‘É só o começo’: Juliana Vicente, diretora de ‘Racionais – Das Ruas de São Paulo Pro Mundo’

Cineasta fala sobre rap, política audiovisual, racismo e representatividade: ‘Recebo muitas mensagens de meninas e mulheres pretas que se inspiram no meu trabalho e fico feliz por isso’

Está no Top 10 dos filmes da plataforma Netflix mundial. Um documentário de longa-metragem sobre o mais conhecido e influente grupo brasileiro de rap: Racionais MCs. A principal responsável por essa proeza histórica é a jovem diretora, roteirista e produtora Juliana Vicente. “É tudo incrível, estou muito feliz. Não tinha como prever essa repercussão”, diz ela, ainda surpresa com tanto sucesso.

Racionais – Das Ruas de São Paulo Pro Mundo estreou na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo numa sessão lotada na Cinemateca Brasileira em outubro deste ano. O público não ficou indiferente ao longo dos 116 minutos do filme. Uns aplaudiam, outros cantavam as músicas, outros riam com as histórias mais engraçadas. Foi um clima muito favorável, como tem sido a recepção da película. “Recebo muitas mensagens de meninas e mulheres pretas que se inspiram no meu trabalho e fico feliz por isso.”

Foram anos trabalhando numa produção audiovisual sobre o grupo. Até que veio a plataforma Netflix ajudar na empreitada. Mas não houve nenhum tipo de imposição da empresa sobre o conteúdo do longa-metragem. “A plataforma foi extremamente respeitosa com as nossas escolhas, talvez muito porque já chegamos com algo feito. Então, parece que foi uma experiência bastante particular”. Juliana Vicente conversou com a reportagem da Ponte sobre os Racionais e o seu trabalho.

Ponte – Como surgiu a ideia de realizar um documentário sobre os Racionais?

Juliana Vicente – O documentário foi o resultado de um processo que começou muito despretensiosamente, era um registro. Eu havia produzido o clipe Marighella e depois disso fiquei próxima dos Racionais e da Eliane [Dias], que é a empresária deles. Ela foi fazer a primeira turnê produzida por ela e eu fui filmar. Ao final disso a gente tinha muito material e decidimos montar um DVD, mas não rolou. Aí chegou um momento que eu já não estava conseguindo construir algo que eu mesma gostasse sobre a turnê e abri isso com o [Mano] Brown, que levou isso pra Eliane. Ela foi rápida em me ligar e dizer que queria que eu fizesse algo, que entregasse o que eu quisesse, mas que eu construísse alguma coisa — ela teve uma intuição, certamente. Eu pedi para entrevistar eles. Depois dessa entrevista é que entendi que talvez o que eu tivesse ali fosse o início do documentário dos Racionais. E aí fomos organizar e montar esse material e ficou claro que era isso. Então, investimos nesse caminho: indo atrás de arquivos tanto deles quanto dos outros e construindo o primeiro tratamento do roteiro.

Ponte – As séries e minisséries estão em alta nos serviços de streaming. Desde o início esse projeto foi pensado em documentário de longa-metragem?

Juliana Vicente – Sim, desde o início eu achava que tinha que ser um único filme, embora a gente tivesse muito material e tudo parecia muito interessante. Eu acho possível e necessário que se façam séries, tanto doc como ficção, sobre o universo que são os Racionais, mas eu acho que um filme único era o que precisava para esse material que pudesse dar conta de uma dimensão mais política para história do Brasil. Parecia importante que ficasse claro essa inscrição na história e essa importância, fora a potência de podermos gerar conversas e reflexões a partir do filme.

Ponte – Em grande parte da narrativa, os entrevistados dão seus depoimentos na frente de um fundo escuro. Por que essa opção na narrativa?

