Em ato de apoio ao candidato do PSL, policiais deixaram manifestante agredir repórter e expulsaram jovens da periferia que faziam ‘rolezinho’; PM nega preferência partidária
Um dia após os protestos organizados por mulheres que disseram “Ele, não” ao candidato à Presidência Jair Bolsonaro (PSL) em todos os estados brasileiros, foi a vez de os apoiadores do presidenciável realizarem seus atos “Ele, sim” na tarde deste domingo (30/9). Em São Paulo, os bolsonaristas que encheram a Avenida Paulista receberam uma recepção amigável dos policiais militares responsáveis pela segurança do evento.
A Polícia Militar não interviu quando um manifestante agrediu a repórter Ana Nery, da Rádio Bandeirantes, mas agiu para expulsar do vão do Masp (Museu de Arte de São Paulo) um grupo de jovens da periferia, em sua maioria negros, que faziam um “rolezinho” no local.
A multidão verde e amarela que encheu a avenida, mais branca e masculina do que a dos protestos de sábado, gerou tensão no início do encontro, por volta das 14h, ao expulsar um grupo com aproximadamente dez militantes que fazia campanha pela candidata Sâmia Bonfim, do Psol, aos gritos de “fora daqui” e “fora PT”. Quando os militantes explicaram que eram do Psol, o grupo verde e amarelo mudou o grito para “fora comunistas”.
Ao contrário do que a reportagem observou no protesto contra Bolsonaro, os policiais militares que faziam a segurança da manifestação deste domingo estavam de cara limpa, sem máscara, e vários deles posaram para selfies.
Simpáticos com os policiais, os bolsonaristas não exibiram os mesmos sorrisos para os jornalistas que cobriam o ato. Vários deles foram hostilizados, no asfalto ou nas falas dos carros de som, que em vários momentos atacavam “a mídia que distorce tudo”.
Um dos manifestantes tentou impedir que a repórter Ana Nery, da Rádio Bandeirantes, entrevistasse um comandante da PM sobre a manifestação. O homem dizia para o PM não dar entrevista, alegando que a repórter iria “distorcer tudo”. Depois que a repórter passou a filmá-lo, o manifestante desferiu uma cabeçada na jornalista. A agressão ocorreu diante do PM entrevistado, que não fez nada e deixou o agressor ir embora.
Policiais militares fizeram uma operação contra um grupo de jovens de periferia, em sua maioria negros, que faziam um “rolezinho” no vão do Masp. Eles não estavam ali por objetivos políticos, mas alguns dos jovens soltaram gritos de “Ele, não” ao ver manifestantes correrem até o vão para se abrigarem da chuva. Foi quando a PM resolveu agir, cercando o quarteirão e empurrando os jovens todos de lá. Quando um jovem questionou a operação, um policial deu um tapa em sua mão, derrubando a cerveja que carregava.
Ainda se recuperando da facada que levou em Juiz de Fora (MG), Jair Bolsonaro não esteve presente ao ato, mas foi representado por seu filho, Eduardo Bolsonaro, candidato a deputado federal, e por um boneco inflável com sua cara. Um outro boneco fardado trazia o rosto do general Hamilton Mourão, candidato a vice-presidente. Por volta das 17h, uma chuva interrompeu a manifestação.
Outro lado
A Ponte questionou por e-mail a assessoria de imprensa da Polícia Militar e a Inpress, responsável pela comunicação da Secretaria da Segurança Pública do governo Márcio França (PSB), a respeito das atitudes demonstradas pela PM ao longo do ato deste domingo.
Em nota, a SSP negou ter assumido posição partidária nos atos e afirmou que se coloca “à disposição do jornalista”, mas se recusou a responder se o policial que a viu ser agredida seria investigado:
A Polícia Militar repudia qualquer tentativa de desqualificar o trabalho realizado pela Instituição durante a ação em manifestações, assim como a tentativa de atribuição de posição partidária à PM.
É importante esclarecer que a Polícia Militar buscou, independente do dia da manifestação no último final de semana, impedir o encontro de grupos divergentes para evitar eventuais conflitos.
A Instituição lamenta o episódio ocorrido com a jornalista, em clara demonstração de intolerância e agressividade, características incompatíveis com o Estado democrático. A PM está à disposição da jornalista para que as providências necessárias para a responsabilização do agressor sejam realizadas.
* Atualizado em 1/10, às 14h50, para incluir o posicionamento da Secretaria da Segurança Pública do governo Márcio França (PSB)