‘Covardia’: PMs invadem festa de aniversário e agridem família e convidados no interior de SP

“A minha vida virou um pesadelo. Eu não merecia passar por isso”, diz comerciante agredida; caso aconteceu em Bauru neste sábado (2/1)

Uma festa de aniversário se tornou um pesadelo para uma família de Bauru, interior de São Paulo. A filha mais velha da comerciante Jocimara Fabiana da Silva, 37 anos, completara 16 anos e havia pedido uma festa para a mãe, já que no ano passado ela não teve. A mãe topou e a festa tinha acabado de começar, por volta das 16h do segundo dia do ano, quando uma confusão mudou tudo.

Na festa, havia cerca de 11 pessoas, entre amigos e familiares da filha de Jocimara. Dois desses jovens decidiram sair da casa dela e fumar um cigarro de maconha na rua. Mas escolherem justamente parar na entrada da casa de um policial militar de folga, que não gostou da situação. Estranhando a demora dos jovens, Jocimara saiu com o marido para entender o que estava acontecendo.

“Quando fomos no portão, olhamos do outro lado e vimos os meninos sentados na calçada do policial fumando maconha. Eram dois ou três meninos que eu não conheço, não eram dos amigos mais próximos da minha filha. Aí pensei ‘pronto, complicou'”, relatou Jocimara à Ponte.

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Assim que o PM Venturini, conforme dito por Jocimara, pediu para os jovens levantarem, eles cumpriram a ordem. Mas o PM começou a ofendê-los. “Ele foi tirar os meninos de lá, normal, ninguém ia gostar. Aí os meninos levantaram, estavam saindo, e ele começou a empurrar os meninos, chamar os meninos de vagabundos, de noia, de maloqueiros”, continuou a comerciante.

“Aí meu marido foi lá e pediu calma, falando que iam colocar os meninos para dentro, pediu desculpa, para conversarem. Aí ele começou a gritar: conversar o caramba, você também é vagabundo. O cara tava alterado. E começou a brigar com o meu marido. Aí sobrou para mim, ele me chamou de vadia, de vagabunda”, completou.

A partir daí, a confusão virou uma discussão generalizada. Jocimara conta que o marido não gostou das ofensas que o PM falou para ela, mas seu sobrinho impediu que ele agredisse o vizinho. “Mas ninguém agrediu ele, dá para ver no vídeo. Só gritaria. Aí acalmou e conseguimos entrar. Fechamos o portão e ficamos estressados, mas pensamos em continuar a festa. Tinha acabado de começar, a minha mãe não tinha nem chegado”.

Marcas da agressão em Jocimara | Foto: Arquivo pessoal

Uns dez minutos depois, narra Jocimara, alguém bateu no portão. Ela foi atender, ao lado do marido e do sobrinho, achando que era a sua mãe. Para sua surpresa, era o vizinho policial com vários PMs fardados. Eram cerca de 10 viaturas paradas em frente a sua casa.

“Quando levantamos era o vizinho policial com mais um monte de PMs. Entraram batendo em todo mundo, a gente não estava nem entendendo o que tava acontecendo. Era como se ele tivesse falado alguma coisa inverídica para os caras ficarem bravos”, relatou a comerciante.

“Eles me bateram, bateram em outra menina, no meu esposo. Meu sobrinho e o meu cunhado apanharam muito, tiveram que tomar ponto. Aí depois de bater neles, foram embora. É nítido o que aconteceu: uma discussão lá fora e a covardia deles aqui dentro”, desabafou à Ponte.

“A gente recebe convidado, mas não dá para revistar eles. A gente não imaginava isso. Mas aí a polícia entrou sem mandado, sem perguntar, sem conversar, foi só pancadaria. Eu fiquei atordoada, sem entender o que aconteceu”.

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Depois das agressões, os PMs foram embora. Jocimara decidiu ir até o Centro de Polícia Judiciária de Bauru, localizado na avenida Rodrigues Alves, para registrar um boletim de ocorrência por abuso de autoridade. “Eu sou leiga, me sinto perdida. Eles não me deram nenhum papel, mas a minha advogada orientou voltar lá e pedir uma cópia”.

“A delegada ainda falou para o PM: ‘ê Venturini, não é a primeira que você apronta’. A minha advogada está em Curitiba e me orientou a pegar a cópia do boletim de ocorrências na delegacia e fazer o laudo médico. Não foi oferecida nenhuma proteção. Agora ficamos apreensivos”, conta.

Jocimara diz que tem sofrido ameaças e vem sendo intimidada pelos PMs. “Na noite retrasada, ele ficou em cima do muro dele olhando aqui no quintal, passa todo dia carro de polícia na casa do meu cunhado, olhando feio, parando, coagindo. Eu tenho recebido um monte de mensagem de ameaça, falando que vou me arrepender de ter postado os vídeos”.

“A minha vida virou um pesadelo. Não é só a questão física, virou um trauma. É uma série de coisas. Todo mundo sendo revistado, meu marido que nunca nem bebeu na vida sendo humilhado. Entrou policial com a arma na mão e tinham crianças na piscina. Minha filha caçula se escondeu dentro do guarda roupa e o pai dela tá ameaçando me tirar ela por conta disso. Eu não merecia passar por isso”.

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O único erro da família, assumiu Jocimara, foi ter discutido com o PM. “Onde nós erramos? Na troca das ofensas, quando ele me xingou, meu marido ficou muito bravo, foi para cima, mas seguraram ele, meu marido não agrediu ele. A partir do momento que tudo tava parado e acalmado, ele ligar para os amigos dele e os caras compraram a briga dele, dentro da minha casa, isso não tá certo”.

“Se eles achassem que tinha droga, que tinha alguma coisa, eles deveriam algemar, levar para a delegacia, averiguar, não fazer o que eles fizeram. A conduta deles foi totalmente errada. A minha cara está inchada, estou com medo de ir trabalhar”, finalizou.

Outro lado

Em nota, a Secretaria da Segurança Pública informou que o caso está sendo investigado como abuso de autoridade e lesão corporal pela Central de Polícia Judiciária e pela Polícia Militar.

“Diligências estão em andamento visando à elucidação dos fatos. A PM não compactua com desvios de conduta de seus agentes”, afirmou a pasta. A reportagem solicitou entrevista com o PM Venturini, mas não teve resposta até a publicação deste texto.

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