Juliana Vicente – Eu poderia enumerar os motivos da minha escolha, até porque na primeira fase isso foi uma luta com o fotógrafo. Mas eu sabia bem o que queria porque naquele momento era a primeira vez que a gente escutava os Racionais. Eu achava que o foco eram eles: o gesto, o tempo deles e tinha a ver com a atmosfera do grupo. Eu também gosto da questão mítica dos Racionais, nunca foi sobre desmontar isso, mas sobre respeitar esse espaço e convergir de forma simples pra um espaço de intimidade que funcionou bem.

Mano Brown, Ice Blue, Edi Rock, KL Jay em cena de “Racionais – das ruas de São Paulo para o mundo” | Imagem: Netflix

Ponte – A gente observa no cinema brasileiro muitos documentários musicais feitos nos últimos tempos. Existem até festivais desse tema. Mas parece que foram poucos títulos realizados sobre artistas de hip hop. O que você acha disso?

Juliana Vicente – Se você pensar nos Racionais como pioneiros ou entre os pioneiros do gênero, acho que isso vai intensificar. Essa galera está na faixa dos 50 anos agora. E ainda vai ter que ter parte dois, parte três, até porque a vida está em movimento. Precisamos registrar essas histórias, espero que o doc dos Racionais abra esse caminho e amplie o interesse em se produzir mais obras nesse sentido.

Ponte – Um dos aspectos interessantes do filme é documentar a maneira como a Galeria do Rock e a São Bento eram pontos de referência quando os Racionais começaram. Como foi isso?

Juliana Vicente – Eu acho legal que você ache isso interessante. Porque para mim foi uma grande descoberta também. Porque eu não era uma pessoa que sabia de todo esse movimento, não estava familiarizada com as histórias desses pioneiros. Então, acho que de alguma maneira isso foi bom para entender a presença da cidade nos Racionais, o reflexo na obra deles. Consequentemente, isso foi algo muito norteador do roteiro do longa-metragem.

Ponte – Quais foram as maiores dificuldades do filme?

Juliana Vicente – A questão dos arquivos é muito complexa. É uma lacuna para história negra do país, porque somos muito reféns de materiais de arquivos que estão muitas vezes com pessoas ou com empresas que não estão comprometidos em colaborar que a gente consiga contar nossas histórias. Então, vira um trabalho muito complexo tentar convencer ou pagar valores mirabolantes ou ainda simplesmente receber negativas implacáveis para utilizar materiais que seriam fundamentais pra gente conseguir contar nossa história. Isso é lamentável. No caso dos Racionais é uma sorte que eles tiveram a preocupação de se registrar, mas para contexto é muito difícil remontar nossa história.

Ponte – Percebi que a narrativa é centrada na história e nos discos dos artistas. Como foi isso? Existia algum medo do documentário ficar muito expositivo e pouco musical?

Juliana Vicente – De certa forma, a estrutura dos discos ajudava a costurar o reflexo do Brasil nessa construção e vice-versa, das mudanças que estavam sendo promovidas e seu reflexo também. Eu não estava pensando muito sobre a questão de ser ou não expositiva, eu estava contando a história dos Racionais que eu achei que merecia. A música é muito narrativa também. Então, a gente tinha uma construção feita paralelamente, ela não está ali como trilha apenas em algum momento do filme. A música sempre está contando alguma história. Em algum momento até houve alguma questão sobre ser muito expositivo, mas aí eu me lembrava que os caras tinham música de nove minutos e acreditava que tinha que manter um ritmo musical dentro. Mas não deixava de falar nada do que tinha que ser dito.

Ponte – O Sobrevivendo no Inferno (1997) é tido como um dos discos mais representativos e marcantes do grupo. No entanto, o próprio Mano Brown durante o filme diz que o álbum acabou deixando o trabalho deles um tanto carregado de pessimismo. Como foi perceber e registrar isso?

