Grupo de rap formado no Carandiru completa 20 anos de trajetória

“O sistema carcerário não recupera ninguém”, afirma FW, do Comunidade Carcerária

2016.08.21-Comunidade-Carcerária-1
Foto: Talita Alessandra

Por Talita Alessandra, especial para a Ponte Jornalismo

Na Casa de Detenção de São Paulo, que foi a maior penitenciária da América Latina até ser desativada em 2002, o Pavilhão 8 era destinado aos presos mais respeitados, reincidentes e habituados às regras da cadeia. Foi lá que, há duas décadas, Claudio Cruz (Kric MC), Flavio Sousa (FW) e Washington Paz (WO) se uniram para formar o grupo de rap Comunidade Carcerária.

Em meio ao sofrimento prisional, a aproximação com a música motivou o trio a lutar pelos próprios ideais por meio do rap. Após a liberdade de todos os integrantes e contra as adversidades, o Comunidade Carcerária se mantém firme e faz valer o código de honra cantado em suas letras.

Nesta entrevista exclusiva, Kric, FW, WO, Emily e DJ W Sul (os dois mais novos integrantes), compartilham um pouco dessa caminhada.

Eu queria que vocês falassem sobre a fundação do grupo.

Kric – Surgiu em 1996. Aliás, estamos fazendo 20 anos de grupo. Uma pessoa ficava no meu ouvido falando demais e cantava a toda hora, todo momento, que é o FW.  A gente morava junto e servia o leite e o café na madrugada, e toda hora ele estava cantando. Eu tinha uma atividade com o seu Valdemar Gonçalves [diretor de esportes na Casa de Detenção à época, mantém contato e prestigia os shows do grupo até hoje. Atualmente trabalha na Penitenciária Feminina de Santana], que é o padrinho do nosso grupo, e íamos fazer um festival de música. Aí eu falei pro FW: “Por que você não faz logo um grupo e vai cantar, já que canta todo dia no meu ouvido?”. Eu vi que o ritmo que ele cantava era diferente e conheci o rap através dele, eu não conhecia o rap lá fora. Aí surgiu essa ideia de lançar um grupo. Ele disse pra eu cantar também, fazer o refrão, fomos criando essa ideia e foi adiante. Aconteceram alguns eventos lá dentro [da Casa de Detenção] e, até então, não tinha um nome. Fizemos um show no Pavilhão 8, no qual levamos alguns grupos de fora e começamos a cantar: “Comunidade carcerária agora vai lhes dizer que a lei por aqui é sobreviver…” e aí surgiu este grupo, o Comunidade Carcerária.

Vocês três (Kric / WO / FW) são da formação original?

WO – Os três. Um pouco da nossa união também foi através do esporte, através do futebol, lá dentro.

Kric – A gente tinha um time e de repente eu precisava colocar uma pessoa no lugar do FW, que estava perdendo muito gol. Ele fazia gol, mas perdia gol. Descobri outro artilheiro ali do lado, que é o WO. Aí de repente a parceria já virou também pro lado musical.

WO – Um artilheiro muito bom [risos].

Vocês se conheceram lá dentro ou já tinham contato antes?

WO – A gente se conheceu no Pavilhão 8, na cadeia. Mas eu morava em outra cela. O FW e o Kric começaram a morar juntos e eu continuei morando em outra cela com amigos meus, mas estávamos sempre em contato, todo dia escrevendo, compondo, cantando. Foi sempre assim. Foi um jeito também de amenizar o nosso sofrimento naquele lugar, passar o tempo através da música, que ajudou muito e foi uma terapia pra gente.

Aí depois vocês se reencontraram aqui fora?

Kric – Tem uma história lá dentro. Em um momento chega a liberdade pro nosso amigo, o WO, e ele vai embora.

WO – Eu fui o primeiro a sair.

