Dois motoboys são presos por causa de celular localizado em pizzaria em SP

    Marcos Mikael e Pedro foram presos depois que PM ligou para local que aparecia no rastreador do aparelho; um deles encontrou celular na rua e levou para pizzaria

    Marcos Mikael Silva dos Santos, à esq., e Pedro Justino de Amorim Junior, à dir., estão presos desde 23 de junho de 2019 | Foto: arquivo pessoal

    Eram 23h de uma terça-feira quando Marcos Mikael Silva dos Santos, 20 anos, chegou no trabalho, no Jardim Cambara, zona oeste de São Paulo. Assim que entrou na Pizzaria Família Almeida, onde faz entregas com sua moto, Mikael foi direto conversar com Carlos Alberto de Almeida, dono do estabelecimento, para entregar um celular que achou na calçada, bem perto da entrada do local.

    Minutos depois, o telefone da pizzaria tocou. Era a Polícia Militar avisando que o rastreador de um celular roubado apontava ali como sua localização. Carlos, então, confirmou que o celular estava na pizzaria e que um de seus funcionários havia encontrado o aparelho na rua.

    Em seguida, os PMs Alessandra Fernandes Silva e Lyncoln Gabryell Borges chegaram ao local. Em entrevista à Ponte, a autônoma Deize Maria da Silva Fazal, 36 anos, mãe de Mikael, conta que o filho contou para ela que os dois PMs entraram na pizzaria abordando todas as pessoas de maneira indiscriminada.

    “Cliente, pizzaiolo, quem estava cortando lenha, todo mundo teve que colocar a mão para cima. Eles foram para cima do meu filho, que falou que o celular estava com ele. A policial perguntou de quem era a moto roxa”, conta Deize.

    A moto com a cor mais próxima do roxo era de Pedro Justino de Amorim Junior, 32 anos, colega de Mikael e também entregador na pizzaria. Mas a moto dele é, na verdade, azul, como conta Janaina Claudia Domingos, 34, companheira dele. “O Pedro chegou da entrega e sentou para esperar a próxima. Foi quando os PMs falaram que ele também estava envolvido, pois a vítima tinha falado que era uma moto roxa. Mas a moto dele nem é roxa, é azul. Além disso, a vítima falou que eles estavam em dois na moto. Se você ver a moto do meu marido… ela não aguentava nem eu, ela aguentava uma pessoa só. Mas nada disso importou. Pegaram e levaram ele e o filho da Deize”, afirma Janaina em entrevista à Ponte.

    Moto de Pedro: ‘Ela nem é roxa, é azul’, diz Janaina, companheira dele | Foto: arquivo pessoal

    A polícia não encontrou armas e ambos afirmaram ser inocentes. O dono da pizzaria confirmou a versão de Mikael. Mesmo assim, por causa do celular encontrado no local, os dois foram presos em flagrante na noite de 23 de julho e levados para o 89º DP (Departamento Policial), no Jardim Taboão, também na zona oeste da capital paulista.

    No boletim de ocorrência, o delegado Rogerio Zuim Uehara considerou que os dois cometeram roubo qualificado com emprego de arma. Ainda de acordo com o registro, Mikael e Pedro foram reconhecidos pela vítima. “A vítima informou que os assaltantes estavam com os capacetes apenas na parte de cima da cabeça, ou seja, os capacetes não cobriam a face”, aponta o B.O..

    O horário da ocorrência foi 20h. A Ponte obteve imagens das câmeras de segurança da rua da pizzaria, onde o celular foi achado, que mostram Mikael passando diversas vezes na rua com a caixa de entregas e sozinho entre 19h52 e 20h22.

    A vítima, segundo o documento, afirma que estava no banco do passageiro do carro dirigido por sua mãe quando surgiram duas pessoas em uma motocicleta roxa e que elas anunciaram o assalto, exigindo pertences pessoais, aparelho celular e a chave do veículo.

    De acordo com o B.O., a vítima “observou quatro indivíduos detidos e apontou com absoluta certeza as pessoas de Marcos Mikael Silva dos Santos e Pedro Justino de Amorim Junior como sendo os roubadores. Que Marcos era o piloto e Pedro era o garupa. Que reconhece a motocicleta roxa apreendida como sendo o veículo utilizado no assalto”.

    No dia 1º de agosto, a Justiça de São Paulo aceitou a denúncia contra Mikael e Pedro por roubo qualificado. Na decisão, a juíza Renata William Rached Catelli negou o pedido de liberdade provisória porque considerou o crime de natureza grave. “Revelando seus autores periculosidade, de forma que a permanência do réu no cárcere se impõe, principalmente para manutenção da ordem pública visando a paz social”, escreveu.

    ‘Vi a policial falando como eles eram para a vítima’

    A Ponte tentou contato direto com o advogado de defesa de Mikael, Sindbab Thadeu Focaccia, mas não houve retorno. A família dele, contudo, disponibilizou para a reportagem os autos do processo. A defesa afirma que não há comprovação de que Mikael tenha efetuado o assalto, portanto, não há “materialidade” para a acusação. Destaca também a boa intenção de Mikael, que, ao encontrar o aparelho, levou ao chefe dele para que pudesse voltar ao dono.