Juliana Vicente – Eu acho que é uma percepção sobre aquele momento, sobre como as coisas estavam reverberando naquele momento mediante os contextos todos que estavam rodeando-os nesse Brasil no final dos anos 1990. Foi e é incrível perceber a lucidez do movimento dos Racionais e o foco nos objetivos, assumindo o risco de parar para recalcular a rota. Trata-se de um disco forte, realista, que na conjunção com o que estava acontecendo no Brasil pesava demais entre o povo periférico, preto, para as pessoas com quem ele estava falando, certo? Entendo que o Brown só percebeu que naquele momento precisava renovar as ideias em prol de algo maior na quebrada e que o disco tinha cumprido sua missão. Foi esse disco que popularizou os Racionais, denunciou muitas coisas. Mas os Racionais precisavam apontar pra outras coisas, seguir falando com quem eles queriam falar e foi o que eles fizeram. E fizeram um disco, na minha opinião, ainda maior.

Ponte – Ao longo dos anos, o grupo Racionais MCs sempre teve embates com as autoridades policiais e isso é demonstrado ao longo do filme. Como foi isso? Você percebia importância de falar disso no documentário?

Juliana Vicente – Fundamental. A razão pela qual a gente volta a falar disso no final do filme é porque isso não mudou tanto, a gente continua tendo esses mesmos problemas. E o genocídio está aí, mas vai mudar, como diz o KL Jay, eu acredito.

Ponte – O filme entrou no ar na Netflix há pouco tempo e é o recordista de acessos no Brasil. Como está sendo a recepção? Você esperava isso?

Juliana Vicente – É tudo incrível, estou muito feliz. Não tinha como prever essa repercussão e esse tanto de conversa que gerou. Estou muito feliz.

Cena de “Racionais – das ruas de São Paulo para o mundo” | Imagem: Netflix

Ponte – Você acredita que o streaming pode ser um caminho de afirmação da produção da não-ficção, de documentários feita no Brasil?

Juliana Vicente – Acho que sim, mas ainda tenho esperança que a gente volta a ter uma Ancine (Agência Nacional de Cinema) ativa e funcional pra que a gente não pare de fazer cinema independente. O nosso doc foi para a Netflix, mas ele nasceu independente, chegou num corte independente e mantivemos essa característica até o fim. A plataforma foi extremamente respeitosa com as nossas escolhas, talvez muito porque já chegamos com algo feito. Então, parece que foi uma experiência bastante particular. Mas se fosse sempre assim, com liberdade, seria legal e a gente teria que ter atenção sempre com a questão da propriedade. Os streamings são muito legais, mas é extremamente importante órgãos federais, leis e regulações para a manutenção do nosso cinema.

Ponte – Muitos documentários realizados no Brasil na atualidade duram em média 75, 80 minutos. Seu filme tem 116 minutos. Essa duração foi sua pretensão desde o começo?

Juliana Vicente – Então, essa era a expectativa do streaming, mas eu tava buscando o filme como ele era, eu teria que sacrificar muita coisa pra me encaixar nisso. Então, lutamos para que o filme tivesse o tempo que eu achei que ele tinha que ter pra contar a história que queríamos. Eu acredito que em alguns casos essa limitação de tempo funciona, mas nesse filme eu achava que as pessoas iriam ver até o final, mesmo ele tendo um tempo maior que o usual de doc.

Ponte – Você é uma diretora mulher e negra no cinema brasileiro, que ao longo da sua história sempre foi uma cinematografia machista e racista. Na sua opinião, o quanto o seu trabalho é pioneiro nesse sentido e pode influenciar mais mulheres negras a ingressar no meio?

Juliana Vicente – Eu recebo muitas mensagens de meninas e mulheres pretas que se inspiram no meu trabalho e fico feliz por isso. Desde os meus primeiros trabalhos tem sido assim porque infelizmente tínhamos pouquíssimas diretoras negras, mas essa realidade está mudando. A pesquisadora Janaína Damasceno marca meu primeiro curta, o Cores e Botas, como inaugural de uma geração de diretoras negras. Hoje em dia, já podemos citar um número considerável de diretoras negras, muito aquém do que queremos e merecemos. Mas já temos uma lista de pessoas extremamente interessantes no audiovisual brasileiro e é só o começo.

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