Kric – Não tínhamos gravado ainda e outros grupos surgiram. Começamos primeiro, mas nada acontecia na vida da gente e surgiu a liberdade. Só que tinha a questão da confiança: “Você vai voltar? Se propõe a voltar aqui e ensaiar até a gente gravar?”. Existia sim uma dúvida se ele ia voltar ou não. Mas prevaleceu a humildade que ele tinha na mente dele. Não demorou muito, nem mais de uma semana e ele já estava lá. Voltou com uma roupa surradinha, na humildade, pra ensaiar com a gente. Nessa daí, ele era nossas pernas lá fora. Tinha o seu Valdemar, que era nossas pernas pra colocar as pessoas lá dentro (entrevista, televisão), e o WO começou a correr lá fora.

FW – O seu Valdemar se transformou em nosso padrinho, pois ele deu as possibilidades para estarmos lutando, deu incentivo através da música, de lutarmos por nosso objetivo.

Kric – Ele [Valdemar] era diretor do esporte e a gente trabalhava com esporte. Eu fui presidente do esporte no Pavilhão 8. Existia a FIFA, a Federação Interna de Futebol Amador. Fizemos curso de arbitragem lá dentro para ser juiz e apitar jogo. Eu também fui presidente do esporte na geral, em todos os pavilhões, e eu tinha acesso a todos os pavilhões, andava em tudo, até no seguro, no castigo, em todos os locais. Outra pessoa importante na nossa vida é o Dr. Drauzio Varella, que nos apoiou muito, é uma pessoa interessantíssima e não podemos esquecer o apoio que ele nos deu. Nessa aí, o WO foi embora, voltou e correu atrás dos objetivos. Nós ensaiávamos, tomamos vários nãos. Até hoje estamos preparados pros “não” por causa do preconceito. De repente a gravadora Atração Fonográfica resolveu apoiar e empregou o WO. E ele veio com um contrato pra gente. Apostaram no grupo. O FW e eu precisaríamos ir até lá fora gravar num estúdio. Tinha que ter confiança, porque já estávamos há muito tempo presos e o pessoal pensava: “Vamos acreditar nesse marginal?”.

FW – Loucão de cadeia, 10 anos de cadeia…

Kric – Mas seu Valdemar é uma pessoa que nos via como humanos. Ele acreditou, ele apostou na gente e disse: “Pera aí, eu vou levar vocês”. Foi no juiz, que assinou, e a gravadora deixou a responsabilidade total da segurança com ele. Ele nos encontrou lá fora. Aliás, ele estava lá na porta do presídio. Saímos normal.

FW – Fomos na barca, no camburão azul.

WO – Os caras ainda perguntaram se eu queria ir na frente e eu falei: “Não, vou junto com os caras lá atrás”.

FW – Mesmo em liberdade, ele ficou preso com nós lá atrás, na barca.

Kric – Essa emoção de estar saindo, chegar lá e ver a rua, no nosso caso, pois fazia muito tempo que a gente não colocava os pés na rua e só via os pavilhões. Fomos na rua e a primeira coisa que esse cara [FW] fez foi beijar o chão que nem o Papa.

Quanto tempo vocês ficaram presos?

Kric – Eu fiquei, lá dentro do [Pavilhão] 8, entre idas e vindas, 20 anos. Mas no total deu 28 anos.

FW – Total de 12 anos.

WO – Eu fiquei 4 anos e 10 meses.

Kric – Nessa daí a gente conseguiu essa gravação, apareceram shows, apareceram trabalhos pra gente fazer.

WO – A gravadora Atração era na época a gravadora do Dexter, 509-E, Visão de Rua, SNJ, tava no auge, tava legal.

Kric – Começou a surgir trabalho, mas tinha o outro lado da gente sair pra fazer os shows. A gente não fazia só música. O FW participava do teatro, ensaiava peça lá dentro, um trabalho interessante, fazendo cursos. De repente houve uma denúncia que se a gente saísse pra fazer show, a gente ia fugir. Uma mentira que foi chegar até as pessoas lá de cima e o juiz, e a gente não foi.

WO – Aí ninguém mais saiu.

Kric – Mas não paramos.

Vocês gravaram um clip lá dentro?

WO – Sim, o Oitavo Pavilhão. Fomos o primeiro grupo a levar repórteres, entrevistas e televisão de outros países dentro da Casa de Detenção, através da gravação desse videoclipe.

Vocês também participaram do documentário O Prisioneiro da Grade de Ferro?