    “Causa certa estranheza a configuração [do relato do B.O.], pois a cena se coloca no interior de uma pizzaria, em que o acusado trabalha, haja vista quando se encontrava efetuando uma entrega de produtos achou em via pública um celular, inclusive que encontrava danificado. Em ato contínuo se dirigiu até a empresa, oportunidade em que contou ao proprietário da pizzaria ‘que havia encontrado’ o bem”, escreve o advogado na tese de defesa.

    Na argumentação, o advogado Sindbab aponta que Mikael estava em seu local de trabalho, não esboçou reação durante a prisão e é possível provar pelas comandas de entregas e os dados do rastreador do celular do jovem, que ele estava trabalhando no horário do assalto, que ocorreu por volta das 20h.

    Comandas de entrega de Mikael na noite de 23 de julho de 2019 | Foto: arquivo pessoal

    Em entrevista à Ponte, Deize, mãe de Mikael, relata que, enquanto estava na delegacia aguardando informações do filho, viu a PM Alessandra passando a descrição de seu filho e de Pedro para o escrivão no lugar da vítima. A autônoma ainda conta que durante o dia o filho trabalha com ela e, de noite, na Pizzaria Família Almeida.

    “Fiquei lá na sala de espera, que estava cheia de gente, e eu vi a policial dando os relatos para fazer o B.O.. Ela falava que roubaram um celular, que foi rastreado na pizzaria, que ele tem barba, cavanhaque… Aí ela falou para vítima assinar e disse que ele deveria entrar lá dentro para reconhecer e começou a dar características dos dois”, conta Deize, que trabalha com vendas e estava acompanhada de um cliente dela.

    Na ocasião, Deize foi até a Ouvidoria de Polícia do Estado de São Paulo no dia 8 de agosto para levar a denúncia de que, talvez, o filho dela tenha sido vítima de uma injustiça. “Ele [o cliente] falou assim para ela [a policial] ‘como assim você está falando as características do pessoal para ele reconhecer?'”, relata a mãe de Mikael.

    Na denúncia feita à Ouvidoria, o cliente de Deize afirma que, na delegacia, no momento do registro da ocorrência, “presenciou a PM Alessandra Fernandes Silva passando todos os detalhes para o escrivão, que também não questionou o fato da policial passar os dados e não a vítima que só assinou o depoimento narrado pela policial e entrou para fazer o reconhecimento dos acusados, depois de instruído pela policial militar”.

    A Ponte apurou que a PM Alessandra é a mesma policial que participou da prisão de quatro jovens suspeitos de roubar um Uber em dezembro de 2018. Na época, a reportagem entrevistou a família dos jovens que tentavam provar a inocência de Fabrício Batista dos Santos, Pedro Henrique Batista dos Santos, Washington Almeida Silva e Leandro Alencar de Lima e Silva, presos no Jardim São Jorge, entre a zona oeste e zona sul de SP.

    A mãe dos irmãos Fabrício e Pedro Henrique, Luci Batista Santos, 40 anos, confirmou à Ponte que a PM Alessandra estava entre os PMs que efetuaram a prisão dos quatro jovens em dezembro de 2018.

    “No caso dos meus filhos, foram quatro viaturas, teve bastante policial, mas só dois aparecem no B.O.. No momento da abordagem, tinha uma policial, a mesma que fez a abordagem do filho da Deize. Os meninos reconheceram quando ela começou a falar da policial e na hora falaram que era a mesma policial que tinha efetuado a prisão deles. Os policiais continuam aqui no bairro”, afirma Luci, que virou ativista da Rede de Proteção e Resistência Contra o Genocídio depois da prisão dos seus filhos.

    Mikael e Pedro estão presos no CDP 2 (Centro de Detenção Provisória) de Osasco, onde aguardam julgamento. Deize também contesta o endereço que aparece como local do assalto. “Quando cheguei da delegacia, fui ver o boletim de ocorrência e lá tá escrito que o assalto foi a 200 metros da pizzaria, na altura do número 300. No dia 17 de agosto, eu visitei meu filho e ele me contou a história. Ele falou que, quando estava dentro da viatura junto com o Pedro, viu a vítima falando com a policial como foi o assalto. A vítima disse que o assalto foi em Taboão da Serra, que os bandidos eram um gordo e moreno e um magro e alto, nada a ver com os meninos. Eu perguntei ‘sim, meu filho, mas por que você está aqui então?’. E ele falou ‘mãe, eu tenho certeza que a vítima não nos reconheceu'”, conta a mãe à Ponte.

    Deize relata que Mikael tentou questionar a PM Alessandra, sem sucesso. “Na hora que a policial entrou lá para levar eles, meu filho questionou se estava liberado e diz ele que ela falou assim: ‘vocês [sic] tomou no cu porque a vítima te reconheceu’. E ele disse que ouviu a vítima falando. Aí falaram para ele ‘o B.O. está feito, está assinado, já deu o meu horário, eu não tenho mais tempo de ficar procurando culpados e cabe à Justiça agora’. Ele me disse que não sabia por que estava ali, que nunca pensou que cairia ali, que só pensou em devolver o celular para o dono sem ser jogado dentro desse lugar. Tem muita contradição no B.O.”, afirma Deize.

