Direitos em Cena | Maria Luiza: católica, militar e transexual

Filme detalha a história da primeira mulher trans das Forças Armadas brasileiras

Ela sempre foi uma profissional exemplar na aeronáutica. Reservada e tímida, vestia sua farda com dedicação. A sala de sua residência está repleta de diplomas, insígnias e medalhas da sua carreira militar. Uma de suas especialidades era a mecânica. Isso porque desde a mais tenra idade essa moça desenhava aviões e queria ingressar na carreira da aviação. Sua destreza com armamentos também era notável. Seus colegas de farda a chamavam de “Ponto 50”, dada a sua habilidade com as armas de fogo. “Ela se encontrou profissionalmente na aeronáutica. Tinha uma carreira que poderia ter seguido por toda a vida”, explica o cineasta, roteirista e produtor Marcelo Díaz. Após 22 anos na ativa, os superiores disseram que essa determinada profissional era “incapaz de servir definitivamente o serviço militar”. 

Isso porque estamos falando de Maria Luiza da Silva: a primeira trans do exército brasileiro. “Mas a cirurgia não fez ela virar trans. Apenas foi uma escolha, como ela mesmo coloca, para sentir-se como gostaria”, explica Díaz, diretor do documentário Maria Luiza que reconta a vida desta pioneira das Forças Armadas. Trata-se do primeiro longa-metragem do realizador brasiliense, que tomou o máximo de cuidado ao tratar de um tema tão distinto. O diretor conheceu essa história através de uma reportagem do jornal Correio Braziliense. Desde então, o cineasta percebeu o potencial e a força daquela personagem. A confiança começou desde o primeiro encontro. “Disse a ela que a história poderia render um filme. Ela me recebeu em casa, com biscoitinhos e suco, e me contou muita e muita coisa. Achei que seria um encontro de no máximo uma hora, mas passamos de cinco horas de conversa…”

Maria Luiza no documentário que leva seu nome | Foto: Diego Bresani

Maria Luiza acreditou que seria um trabalho de ficção. Mas Díaz afirmou que ela mesmo faria seu papel. “Disse-lhe que fosse ela mesma em primeira pessoa”. A ideia agradou a ex-militar. Foi assim que o diretor começou seu projeto. “O foco principal do filme foi questionar os motivos que levaram a Força Aérea Brasileira (FAB) a considerá-la incapaz para a sua atividade profissional”.

Díaz viajou com a protagonista para sua terra natal: Ceres, em Goiás, a 277 quilômetros de Brasília. Foi ali que Maria Luiza nasceu em 20 de julho de 1960. Mas o realizador tomou cuidado redobrado em não usar fotos ou imagens do passado da personagem. “Existe uma curiosidade meio exagerada por ver imagens de uma pessoa trans na infância ou com características de outro gênero. Isso é um padrão. Essas coisas de ‘antes e depois’, que estamos acostumados a ver na mídia. Nosso filme não segue esse caminho. Estamos falando de uma personalidade feminina, tem uma conexão com o discurso e com a memória, de uma forma poética, sem buscar violentá-la”. 

A religiosidade de Maria Luiza é algo muito presente na película. Imagens dela rezando em algumas paróquias aparecem ao longo do filme. “Depois que ela conseguiu alterar sua certidão de nascimento ela seguiu diretamente a igreja para agradecer a Jesus Cristo, segundo ela. Independente da fé ou crença de quem assiste ao filme, é muito tocante essa determinação associada à gratidão ao divino.”

Marcelo Díaz afirma que a camada católica da personalidade dela é um elemento que dá um nó na cabeça de muitos espectadores. Ela sempre se colocou como católica praticante. “Há quem acredite que isso não seja possível, que uma coisa não se encaixa na outra. Mas existem Marias Luizas por toda parte. Precisamos acolhê-las.” Outro aspecto que se destaca no filme é o gosto da protagonista pela botânica e pelo cultivo de plantas.