Kric – Tem uma explicação. Na época que a gente tava lá rolou a ideia de fazer um curso de vídeo e som, aí convidei meu parceiro FW.

FW – Vou contar um caso. Uma vez estava eu e o Kric, a gente morava junto e chegou uma requisição no guichê às seis horas da tarde, para irmos até o Pavilhão 6. Olhei pro Kric e falei: “É bonde”. Aí quando chegamos lá, vimos que era a equipe da Produtora Olhos de Cão, com a proposta de fazer um curso de vídeo e som com os presos. Aí chamaram eu, o Kric e outros presos de outros pavilhões, para fazer o curso. Nós que demos a ideia de fazer o documentário e filmamos. E eles deram as ferramentas pra gente.

Kric – Uma pessoa comum [de fora] não ia conseguir filmar ali. Eles precisavam dos “calças beges” [presos]. O respeito pela gente era grande, então onde íamos filmar, o pessoal falava: “Opa, firmeza, é nóis”, com todas aquelas gírias do local. Nessa aí, tivemos a ideia de fazer um documentário com tudo aquilo que nós captamos e foi apoiada pelo Paulo Sacramento e pela TV Cultura, que custeou esse trabalho. Tivemos diploma, tudo certo. Mas quando tiveram as premiações em diversos países, cada um estava para um lado, outros na rua, só depois ficamos sabendo. Eu mesmo só assisti ao filme bem depois.

FW – O que acontece. O seu Valdemar apresentou pra nós o Hector Babenco, diretor do filme Carandiru: “Esse aqui é o Hector Babenco, ele quer fazer um filme sobre a Detenção e precisa do pessoal pra participar do filme e quer ter um conhecimento do que acontece”. Perguntamos: “Nós vamos participar? Se for, beleza!”. Todo dia levavam dois, três atores que entravam na nossa cela, ficavam lá, subiam o andar do pavilhão todo, tomavam café com a gente pra saber o nosso jeito de andar, de falar. Foram passando os dias e soubemos que o Hector Babenco só ia filmar quando a cadeia desativasse. Aí eu falei pro Kric: “Esse cara tá enrolando nós, sabe por quê? Ele só tá colhendo ideia nossa, truta, e vai filmar só depois que a gente for de bonde, mano”. Aí eu falei: “Temos uma opção. Nós não estamos fazendo o curso aqui? Os caras não tem o poder de colocar as câmeras na nossa mão? Nós temos o poder de filmar. Nós temos o poder, vamos trocar essa ideia com os caras”. Aí sentamos com o Paulo Sacramento e falamos: “Troca uma ideia com o diretor e dentro do pavilhão deixa com nós”. Aí no outro dia ele veio com tudo, até com a autorização, e precisava de um nome. O Prisioneiro da Grade de Ferro, porque nós já tínhamos um trabalho lá dentro e umas camisas com esse nome.

Kric – Seguimos em frente, conseguimos esse trabalho. Cada um foi para um lado. Ele [FW] conquistou o semiaberto, demorou mais um tempo e eu também conquistei. Conhecemos mais pessoas aqui fora. Aliás, tem um livro nosso que será lançado. Fazemos shows em diversos lugares. Nosso próximo show será no CEU Vila Atlântica [a 2ª edição do Festival O CEU é Nóis – Fortalecendo a Cultura, no dia 27/08 das 10 às 18h, com várias atividades gratuitas], onde eu tenho um trabalho na escola. Conhecemos o backing vocal aqui, nosso parceiro.

W Sul – Na verdade nos conhecemos há mais de 10 anos. Tenho 20 anos de corrida também. Desde 96, por coincidência, eu comecei a carreira do rap. Eu tive uma vida turbulenta, eu não tive infância, fui criado em orfanato e lá eu aprendi um pouco da visão de “maloqueiragem”, digamos assim, entre aspas. Não do mundo, mas de um campo fechado que era o colégio interno onde eu ficava e comecei a mexer com música. Nisso, o tempo foi passando, meu cunhado Smith, que faleceu em 2012 e corria com o Sabotage, decidiu ficar comigo que estava começando. De lá pra cá eu continuei e há uns dois ou três anos teve um show. Por coincidência, estávamos no mesmo palco, eu e o Comunidade Carcerária. Conheci os caras nesse tempo, por volta de 2004.

