Direitos em cena | Orlando Brito, o retratista libertário

Documentário traça a vida do fotojornalista que registrou os bastidores do poder no Brasil, da ditadura a Bolsonaro

Imagem: Reprodução

Um dia ensolarado de verão. Seis horas da manhã. O general ditador do país caminha numa praia do Nordeste brasileiro. O jovem repórter fotográfico parece não acreditar. Mas não tem medo da repressão: munido de uma teleobjetiva de trezentos milímetros ele registra tudo. Os colegas de imprensa temem pelo repórter e pela foto do general andando pelo balneário. Mas o assessor achou uma boa ideia aquilo tudo: “Lógico que pode. São os novos tempos”.  

Outra data, outro local, mesmo fotógrafo. O Congresso Nacional fechado em Brasília. Momento turbulento da ditadura militar. O jovem repórter fotográfico não se intimida. Ele pretende mostrar a Câmara dos Deputados completamente fechada. O rapaz argumenta com o segurança que tinha esquecido uma bateria: “Tudo pode virar um incêndio”. O acanhado guardião acaba topando desde que ele vá junto. Bom de lábia, o fotógrafo saca uma pequena câmera Leica e faz algumas imagens do Congresso vazio.Esses são dois distintos momentos contados pelo próprio fotógrafo Orlando Brito (1950-2022) no documentário Não Nasci Para os Meus Olhos Perderem Tempo (2020) de Cláudio Moraes.

Orlando Brito foi um dos principais fotojornalistas dos bastidores do poder do Brasil em todos os tempos, tendo colaborado com veículos como O Globo, Veja e Jornal do Brasil. O cineasta Cláudio Moraes foi bastante próximo ao fotojornalista e decidiu fazer um documentário sobre o amigo. Mas desde o início não contou com nenhum auxílio dos órgãos oficiais. “Eu me propus a fazer o trabalho sem buscar o dinheiro em financiamento, sem edital, nem nada. Isso acabou atrasando todo o projeto”, analisa Moraes.

A solução foi pedir a participação afetiva de amigos e colaboradores voluntários em áreas técnicas como montagem, produção e som. “Teve vezes que eu saí sozinho e tive que fazer tudo: som, imagem, as entrevistas. Só que assim é chato, né? Porque a possibilidade de acontecer algum erro cresce muito quando você sai sozinho”. Moraes demorou quatro anos e meio para terminar sua empreitada. “Parece que valeu a pena”, brinca rindo.

Mineiro da pequena cidade de Janaúba, norte de Minas Gerais, Orlando Brito chegou no Distrito Federal ainda criança. Seu início no jornalismo foi como laboratorista do fotógrafo Roberto Stuckert (1943-2021), onde despertou para sua vocação profissional. Foi com Stuckert que ele conseguiu ser chamado para ser contínuo do jornal Última Hora do jornalista Samuel Wainer. Logo depois ingressou como fotógrafo na mesma publicação com apenas dezesseis anos de idade. 

Ele fotografou os bastidores do poder de todos os presidentes brasileiros de Castello Branco até Jair Messias Bolsonaro (PL). Ganhou dezenas de prêmios nacionais e internacionais por seu trabalho. Suas fotos estão espalhadas em acervos de diversas instituições de referência no Brasil e na Europa.

A trajetória pessoal e profissional de Brito confunde-se com a própria história da cidade de Brasília, mas é errado limitar a sua atuação profissional somente no lugar do poder. “Ele fez muitas fotos não só de política, mas praticamente de todos os movimentos que existiram na cidade de Brasília: manifestação de rua, movimento universitário, cultural, eventos, shows. Qualquer manifestação ele estava lá registrando. Era impressionante.”

Não Nasci Para os Meus Olhos Perderem Tempo não se limita a mostrar somente a face política do trabalho de Brito. O protagonista também narra as dificuldades que teve realizando trabalhos mais pessoais nos livros Corpo e Alma, em que ele viajava pelos grotões do Brasil, e Senhoras e Senhores, em que ele fotografou personalidades brasileiras que muitas vezes estavam excluídas da vida pública. 

É para este último trabalho que o profissional rememora como foi retratar figuras como o religioso Dom Hélder Câmara, o ator Grande Othelo, o diplomata e poeta João Cabral de Melo Neto, o ator e compositor Mário Lago, a escritora Rachel de Queiroz e o compositor Zé Kéti. “O fotógrafo não deve criar: mas descobrir as imagens”, ressalta Brito ao longo do filme. Outra frase emblemática de Brito no documentário é de fundo futebolístico: “Fotógrafo é como goleiro: precisa ter sorte”.

