Direitos em cena | Os revolucionários debochados

Longa-metragem premiado reconstrói a trajetória do movimento Liberdade e Luta

Eles formavam uma comunidade um tanto excêntrica. Esquerdistas, irreverentes, universitários, trotskistas e ouvintes de rock. Conhecida como Libelu, a tendência Liberdade e Luta foi uma organização política que congregou rapazes e moças na fase final da ditadura militar. “Senti que falar deste grupo era um bom jeito de abordar essa quadra histórica da segunda metade dos anos 1970 sob o ponto de vista da militância”, elucida o cineasta e jornalista Diógenes Muniz. Ele sentia falta de obras audiovisuais sobre a resistência ao regime autoritário após a derrota da luta armada. O diretor estreante levou cinco anos para concluir o documentário Libelu — Abaixo a Ditadura que reconta toda a trajetória dessa geração da militância brasileira.

Geração que despontaram nomes hoje famosos como o crítico gastronômico Josimar Melo, o músico Cadão Volpato, a jornalista Laura Capriglione, o sociólogo Demétrio Magnoli, o comentarista político Reinaldo Azevedo e até o ex-ministro Antônio Palocci. “A maior dificuldade era compor esse mosaico de diferentes vozes ao longo do filme. São vinte entrevistados, todos ex-libelus. Dezenove toparam ir até a FAU-USP para compartilhar seus relatos. Somente o Palocci nos deu entrevista de sua casa, no bairro dos Jardins, em prisão domiciliar”.

Muniz explica que o longa-metragem foi uma longa jornada de pesquisa, convites e negociações. Muitos ex-militantes não queriam expor publicamente suas histórias dentro da Liberdade e Luta. Convencer as pessoas a dividirem suas memórias foi uma tarefa um tanto complicada para o jovem diretor e sua pequena equipe de filmagem. “Eu e a assistente de direção Bianka Vieira levamos muito tempo tentando convencer dezenas de pessoas relembrando seus anos de militância estudantil. Mas foi muito prazeroso ouvir tanta gente rememorar sua juventude”. 

Pôster do filme “Libelu — Abaixo a Ditadura” | Foto: Reprodução

O cineasta ressalta que a entrevista mais difícil de ser realizada foi mesmo com o ex-ministro Antônio Palocci. “Eu vinha tentando contato com ele desde antes da prisão, mas só conseguimos conversar após a soltura. Ao ouvir Palocci, sinto que o filme acaba expandindo os seus limites”, expõe. “Por alguns minutos, deixamos de apresentar um longa-metragem que trata de um período específico da ditadura ou de um pequeno grupo de radicais da USP para olhar mais de perto uma das histórias mais impressionantes da política brasileira das últimas décadas”.

O realizador debutante fez algumas escolhas significativas para seu primeiro longa-metragem. Uma delas é colocar quase todos os entrevistados dando seus depoimentos no mesmo lugar: o prédio da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP), projetado pelo arquiteto Villanova Artigas. “Não queríamos fazer um filme em que cada entrevistado fosse visto num cenário genérico que estivesse sendo usado só pela comodidade de poder filmar ali como em casa ou no escritório. Mas queríamos, sim, que o local funcionasse como dispositivo fílmico ajudando os entrevistados a lembrarem dos seus primeiros anos de militância”.

Outro aspecto interessante do filme é o vasto material fotográfico e as imagens de arquivo da época. É possível notar o contraste das fotos dos então jovens militantes que envelheceram e afastaram-se dos ideais dos tempos universitários. No início, o documentarista pensou em tirar alguns dos entrevistados ou mesmo omitir suas trajetórias posteriores a Libelu. Mas com o tempo acabou percebendo que esse fato enriquecia o documentário.  “Entendemos que o importante não era tirar alguma conclusão sobre a trajetória de cada uma daquelas pessoas, mas expor o quão diversas foram suas vidas após uma experiência em comum tão potente. As contradições, divergências e cacofonias entre eles se tornaram bem-vindas”.  

Diógenes Muniz reconhece que teve diversos aprendizados ao longo da produção do filme. O realizador confessa que fazer o primeiro longa-metragem lhe valeu como uma espécie de universidade de cinema. “Você precisa construir o filme pacientemente enquanto, do outro lado vai tentando angariar parcerias e captar dinheiro. Acaba sendo quase um exercício de fé”. 

Durante a pesquisa, algo precioso quase ficou de fora. Nas pré-entrevistas com os ex-militantes muitos lembravam da participação dos irmãos Josimar e Ricardo Melo falando sobre a Libelu para o jornalista Mino Carta num certo programa de televisão. “Foi a peça videográfica mais importante do filme”, reconhece. O registro da TV Tupi foi encontrado na Cinemateca Brasileira pouco antes do fechamento da entidade. “Era uma cópia única, vários citaram esse registro, então passamos dois anos tentando acha-lo. Dá pra dizer que sem esse arquivo não existiria filme. É um caso raro em que podemos ver e ouvir dois jovens dirigentes da Liberdade e Luta falando na TV aberta suas ideias”.

Parece que deu certo. Trata-se de um filme curioso, informativo e muito divertido. Os jovens da Liberdade e Luta não se identificavam com a esquerda nacionalista que gostava de samba e que tinham referência cantores como Chico Buarque. Os libelus ouviam rock internacional e suas festas tornaram-se conhecidas no meio universitário da época. Esses detalhes não escapam do filme.

Libelu — Abaixo a Ditadura recebeu o prêmio de melhor longa-metragem do festival É Tudo Verdade de 2020. A produção ficou esperando alguns meses para lançar o filme comercialmente por conta da pandemia. O longa-metragem entrou em cartaz em salas comerciais de São Paulo, Brasília e Rio de Janeiro. Também foi exibido no Canal Brasil, na faixa dedicada a documentários da GloboNews e na TV Cultura. O longa-metragem pode ser visto nas principais plataformas VoD. “Somente posso falar da minha experiência específica que é de um estreante. O filme foi rodado com muito pouco dinheiro se encaixando como baixíssimo orçamento. Então, é gratificante todo esse reconhecimento que o documentário está tendo”, sintetiza Diógenes Muniz.

Libelu – Abaixo a Ditadura

Direção: Diógenes Muniz  
São Paulo, Brasil, 2020
Duração: 89 minutos
Como assistir? Apple TV, Google Play, VIVO PLAY e YouTube Filmes

A coluna “Direitos em Cena” é o espaço para o cinema brasileiro contemporâneo na Ponte: seus filmes, seus diretores, seus personagens. Busca ampliar o espaço de narrativas cinematográficas que muitas vezes não recebem atenção da grande mídia, sempre em relação com os direitos humanos. A coluna é escrita por Matheus Trunk, jornalista, escritor, roteirista e mestre em comunicação audiovisual, autor dos livros O Coringa do Cinema (Giostri, 2013), biografia do cineasta Virgílio Roveda, e Dossiê Boca: Personagens e histórias do cinema paulista (Giostri, 2014).

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