FW – Eu tava de saidinha, eu tava na Colônia, nesse show aí.

W Sul – Têm anos que eu conheço eles. Eu tava na caminhada de outro grupo que não deu certo. Conversamos e eu acabei me associando com eles.

WO – É da família também o W Sul.

Quais materiais o Comunidade Carcerária têm lançados?

WO – Um CD nosso [lançado em 2000, leva o nome do grupo] e participação em duas coletâneas. Uma coletânea é a Movimento de Rua, do finado Natanael Valença, que era da Rádio Imprensa e a coletânea Na Correria. Agora estamos terminando um próximo com a participação do W Sul e da Emily.

Kric – O Comunidade Carcerária 2 C Muito Mais Além.

Tem ideia de quando vai sair?

Kric – Bom, era pra ontem. Está pra nascer.

A Emily é a integrante mais nova?

Kric – A Emily, naquela época, era bebezinha. Ela é sobrinho do FW. A irmã dele levava ela lá nas visitas. Mais tarde se descobriu que ela tinha esse talento e essa voz interessante. Ela está há um ano com a gente.

Como é ser uma mulher no grupo de rap?

WO – Ela é a voz feminina, a voz marcante do grupo.

FW – Como está sendo correr com nós?

Emily – É uma maravilha! Está sendo maravilhosa a experiência!

Qual a opinião de vocês sobre o sistema carcerário brasileiro?

Kric – O sistema carcerário já estava falido em 1979 quando eu cheguei. Aliás, falaremos disso em nosso livro Cria do Governo que será lançado em breve. Passou a década de 70, chegou a de 80 a coisa foi caindo. Aí foi chegando o século novo, já sabia que se inchou e hoje não tem uma saída. É importante pro governo ter preso. Não é importante pro governo ir lá levar cultura pro preso.

WO – Porque precisaria disso, levar cultura.

Kric – A cultura pode valorizar a pessoa lá dentro, a pessoa humana. Mas é muito impedimento, é muito difícil.

WO – Através da música, através do teatro e de outros profissionais.

FW – Na verdade o sistema carcerário não recupera ninguém. A pessoa se recupera por ela própria, da vontade dela. Se tiver força, acreditar muito em Deus, ela muda sim. O maior exemplo é nós. Olha nós aqui. Todos nós trabalhamos em outras profissões, porque infelizmente não dá pra viver do rap.

O que o rap significa na vida de vocês?

Kric – O rap na minha vida foi uma influência muito grande para eu pensar que há um ideal, há uma maneira de sair, tem algo melhor. Há uma luz no fim do túnel. Quando se pode rimar, fazer uma coincidência de palavras, você sobrevive. O rap realmente deu uma impulsionada na minha vida, na minha autoestima e eu passei a acreditar. Eu venho da vida marginal, não só de maior, mas desde criança. Eu perdi a minha infância e a minha juventude preso. O rap me ajudou muito.

W Sul – Na verdade o rap tem uma visão para ter uma mente mais aberta, para você buscar como referência fazer das coisas ruins, coisas boas. Você praticar o bem contra o mal e eu sei que o bem sempre vence. Os meninos são resgatados.

WO – O rap é um destino de vida para mim. É o modo de vestir, o modo de andar, o modo de falar. É a voz do excluído, a voz da periferia. Para mim isso é o rap.

FW – Para mim, FW, o rap foi superação. Porque eu poderia estar assaltando, roubando, no crime, praticando várias outras coisas. Então, o rap foi um modo de eu tirar essa vontade de estar ali. O rap foi meu foco, de deixar o crime de lado e fazer o que eu quero, o que eu gosto, fazer o bem, deixar de fazer o mal. Tipo assim, tá no sangue. O rap foi uma opção de eu mudar a vida, porque se não fosse o rap eu tava no crime. Eu tava no crime, tava envolvido, tava no comando, mas não, o rap mudou. Foi a luz no fim do meu túnel.

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