Foto: Reprodução

O realizador Cláudio Moraes conta que chegou a pensar em entrevistar mais pessoas, mas a falta de recursos acabou sendo um impeditivo. Moraes acabou percebendo que o próprio Orlando Brito era um grande contador de causos. “A nossa ideia era um tanto despretensiosa mesmo e percebemos que ele tinha paixão por conversar. Ele sempre foi uma pessoa extremamente agradável”, conta o documentarista. O diretor comenta que a roteirista Rita Nardelli colaborou bastante nas filmagens. “Ela tinha uma intimidade grande com o Brito e isso nos ajudou a conseguir extrair grandes histórias da vida profissional dele”. 

Ao longo da narrativa do longa-metragem vamos entendendo algumas estratégias e ideias de Orlando Brito sobre a fotografia e seu trabalho. Vamos entendendo que o profissional também gostava de abordar temas como os direitos humanos ou a vida dos rincões do Brasil que foi retratada no livro Corpo e Alma. O melhor do filme é o próprio retratado. Orlando Brito revela-se um excelente contador de causos. Tem carisma e foi um dos maiores nomes da fotografia brasileira. “O Brito é a alma desse filme. Sem ele nada seria possível”, sintetiza Moraes. 

Orlando Brito morreu em 11 de março de 2022 de falência múltipla de órgãos, depois de enfrentar um câncer no intestino. Ele deixou um livro de memórias praticamente pronto: Do Marechal ao Capitão, com 250 fotos com bastidores da “seara do poder”. O livro ainda não foi publicado. Cláudio Moraes afirma que no velório do amigo foi informado pela filha de Orlando que a obra deve ser publicada em breve.  

Não Nasci Para os Meus Olhos Perderem Tempo esteve na mostra competitiva do festival É Tudo Verdade de 2020. Atualmente, o filme está disponível na plataforma Now e passou no Canal Brasil. Moraes analisa que o espaço para o cinema de documentário no Brasil ainda é um tanto restrito. “Bom, documentário não é um gênero tão popular, né? Não é um nicho de preferência do grande público”. Trata-se do primeiro longa-metragem do diretor que tem mais dois roteiros como realizador engatilhado.

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O primeiro é um longa-metragem de ficção sobre um menino que entrega marmitas que se envolve com diversos personagens urbanos na Brasília de 1980. O segundo é novamente uma não-ficção sobre juízes de várzea. “Sabe esses árbitros de campinhos de terra? São as histórias deles”. Um dos personagens deste projeto é um zelador de prédio que nas horas livres apita alguns desses jogos. Cláudio Moraes recorda que já fez algumas filmagens para esse projeto. “No jogo eu entro com duas câmeras: uma no capacete e outra na cabeça do juiz”. Uma dessas acabou de maneira um tanto incomum. “O trio de arbitragem fugiu para o vestiário para não apanharem da torcida e eu fui junto. De repente, eles esqueceram que eu estava ali. Andei revisitando todo esse material e me diverti muito. Acredito que vá gerar um material muito inusitado.”

Esta foi a primeira temporada do “Direitos em Cena”. O espaço do cinema brasileiro contemporâneo na Ponte. Foram oito filmes selecionados que entraram neste espaço de quase todas as regiões do Brasil. Nossa opção sempre foi ampliar o espaço de narrativas que muitas vezes não estavam na grande imprensa, sempre relacionados com os direitos humanos. Mais produções mereciam estar nesta coluna. Mas foi apenas o início. Continuaremos combatendo o bom combate. Esperem pela segunda temporada deste espaço.

Não Nasci Para os Meus Olhos Perderem Tempo

Direção: Cláudio Moraes
Distrito Federal, Brasil, 2020 
Duração: 74 minutos
Onde assistir: Now

A coluna “Direitos em Cena” é o espaço para o cinema brasileiro contemporâneo na Ponte: seus filmes, seus diretores, seus personagens. Busca ampliar o espaço de narrativas cinematográficas que muitas vezes não recebem atenção da grande mídia, sempre em relação com os direitos humanos. A coluna é escrita por Matheus Trunk, jornalista, escritor, roteirista e mestre em comunicação audiovisual, autor dos livros O Coringa do Cinema (Giostri, 2013), biografia do cineasta Virgílio Roveda, e Dossiê Boca: Personagens e histórias do cinema paulista (Giostri, 2014).

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