Direitos em cena | Marcos Medeiros, o carbonário que desbundou

Película desvenda a trajetória do líder estudantil que virou ícone da contracultura

Uma reunião de trabalho. Todos os funcionários precisam assinar o livro de ponto. Mas um acaba chamando a atenção de todos. Isso porque aquele moço tinha todas as unhas pintadas de uma cor diferente. O chefe mais idoso se assustou. Quase seus óculos caíram do rosto. Mas o rapaz mais jovem foi doce: “Não se preocupa Gerardo. Isso é só para o carnaval”, respondeu rindo. Foi dessa maneira bastante inusitada que o videomaker, arte-educador e documentarista Vicente Duque Estrada conheceu o líder estudantil e cineasta Marcos Medeiros (1946-1997). Os dois estavam trabalhando no Instituto Municipal de Arte e Cultura do Rio de Janeiro. O chefe dos dois naquela ocasião era o poeta Gerardo Melo Mourão (1917-2007).

Vicente lembra que logo criou amizade com aquele rapaz um pouco mais velho. “Isso foi em 1985. Nisso, eu comecei a fazer algumas coisas no departamento de vídeo da entidade e o Marcos estava precisando de alguém para ajudar ele a fazer um filme”. Era um vídeo experimental glauberiano chamado Hypotenusa, a Rainha do Catete. Medeiros explica que achou o filme muito moderno. 

Os dois ficaram amigos. Duque Estrada ajudou o cineasta na montagem e começou a tomar contato com o universo do vídeo. O que mais chamou a atenção dele não era somente o trabalho e sim o novo amigo. Naquela década de 1980, Marcos Medeiros era presença constante no Posto Nove de Ipanema. Lá se reuniam os artistas, músicos, poetas, dramaturgos, atores e todo tipo de pessoal que tinha voltado do exílio após a Anistia. “Ali era um ponto de encontro de toda contracultura. Foi onde o Fernando Gabeira apareceu vestindo tanga. Tinha os Dzy Croquettes, o Ney Matogrosso, o poeta Cairo Assis Trindade. O Posto Nove era um troço e o Marcos era um personagem daquele ambiente”.

Marcos Medeiros tinha amizade com personagens muito marcantes daquele Brasil do início da década de 1980, como o antropólogo Darcy Ribeiro (1922-1997) e o político Leonel de Moura Brizola (1922-2004). Vicente conheceu essa turma toda pelo novo amigo. Depois, o documentarista foi trabalhar com vídeo, morou dois anos na França e só voltou para o Brasil em 1990. “Foram me falando que o Marcos estava ruim. Ele foi pirando e acabou morrendo. Quando isso aconteceu, foi um baque enorme. Me lembro até hoje desse enterro no São João Batista (cemitério em Botafogo, Rio de Janeiro)”.

Vicente Duque Estrada lembra-se que até aquele momento só conhecia o Marcos Medeiros do desbunde de Ipanema. Ele não imaginava o quanto aquele inusitado personagem tinha sido uma das principais vozes de oposição à Ditadura Militar. “Eu nem tinha dimensão da luta de 1968. Foi uma descoberta na pesquisa que me espantou muito porque o Marcos era uma das lideranças daquele movimento e muito respeitado”.

Estudante de Sociologia, Marcos Medeiros foi uma dos grandes nomes da luta contra a Ditadura Militar entre 1964 e 1968. Era vice-presidente da UNE (União Nacional dos Estudantes) e ligado ao PCBR (Partido Comunista Brasileiro Revolucionário). O então jovem universitário foi preso e torturado até conseguir o exílio na França. Vicente Duque Estrada foi percebendo que seu antigo amigo parecia um personagem especial e merecia um registro maior. Dessa maneira, o documentarista foi reunindo um vasto material sobre o antigo colega. O realizador já tinha algumas coisas gravadas por Marcos em vídeo que quase foram parar no lixo. Foi quando surgiu a ideia de fazer um documentário de longa-metragem sobre tudo aquilo. “Fui vendo que era muita areia pro meu caminhãozinho. Eu precisava de um produtor”.

