Documentário ‘Quem te Penteia?’ discute a identidade racial a partir do cabelo

‘A estética não é superficial, ela reflete na autoestima das pessoas’, diz uma das diretoras do filme, que fala de economia, territorialidade e ancestralidade a partir do cabelo

Foto: Nina Vieira/Divulgação.

Como as periferias lidam com a estética? Foi essa inquietação que fez Naná Prudencio, 29 anos, e Nina Vieira, 28 anos, pensarem pela primeira vez no documentário ‘Quem te penteia?’. A ideia surgiu há 3 anos de um interesse em comum: registrar as expressões estéticas da periferia focada em cabelo, mas não apenas em cabelo negro, cabelo crespo, mas de uma questão de representar as estéticas periféricas. “Queríamos falar das barbearias, cabeleireiras à domicílio, trançadeiras, técnicas manuais ligadas ao dread, cabeleireiros mais experientes e mais novatos, e também a questão econômica. Depois também incluímos o olhar para os cortes, principalmente o corte chavoso, que antes era chamado de cabelo de bandido”, explica Nina Vieira, produtora executiva do filme.

O processo de criação do documentário durou cerca de um ano e boa parte das funções técnicas foram desempenhadas por Naná e Nina, mulheres negras e periféricas. Os 9 entrevistados foram escolhidos a dedo depois de uma pesquisa elaborada por Naná, Nina e Semayat Oliveira. “A gente analisou quais eram as possibilidades e as vertentes diferentes que podíamos abordar em relação ao cabelo e a parte racial. A gente decidiu diferenciar essa romantização do cabelo crespo, que é esse lance ‘eu tenho consciência racial então eu uso o meu cabelo crespo’, achamos isso legal, já passamos por isso, mas ainda existe nas periferias uma série de pessoas que não comprou essa estética e usa o cabelo alisado ou aplique. E a gente não precisa conversar sobre isso e colocar em um lugar que não é um lugar de não consciência. É uma escolha estética essa liberdade de poder usar o nosso cabelo da forma que a gente quiser, seja ele crespo, com chapinha ou com aplique. A gente tomou cuidado de trazer esse olhar para os personagens”, explica Semayat.


Cláudia Borges, uma das entrevistadas para o documentário. Foto: Nina Vieira/Divulgação.

Para Naná Prudencio, diretora fotográfica do documentário, dois pontos importantes foram observados no processo de produção do filme: o orgulho por ser da periferia e a transição econômica das quebradas. “Agora você pode ser do jeito que você é e pronto. Tem o estilo da quebrada, tem o estilo de cabelo da quebrada. Você fazer o seu cabelo em outro lugar não vai ser a mesma coisa do que fazer assim. Então a galera está se aceitando mais. Se a gente tivesse filmado ele há 2 ou 4 anos atrás não ia ter tanta expressão de orgulho de ser periférico, sabe. De falar: não, esse cabelo eu faço na quebrada e todo mundo usa. A transição econômica fez mudar essa transição capilar, porque antes pra você falar que você cortou o cabelo num lugar daora, você tinha que falar que cortou o cabelo em Pinheiro, na Vila Madalena ou na Galeria (do rock). Hoje em dia não, hoje em dia falar que cortou o cabelo na quebrada e falar que tava lotado as pessoas começam a valorizar as economias que tem dentro da quebrada”, conta Naná.

A narrativa do média-metragem busca construir uma conversa informal nesses espaços de socialização, como as barbearias e os salões de cabeleireiro, com o uso de gírias e dialetos locais. O doc foi gravado em bairros periféricos da capital paulista, como Capão Redondo, Jardim Mirim, Grajaú, Guaianazes e Itaquera, além da Galeria do Rock, no centro de SP. A territorialidade é um diferencial importante do ‘Quem te penteia?’, uma vez que a estética é uma influência do bairro e território. “A gente consegue falar de raça mostrando que existe uma nesse discurso, a negritude é o que transpassa, é o transversal, é o essencial, mas que a influência do território e do bairro é fundamental para que essa nossa estética aconteça, que ela seja da forma que ela é hoje”, explica Oliveira.


Raul Paixão, cabeleireiro LGBT personagem do filme | Foto: Nina Vieira/Divulgação.

Nina acredita que a estética vai muito além do superficial, pois reflete na autoestima das pessoas negras. “A partir do momento que eu tô me sentindo bem com a minha imagem, me sinto mais confiante pra seguir na vida no mundo do trabalho, no campo das relações afetivas e tudo mais. Então, além disso, a gente considera que a população negra tem uma relação muito particular com a cabeça e com a estética. Então cuidar do cabelo de uma criança negra é um gesto de amor, de cuidado e de afeto. Você está investindo um tempo naquela criança, a criança se sente cuidada, se sente importante”, explica.

Entre as percepções de vivência da produção, Naná destaca que, ainda hoje, moradores negros das periferias têm medo de assumir seus cabelos afro por temer perder ou não encontrar um emprego. “Vimos com os entrevistados e nas pesquisas que o cabelo black dos anos 70 era revolucionário, nos anos 80 começou a ser perseguido, então essa perseguição era: se você tem cabelo black você não vai ter emprego, se você tem cabelo black você não vai sair com a minha filha. As portas começaram a se fechar. Ainda hoje, o racismo infelizmente liga o cabelo crespo a higiene o tempo todo. Eu percebi que dentro da quebrada a maioria das pessoas ainda pensa assim, tipo ‘ah, mas você tem cabelo assim porque você trabalha com arte, eu sou auxiliar administrativa e tenho que ter cabelo liso’. Por que? A galera da quebrada ainda pensa assim. Eles atravessam a ponte e ainda pensam assim”, explica Prudencio.

Serviço:

A primeira exibição acontece nesta segunda-feira (16/04), na Galeria Olido, região central de SP, às 20h. Os ingressos começam a ser distribuídos com 1h de antecedência. Após a primeira exibição, o filme será exibido em bairros periféricos e espaços independentes.

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