Narrativas negras e resistência dominam debates organizados pela Ponte Jornalismo em SP

Encarceramento em massa, extermínio da juventude periférica e protagonismo na literatura foram alguns dos temas das rodas de conversa que acontecem no mês da consciência negra

Débora Silva, das Mães de Maio, Maria Teresa Cruz, da Ponte, e Dina Alves, do IBCCRIM | Foto: Junião/Ponte Jornalismo

Três rodas de debate promovidas pela Ponte Jornalismo e ZporZ Multi Artes acontecem neste mês no Sesc Parque Dom Pedro II, no centro de São Paulo, dentro do projeto “Consciência negra, presença e resistência”. O Dia da Consciência Negra é comemorado em 20 de novembro. Na última quinta-feira (15/11), o espaço foi para discutir a cobertura jornalística e a relação com os conceitos de encarceramento em massa e extermínio da juventude negra. As convidadas foram Débora Silva, fundadora das Mães de Maio, e Dina Alves, do IBCCRIM (Instituto Brasileiro de Ciências Criminais), e a mediação foi da jornalista da Ponte Maria Teresa Cruz.

A última edição do Atlas da Violência aponta que uma pessoa negra tem 2,5 vezes mais chance de morrer do que um branco no Brasil. Foi assim para Débora Silva, que em 2006, durante os “Crimes de Maio”, perdeu o filho Edson Rogério, que foi abordado e executado por policiais na baixada santista.

“Quando a gente perde o marido, a gente é chamada de viúva, quando perde os pais, somos órfãos, mas quando perde um filho, a gente não sabe o nome que se dá. Meu filho foi sentenciado em um posto de gasolina em maio de 2006, durante aqueles ataques, quando o Estado fez uma retaliação em cima da favela, da periferia”, afirmou Débora Silva, ao contar sobre como o sofrimento pela perda foi transformado em luta por justiça. Para Débora, é muito importante que o jornalismo faça uma cobertura responsável sobre o tema da violência policial. “A morte do meu filho não foi em vão, as mortes de todos esses meninos não serão em vão. Eles têm mãe. A gente sempre fala que nossos mortos têm voz e têm mãe. Desde 2006, a gente tem feito um enfrentamento para que o Estado reconheça o que aconteceu e se responsabilize”, pontuou.

Débora Silva: ‘o Estado fez uma retaliação em cima da favela, da periferia’ | Foto: Junião/Ponte Jornalismo

O encarceramento em massa também tem sido a expressão de políticas racistas. De acordo com dados do Infopen (Departamento Penitenciário Nacional), os negros representam dois terços da população carcerária no Brasil, que é de mais de 727 mil pessoas.

A advogada e integrante do IBCCRIM Dina Alves afirma que o encarceramento em massa é apresentado de forma equivocada como solução e está na falsa abolição da escravidão. “Por trás disso tudo, está muito presente o racismo estrutural, nas relações dos agentes da segurança pública, os operadores do Direito, de como todo esse sistema se organiza e como essa população experiencia essa política em seus corpos”.

Para a jornalista da Ponte Maria Teresa Cruz, o que está em jogo é a disputa de narrativas que, após a eleição de Jair Bolsonaro, tornou-se mais profunda. “A gente vai viver nos próximos anos um processo de agravamento desses estereótipos fabricados pela sociedade, mas ao mesmo tempo temos no jornalismo uma possibilidade de trabalhar no sentido de desconstruir essas mentiras. Por exemplo, mostrar que a narrativa do encarceramento como solução é uma falácia, assim como mostrar que a violência policial não é nem nunca será solução para a injustiça social grave que vivemos no Brasil”, explica.

Neste sábado (17/11), foi a vez da militante negra e pesquisadora Fernanda Miranda e o poeta Oswaldo de Camargo protagonizarem a mesa “Histórias contadas ontem, hoje e daqui por diante”. A mediação ficou por conta da jornalista da Ponte Paloma Vasconcelos. Fernanda dividiu com o público uma pesquisa que desenvolveu na USP (Universidade de São Paulo) em que analisou a presença negra na produção literária, trazendo destaque para 3 romancistas brasileiras: Maria Firmina dos Reis, autora de “Úrsula”, de 1859, Ruth Guimarães e seu “Água suja”, escrito em 1946, e Anaja Caetano, autora de “Negra Efigênia, paixão do senhor branco”, de 1966). Em sua fala, Fernanda também citou a importância histórica de Carolina Maria de Jesus e Conceição Evaristo.

Poeta Oswaldo de Camargo, jornalista Paloma Vasconcelos e militante negra e pesquisadora Fernanda Miranda | Foto: Junião/Ponte Jornalismo

O poeta Oswaldo de Camargo dividiu um pouco da biografia dele com o público, já que tornou-se escritor mesmo com todas as adversidades: nasceu 50 anos depois da abolição, quando o analfabetismo de negros era muito grande. “Meus pais não sabiam nem ler, nem escrever. Foi em um jogo, aos 7 anos, que decidi começar a escrever ao encontrar uma carta de um poeta negro, Cruz e Souza”, contou. O racismo permeou a todo instante as duas falas. Para Oswaldo, o racismo velado é a indiferença.

Segundo Fernanda, a literatura pode ser um caminho para a resistência em tempos de retrocesso como o representado pela eleição de Bolsonaro. “É uma forma possível de criar novas narrativas e mostrar outros pontos de vista. Ainda há uma resistência da ala conservadora da academia em aceitar incluir novas formas de fazer literatura”, explicou a pesquisadora, quando questionada sobre se história em quadrinhos poderiam ser considerada literatura. Fernando Miranda também lembrou, como destaque positivo, a inclusão do disco dos Racionais na lista de leitura obrigatória para vestibular da USP.

Para Fernanda Miranda, literatura pode ser um instrumento de resistência | Foto: Junião/Ponte Jornalismo

“Foi uma aula do começo ao fim, de literatura e de história do movimento negro. Tanto que extrapolamos em quase uma hora o debate”, analisou a jornalista Paloma Vasconcelos.

No próximo sábado (24/11), vai acontecer a última roda de conversa organizada pela Ponte, às 13h30, também no Sesc Parque Dom Pedro II. O tema é “Luta Antirracista é também tarefa de branco” e participam do debate Bruno D’Angelo, fundador das primeiras produtoras de Apps do Brasil, Lia Vainer Schucman, doutora em Psicologia Social pela USP, e Silvia Nascimento, jornalista e produtora de conteúdo especializada em comunidade negra há 20 anos. A entrada é gratuita e o acesso pode ser feito pela estação Pedro II, da linha 3-Vermelha do Metrô.

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