Foi quando o cineasta e produtor Cavi Borges entrou no projeto. Vicente foi organizando entrevistas com diversos contemporâneos do antigo amigo. Ele acabou surpreendido com as histórias que foi juntando sobre Marcos. “Eu fiz um teaser de cinco minutos pro Cavi ter ideia do que eu tinha em mente. Mas muita coisa foi acontecendo. O Gustavo Dahl que ia narrar o filme morreu; a mãe do Marcos que tinha todas as coisas dele também morreu e a pessoa que cuidou dele no Pinel também morreu”.

Cena de “Marcos Medeiros — Codinme: Vampiro” | Foto: Reprodução

Tudo aquilo foi prejudicando o projeto. Mas o documentarista estreante tinha um jeito um tanto incomum de fazer seu longa-metragem. Não fazia roteiro. O cineasta preferia entrevistar os diversos depoentes previamente. “Muitas vezes você tem um projeto, faz a primeira entrevista e esculhamba todo o roteiro, coisa que você não esperava. Então, eu normalmente parto das entrevistas e depois vem o roteiro”. Com o tempo, o Canal Brasil também se interessou pelo projeto e conseguiu uma pequena verba que auxiliou no financiamento.

Entre seus contemporâneos, Marcos Medeiros é lembrado como uma das grandes lideranças estudantis na resistência à ditadura. Vicente Duque Estrada entrevistou personagens que combateram aquele momento autoritário de frente como Cid Benjamin, Fernando Gabeira, Franklin Martins, Ivana Bentes, João Carlos Rodrigues, Maria Lúcia Dahl, Vladimir Palmeira, entre outros. Todos conheceram Marcos de perto. 

O documentário começou a ser realizado em 2010. Com o tempo, os arquivos da ditadura foram abertos e também forneceram muitos ingredientes para o filme. “Teve uma crítica que diz que manipulei os arquivos da ditadura. Esses arquivos e imagens são históricos, eu não manipulei nada”, se defende o realizador. “Ninguém cuida da memória no Brasil. Ela vai virar pó, tudo acaba indo pro vinagre. É triste demais”, lamenta.

O longa-metragem também aborda os anos do exílio de Marcos Medeiros. Na Europa, o esquerdista acaba tentando ingressar no cinema. Escreveu roteiros para o documentarista francês Chris Marker (1921-2012) e também tornou-se muito próximo do cineasta baiano Glauber Rocha (1939-1981), ícone do Cinema Novo. Vicente Duque Estrada acredita que os dois se conheceram em Paris. O diretor analisa que a França em 1968 foi um bunker da resistência cultural do período. “Usei muitas cartas do Glauber para ele. Os dois chegaram a ir juntos para Cuba. Na verdade, o Marcos queria fazer um filme catártico sobre a América Latina, algo parecido com A Idade da Terra [filme de 1980 de Glauber Rocha]. Mas como eles não tiveram dinheiro, os cubanos queriam conversar melhor sobre o projeto”.

Cartaz do filme | Foto: Reprodução

Marcos e Glauber tentaram fazer uma produção na ilha de Havana. O projeto era para o Instituto Cubano de Cinema, que no início da década de 1970 convidava estrangeiros para fazer filmes que reforçavam uma imagem positiva do regime de Fidel Castro. Mas as autoridades locais queriam um tipo de produção que não era exatamente como a inusitada dupla planejava. “Eles tinham um jeito muito anarquista diferente dos cubanos da época. Isso pode ter criado um atrito”, analisa Duque Estrada. 

O certo é que em 1974, após um período no Caribe, os dois acabaram voltando para a Itália. Tinham começado outro projeto: o longa-metragem catártico História do Brasil, que inicialmente tinha sete horas de duração e tentava ser a síntese do pensamento de intelectuais nacionais como Euclides da Cunha, Gilberto Freyre, Darcy Ribeiro, Sérgio Buarque de Holanda, entre outros. Mas esse projeto acabou não sendo terminado.

Vicente admite que o exílio deixou o militante “completamente sem chão”. Muitos dos exilados brasileiros eram tratados como desterrados. Não pertenciam ao novo país e ao mesmo tempo tinham uma espécie de asco da terra natal. Era o período em que os militares davam as cartas. O cineasta acredita que Marcos nunca desistiu dos seus projetos políticos. Mas ele foi tentando novas investidas como o cinema experimental. O certo é que Marcos Medeiros foi tendo problemas psicológicos. Mesmo após a volta do exílio, em 1982, sua situação psíquica foi se deteriorando. “As condições que ele achou no Brasil eram péssimas. O Marcos era uma pessoa corajosa. Ele voltou fazendo filmes experimentais sendo que um chamava Tortura e o outro Marighella. Se hoje em dia causa celeuma falar desse personagem, imagina isso em 1980?”

