Estudantes repudiam volta de aluno que ameaçou ‘matar a negraiada’

Pedro Baleotti foi à Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo, realizar uma prova; defesa alega duplo erro da universidade no processo de expulsão

Manifestante critica universidade por acatar decisão judicial | Foto: Everton Pires Luz/Ponte

O relógio marcava 17 horas e 45 minutos, cerca de 20 manifestantes se reuniam na frente da entrada principal da Universidade Presbiteriana Mackenzie na Rua da Consolação, na cidade de São Paulo. A concentração havia acabado de começar quando os manifestantes foram surpreendidos por uma viatura da Polícia Militar. Dois homens fardados saíram do veículo querendo saber o que estava acontecendo. Ao fundo, um dos integrantes do coletivo AfroMack, grupo do movimento negro da universidade, resmunga: “Estamos aqui apenas para exigir nossos direitos”, enquanto o segurança da Universidade tentava tirar informação para repassar às autoridades. Cerca de 35 minutos depois, a polícia deixava o local. O ato era um movimento de repúdio depois que o estudante Pedro Baleotti pisara no Mackenzie pela primeira vez depois de decretada sua expulsão, no dia 17 de dezembro, motivada por racismo. 

Os estudantes mackenzistas, apoiados pela Educafro e AfriCásperqueriam respostas, segurança e transparência. É uma resposta à decisão da Justiça em anular a expulsão do aluno que ameaçou “matar a negraiada”, conforme disse em vídeo divulgado nas redes sociais. Em 23 de janeiro, os integrantes do AfroMack se reuniram com a reitoria e escutaram que Pedro estava em Londrina e, se dependesse do Mackenzie, ele não entraria mais na Universidade. Mas não dependia só deles.

Viatura da PM foi acionada | Foto: Everton Pires Luz/Ponte

Nesta quinta-feira, o aluno foi ao local realizar uma prova. “A ideia [do protesto] era pedir para o Mackenzie correr contra essa liminar, mas agora eu não sei porque ele [Pedro] tá aqui”, dizia uma pessoa a frente do coletivo, ainda na concentração do ato – os nomes serão omitidos para evitar represálias. “Ontem a gente estava conversando com a reitoria e eles já vieram com outro princípio, o do perdão”, continuou. “Para branco perdão serve, para preto, não”, protestava outro representante do grupo.

Em nota, o Mackenzie explicou que “o senhor Pedro compareceu à esta instituição para uma avaliação, na tarde desta quinta-feira (24/01)”. “Em cumprimento à decisão proferida pela Justiça Federal (TRF3), que suspendeu o desligamento do aluno Pedro Bellintani Baleotti, do curso de Direito, [a universidade] atendeu sua determinação para o cumprimento de atividades acadêmicas relativas ao segundo semestre de 2018”, completa a nota. 

Grupo antirracismo do Mackenzie ganhou apoio da Educafro e AfriCásper | Foto: Everton Pires Luz/Ponte

O advogado Flávio Campos, de 26 anos, estava presente no protesto e explica que o Mackenzie errou duas vezes durante o processo. “A decisão a impediu de cortar o vínculo jurídico com o estudante, expulsá-lo, mas não obrigou o Mackenzie a revogar a suspensão. Ele poderia ficar suspenso até que fosse feita a comissão nos moldes corretos com os cinco membros para decidir sobre a sua expulsão. Então, quando o Mackenzie aplicou prova, eles suspendaram a suspensão e foi além do que a decisão estabeleceu”, argumenta o estudante. A defesa de Pedro argumentou à Justiça que o Mackenzie rompeu regras internas no processo de expulsão do aluno pois, em vez de cinco analistas, a decisão contou apenas com três.  

O protesto pelo retorno do aluno começou a ganhar forma quando integrantes do Educafro chegaram à entrada da Universidade. Trajados de preto e com uma bandeira da instituição, eles ajudavam os alunos a se organizar e chegar em um acordo com a reitoria. “Agora a gente está junto com o AfroMack para dar esse suporte”, explicou Lucas Freitas, de 26 anos, que faz parte do EducAfro. “Estamos aqui para o Mackenzie entender que não é a primeira instância de uma decisão. É importante para a universidade insistir nessa primeira decisão, a pela expulsão”, explica.

Foto: Everton Pires Luz/Ponte

Representantes da AFriCásper, coletivo negro da Faculdade Cásper Líbero também estavam no ato. “Assustador saber que em 2018 ainda acontecem coisas assim. E elas acharem que podem nos falar com esse tipo de atitude”, comentou Jeniffer, de 18 anos, estudante de publicidade. Os integrantes do coletivo explicavam aos outros manifestantes o que estava acontecendo e quais as providências deveriam ser tomadas. Depois de muita conversa, uma voz grita ao fundo: “Então é isso, vamos fazer um rodão e tomar umas músicas?”, perguntou.

Nesse momento, os manifestantes se uniram de mãos dadas e começaram a ecoar o refrão: “Um sorriso negro, um abraço negro traz felicidade”, música da sambista Ivone Lara, intitulada “Sorriso Negro”. Agora, com a força renovada, eles começavam os gritos de protesto: “Ôôô Mackenzie se posiciona, os seus alunos não merecem essa vergonha”. Tinha início ali o avante para pressionar um posicionamento de algum representante do Mackenzie. Eles gritavam, pediam para alguém comparecer e responder as dúvidas que giravam em torno do caso. “Porque senão nós vamos ficar aí, vamos dormir aí”, pressionavam contra os funcionários. 

Foto: Everton Pires Luz/Ponte

Por volta das 20 horas e 15 minutos um dos integrantes da reitoria mackenzista, Álvaro, desceu e convocou os estudantes do coletivo para uma reunião. À imprensa, ele explicou que mais tarde uma nota seria divulgada. A Ponte havia solicitado posicionamento da universidade às 17h26 e recebeu anúncio oficial às 20h27. Das 17 horas até quase 22 horas, os estudantes do Mackenzie lutavam por transparência e, como dizia um dos gritos do protesto: “Não tem arrego, mexeu com o povo negro nós tiramos o seu sossego!”.

Na nota, a universidade reiterou “seu compromisso com valores e princípios na defesa dos direitos individuais e coletivos, e repudia todo e qualquer discurso de ódio, preconceito, discriminação e racismo”, pontuou, dizendo que “já solicitou a revogação da liminar concedida pela Justiça”.

Foto: Everton Pires Luz/Ponte

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