    ‘Ele só usava essa moto para trabalhar’

    Quando Pedro Justino de Amorim Junior foi preso, sua filha mais nova tinha acabado de completar um mês. A mulher dele, Janaina Claudia Domingos, aguardava o marido em casa enquanto se recuperava da cesariana. A gravidez da caçula do casal foi de risco e, por isso, Janaina precisou largar o emprego.

    Um mês depois da prisão do marido, Janaina desabafa sobre a ausência daquele que cuidava dela e dos filhos e que, garante ela, está sendo injustiçado. “Eu tenho certeza que o meu marido não encostou nesse celular. Ele é um ótimo marido, um ótimo pai, uma ótima pessoa. A polícia tava com raiva que tinha achado o celular com o menino e pegou o meu marido. Ele já teve passagens, mas isso não importa, ele estava de boa, não estava mexendo com nada de errado. O que passou passou. Ele estava com outros propósitos pra vida dele. Eu quero o meu marido de volta. É muito difícil ver a pessoa que tá ali com você, 24h por dia, e do nada ver o telhado desmoronar na nossa cabeça sem entender o motivo”, argumenta Janaina. “Ele só usava a moto para trabalhar”, continua.

    Comandas de entrega de Pedro na noite de 23 de julho de 2019 | Foto: arquivo pessoal

    O casal mora com os três filhos (um de 9 anos, uma de 4 e a caçula de 2 meses) na mesma rua da pizzaria. Janaina revela à reportagem que a mulher do dono da pizzaria chegou a encontrar, por acaso, com a vítima do assalto e que ela teria dito que a moto usada pelos assaltantes era prata, não roxa como consta no B.O.

    “Depois de tudo isso, a esposa do dono da pizzaria, que é a patroa do meu marido, encontrou essa vítima e ela tinha alegado que não era uma moto roxa que tinha sido usada no assalto, que ela estava em choque naquele dia da delegacia”, conta.

    O encontro, ainda de acordo com Janaina, aconteceu na manicure. “A menina que faz a unha dela perguntou por que ela não tinha ido no dia anterior. Aí a patroa do meu marido ouviu ela falando que foi assaltada e perguntou sobre o assunto. Foi quando a vítima garantiu que era uma moto prata”, continua.

    Desesperada com a prisão do marido, Janaina afirma que ainda não conseguiu um advogado para cuidar do caso de Pedro. “Eu ainda não consegui falar com a Defensoria Pública. Eu já fui lá umas quatro ou cinco vezes, mas eles ficaram me mandando para trás porque o caso deles ainda não tinha chegado no juiz. Fica muito cansativo para mim, pois tenho que gastar com passagem. Eu tenho três filhos pequenos e estou desempregada”.

    Por causa da situação financeira, por não ter dinheiro para o transporte e por não ter com quem deixar os filhos, somente na quarta-feira passada (4/9) Janaina conseguiu a carteirinha que permite a sua entrada na lista de visitas.

    “Como eles estão sendo vacinados contra o sarampo lá dentro da cadeia, tem que ficar pelo menos duas semanas sem visita”, conta, apreensiva.

    Mais de um mês depois da prisão de Pedro, as duas únicas formas de comunicação que Janaina teve com o marido foi por uma carta e um recado dado pela advogada da Rede de Proteção, que visitou Justino em agosto. “Ela foi lá no mês passado para ver como ele estava, bem no comecinho de agosto. Ela conversou com ele, viu como ele tava e eu fiquei mais feliz, pois ele estava bem na medida do possível. Agora ele está no raio de convívio do CDP de Osasco. Em breve vou conseguir ver ele e levar umas coisinhas”, comemora.

    Outro lado

    Procurada pela reportagem, a SSP-SP (Secretaria de Segurança Pública de São Paulo) respondeu apenas que “os autores foram detidos em flagrante e reconhecidos pela vítima. O aparelho celular roubado estava em poder dos suspeitos e foi restituído. O inquérito policial foi concluído e a prisão em flagrante foi convertida em preventiva pela Justiça”. A assessoria da PM-SP, por telefone, também só confirmou informações sobre a prisão de Mikael e Pedro.

    A Defensoria Pública de São Paulo informa, em nota*, que o caso foi “encaminhado à 21ª Vara Criminal do Fórum da Barra Funda, depois de prazo para oferecimento de denúncia pelo Ministério Público. Por ora, corre o prazo para citação dos acusados, para que informem se irão constituir ou não advogados privados”.

    “A Defensoria encontra-se à disposição para atendimento sobre o caso diariamente, no próprio Fórum Criminal da Barra Funda, estando de portas abertas para dar informações e orientações para familiares”, conclui a nota.

    A audiência de instrução do caso está marcada para 1 de outubro de 2019.

    (*) Reportagem atualizada às 15h46 do dia 17/9

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