Pode-se dizer que Marcos Medeiros foi uma vítima de seus próprios projetos. Ele era tão audacioso que não conseguia concluir a maioria das produções em que se envolvia. Mesmo assim, tornou-se uma celebridade do Posto Nove. “Ele começou a ficar deprimido, as coisas não andavam e precisavam de apoio. Então, ele foi pirando…”. Marcos Medeiros morreu em 1997 internado num hospital psiquiátrico no Rio de Janeiro. Ele tinha apenas 51 anos.

O longa-metragem Marcos Medeiros — Codinome Vampiro conta toda a turbulenta trajetória do cineasta e militante sem qualquer tipo de censura. O realizador levou oito anos para conseguir terminar a produção que teve como principal dificuldade o orçamento. O diretor destaca que teve o auxílio de muitas pessoas, sendo que alguns colaboradores acabaram entrando no projeto de última hora. Duque Estrada atentava-se para todos os detalhes do filme. “No primeiro corte tinha duas horas e meia de material. Não dava. Estava muito longo”, analisa. O cineasta foi mostrando o produto final para diversos espectadores. Eles foram dando dicas e muita coisa foi se alterando do projeto inicial. Mas isso foi enlouquecendo o montador. “Os cortes foram entrando e quando eu cheguei em 80 minutos o editor ficou putíssimo”, lembra gargalhando. “E ainda faltava a trilha sonora.”

Por um desses inesperados acasos da vida, Vicente Duque Estrada acabou reencontrando o músico Victor Biglione no final da produção em outubro de 2016. “Éramos amigos de outros carnavais. Foi incrível porque ele acabou topando fazer a trilha sonora inteira mesmo por uma grana baixa. Foram mais meses editando a trilha, o som e fazendo a mixagem. Mas tudo isso só pode ser feito depois do Canal Brasil nos ajudar com mais uma parte do dinheiro.”

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Foi somente em fevereiro de 2018 que o realizador conseguiu o valor certo para lançar o longa-metragem nos cinemas. “Tinha sobrado uns dez mil reais. Com eles eu fiz o cartaz e consegui lançar nas salas. Ele foi lançado em maio de 2018, quando fazia exatamente 50 anos dos eventos de 1968”. O longa-metragem ficou três semanas em cartaz em cinemas comerciais. “Isso para um documentário brasileiro é um tremendo sucesso.”

Marcos Medeiros — Codinome Vampiro recebeu o prêmio Margarida de Prata de melhor longa-metragem da CNBB (Confederação Nacional de Bispos do Brasil) em 2018. O filme também foi exibido no festival É Tudo Verdade. Vicente Duque Estrada está colaborando no novo documentário do diretor Sílvio Tendler sobre Brizola e finalizou sua segunda película chamada Asteroides. “São sobre cientistas brasileiros que pesquisam corpos celestes que podem acabar com a vida na Terra. A pessoa descobre esses artefatos buscando melhorar a órbita. Só dá pra lançar fora do Brasil porque é o tipo de assunto que nem os canais de televisão se interessam.”

Marcos Medeiros — Codinome Vampiro

Direção: Vicente Duque Estrada
Rio de Janeiro, Brasil, 2018
Duração: 84 minutos
Como assistir? Now, Vimeo e YouTube

A coluna “Direitos em Cena” é o espaço para o cinema brasileiro contemporâneo na Ponte: seus filmes, seus diretores, seus personagens. Busca ampliar o espaço de narrativas cinematográficas que muitas vezes não recebem atenção da grande mídia, sempre em relação com os direitos humanos. A coluna é escrita por Matheus Trunk, jornalista, escritor, roteirista e mestre em comunicação audiovisual, autor dos livros O Coringa do Cinema (Giostri, 2013), biografia do cineasta Virgílio Roveda, e Dossiê Boca: Personagens e histórias do cinema paulista (Giostri, 2014).

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