber quem é o mandante”, alegou Freixo.

Na sequência, Talíria Petrone, deputada federal eleita pelo Psol-RJ, lamentou a demora nas investigações do assassinato de Marielle. “Faz um ano que executaram a nossa companheira, mas mais do que a nossa companheira uma parlamentar eleita democraticamente, com mais de 40 mil votos, uma execução explicitamente política, que faz parte de uma tentativa de silenciamento de uma mulher eleita que usou todo o tempo que pode para denunciar as sistemáticas violações cometidas pelo Estado. Para nós é muito importante, mas muito insuficiente. Insuficiente porque já faz um ano e não adianta para nós apenas sabermos quem apertou o gatilho, é fundamental que o estado brasileiro diga quem mandou executar Marielle Franco e Anderson”, defende Petrone.

Talíria relembrou que Marielle fazia parte de diversos grupos atingidos pela violência. “Marielle mulher, no país que é o quinto com maior índice de feminicídio. Marielle negra, num país e num estado que, sistematicamente, mata jovens negros. Marielle mulher de favela, em um país que o estado chega com militarização nas favelas. Marielle socialista, num país com tanta desigualdade. Algum motivo tem para tentar silenciar essa representante do povo”, indaga a deputada.

Marcelo Freixo assegurou que o partido não irá se manifestar sobre Ronnie Lessa, um dos suspeitos presos que morava condomínio em que o presidente Jair Bolsonaro (PSL) tem uma casa, na Barrada Tijuca, área rica do Rio de Janeiro. “Quando eu apresentei a CPI das Milícias, o então deputado federal Jair Bolsonaro defendeu a legalização das milícias. Eu prefiro falar sobre isso, não sobre a sua vizinhança porque isso não pode causar qualquer responsabilidades e nós temos responsabilidades”, explicou.

Freixo também lamentou o silêncio da família Bolsonaro sobre a execução de Marielle. “Eu lamento que o deputado Flávio Bolsonaro, quando nós homenageamos Marielle depois de morta, tenha sido o único deputado que não assinou essa homenagem. Eu lamento que eles não tenham lamentado a morte da Marielle”, argumenta.

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