Mas nem tudo foram flores no caminho do diretor e de Maria Luiza. Muitos colegas da época de aeronáutica não quiseram dar depoimentos. Os poucos que deram foram a exceção. Díaz também ouviu “nãos” do Comando da Base Aérea de Brasília, da Comunicação Social da FAB, do Comando da Aeronáutica, do Ministro da Defesa, do capelão da Base Aérea de Brasília. “Durante a realização do filme e mesmo antes eu acreditava que essa questão de preconceito ainda seria forte”, explica Díaz. “Mas não a ponto de não nos deixar permitir gravar no local onde ela trabalhou por 22 anos. Os colegas que puderam falar deixaram claro que, apesar das contradições, têm e tinham um forte apreço e admiração por ela.”

Imagem da gravações do depoimento de Maria Luiza | Foto: Diego Bresani

Marcelo Díaz teve a oportunidade, ao longo do processo do filme, de conhecer outras trans militares, todas com “histórias incríveis”, segundo ele. “Eu tenho muita vontade de fazer uma série ou algo nesse sentido com outras trans militares. Bruna Benevides, Bianca Figueira, Alanis Barush, Renata Gracin são algumas dessas personagens. Essa última conseguiu continuar ativa mesmo sendo mulher trans. Existem outros casos de homens trans militares que seguem na ativa.”

O diretor afirma que teve dificuldades imensas para fazer seu primeiro longa-metragem. Radicado no Distrito Federal, Díaz afirma que seu estado é uma região do país ainda pouco conhecida em relação aos estados mais hegemônicos no cinema, como Rio de Janeiro e São Paulo. “O Distrito Federal é um polo cultural muito forte, não só no audiovisual, como na música, nas artes cênicas, visuais, literatura. Sou nascido em Brasília e tenho muito orgulho por esse quadradinho no nosso mapa. Falta incentivo nacional e local.”

O longa-metragem Maria Luiza participou de 22 festivais nacionais e internacionais. Recebeu prêmios de melhor documentário no Liffy (Latino & Iberian Filme Festival in Yale) nos Estados Unidos, no Humano Filme Festival do México e no Merlinka Festival Internacional na Sérvia. “Nossas dificuldades são imensas. Mas as plataformas têm se aberto mais a nossas produções, em particular a documentários. Mas ainda é algo em construção.”

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O cineasta Marcelo Díaz tem mais projetos de direção. O FAC (Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal) contemplou o realizador por seu projeto O Vento Vai Reagir. O documentário propõe o encontro de duas mulheres diferentes com mais de setenta anos: uma indígena e uma branca que se conheceram na década de 1970. “É o encontro de Varin Mema, indígena da Amazônia ocidental e antropóloga, que deixou de ser vista como Marubo pelos parentes. Por outro, no mundo acadêmico sente-se como uma forasteira. Delvair, branca e antropóloga, uma referência em pesquisa da etnia Marubo. Acredita-se que essa conexão entre elas pode ter levado a primeira seguir no campo da antropologia. O filme transita por essas memórias e expectativas de ambas”. Os personagens parecem ser o motor da obra de Marcelo Díaz como documentarista. “São as histórias que me movem. Sinto que pode ser uma ponte entre esses mundos através do cinema”.

Maria Luiza
Direção: Marcelo Díaz
Distrito Federal, Brasil, 2019
Duração: 80 minutos
Onde assistir: Google Play, iTunes Store, Now, Oi Play, Vivo Play, YouTube Filmes

A coluna “Direitos em Cena” é o espaço para o cinema brasileiro contemporâneo na Ponte: seus filmes, seus diretores, seus personagens. Busca ampliar o espaço de narrativas cinematográficas que muitas vezes não recebem atenção da grande mídia, sempre em relação com os direitos humanos. A coluna é escrita por Matheus Trunk, jornalista, escritor, roteirista e mestre em comunicação audiovisual, autor dos livros O Coringa do Cinema (Giostri, 2013), biografia do cineasta Virgílio Roveda, e Dossiê Boca: Personagens e histórias do cinema paulista (Giostri, 2014).

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