Cultura do Funk está sendo exterminada com a ponta do fuzil, diz Mc Leonardo

Mc Leonardo, durante entrevista à Ponte, no Centro do Rio de Janeiro. | Foto: Luiza Sansão/Ponte Jornalismo

Um dos principais representantes do funk carioca há 25 anos, Leonardo Pereira Mota afirma que a cultura da favela está em seu pior momento em 40 anos

“O funk está no seu pior momento em 40 anos. Não existiu um momento tão ruim para a cultura da favela no Rio de Janeiro como este. A maneira com que ela está sendo exterminada é com a ponta do fuzil. Agora não é mais com alvará”, critica Leonardo Pereira Mota, o Mc Leonardo, um dos principais representantes do funk carioca.

Ele nasceu e cresceu na Rocinha, maior favela do país, localizada na zona sul da capital fluminense. De seus 41 anos de idade, os últimos 25 têm sido dedicados ao funk. Em 1992, ele montou com o irmão a dupla Mc Junior e Mc Leonardo, uma das mais famosas duplas da história do funk . Nos anos 2000, o filme “Tropa de Elite — Missão Dada é Missão Cumprida” (2007), dirigido por José Padilha, fez voltar aos hits de sucesso o “Rap das Armas” (1995), uma das principais composições dois dois Mc’s.

Em entrevista à Ponte Jornalismo, que você pode conferir no vídeo acima, ele afirma que o funk não seria marginalizado se não fosse a forma preconceituosa com que sempre foi tratado pela mídia, sobretudo depois de episódios como um arrastão ocorrido na zona sul do Rio na década de 1990, que foi atribuído genericamente a funkeiros pelos jornais da época. Outro episódio é o assassinato do jornalista Tim Lopes, em 2002, no Complexo do Alemão, na zona norte da capital fluminense, que, “legalmente, não passa pelo baile funk”, afirma. “Quem investigou, no primeiro depoimento do motorista [do repórter], já viu que não tem baile funk envolvido na história. Mas a Rede Globo insiste, até hoje, em dizer que o Tim Lopes morreu cobrindo baile funk. A pauta real dele era armamento pesado”, explicou.

O funkeiro precisa “levantar a cabeça” e lutar em defesa de sua cultura, que, segundo ele, vem sendo exterminada. Ele também fala sobre militarização policial, armas e drogas — que ele acredita que não serão legalizadas enquanto servirem como justificativa para o extermínio do favelado e de sua cultura.

“As pessoas têm que entender que o favelado sai de casa pra trabalhar e passa pelas armas, ele volta do trabalho e passa por armas. Ele vai deixar o filho no colégio e passa por armas, ele volta do supermercado e passa por armas. E a sociedade está preocupada com arma somente na hora da produção cultural. Somente na hora da diversão é que vão falar ‘mas não tem um fuzil ali no meio?’. O fuzil está ali mesmo sem o baile”, diz Mc Leonardo.

Somente no último mês, três casos de destruição de equipamentos de som por policiais militares em favelas do Rio durante eventos musicais foram registrados pelo DefeZap, serviço que permite o envio de vídeos-denúncias de violações de direitos praticadas por agentes do Estado e encaminha as denúncias aos órgãos competentes.

“É uma ambição quase que impossível, manter uma carreira de tanto tempo, trabalhando com uma cultura tão perseguida, tão marginalizada. Porque o preconceito com o funk é totalmente aceitável. Todo ser humano é preconceituoso, ignorante. Não sabe de tudo. E as coisas que as pessoas não sabem e da maneira que elas ficam sabendo, o preconceito é aceitável. Agora, a perseguição, não. O extermínio, não”, crava o funkeiro, que integra a APAFunk – Associação dos Profissionais e Amigos do Funk, fundada em 2008 para defender os direitos dos funkeiros e lutar pela sobrevivência da Cultura Funk, contra o preconceito e a criminalização.

Mc Leonardo, durante entrevista à Ponte, no Centro do Rio de Janeiro. | Foto: Luiza Sansão/Ponte Jornalismo

Para ele, as pessoas têm que gostar daquilo com que elas se identificam e não se obrigar a gostar do funk, contudo, não têm o direito de exterminá-lo. “Quando falam que o funk não é cultura, há um extermínio nessa frase. Porque quando você mata uma coisa é porque ela estava viva. Quando você diz que o funk não é cultura, você nega a vida do outro. É muito mais cruel do que o preconceito”, afirma.

“Quando as pessoas falam que o funk é uma cultura pobre, que é um lixo cultural, problema delas. Eu só não posso admitir que não seja cultura. Porque cultura é toda forma de viver de um determinado povo e o Rio de Janeiro hoje tem o funk como sua principal cultura”, defende.

No funk “Endereço dos Bailes”, dos dois irmãos Mc’s, eles cantam as diversas opções de bailes no Rio de sua geração, que chegaram a ser 800 em seu auge — uma realidade muito diferente da que existe hoje, em meio à repressão cultural do Estado contra a cultura periférica, que fechou todos os bailes funk citados na letra, escrita em 1995. “Há 22 anos, não existia mais um bairro sequer no Rio onde não houvesse baile funk. Os bailes de hoje não têm garantia nenhuma de que vão acontecer na semana seguinte”, lamenta Mc Leonardo.

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