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Escola usa vídeo com sugestão de estupro e expressão racista para vender aulas

12/05/20 por Jeniffer Mendonça e Paulo Eduardo Dias

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Advogada identifica crimes de racismo, apologia ao estupro e constrangimento à mulher; Estratégia Concursos diz que criticas são ‘mimimi’

Estratégia Concurso utilizou parte de cenas de um filme erótico | Foto: reprodução/Instagram

A escola Estratégia Concursos usou um vídeo que sugeria a morte de uma mulher branca por fazer sexo com homens negros, junto com a expressão “a situação fica preta”, para chamar atenção nas redes sociais para seus cursos, que incluem aulas a futuros juízes, promotores, delegados, policiais e para aprovação em entidades de classe.

A publicação, que já foi apagada, nomeia a mulher como “concurseiro” e os três homens como “examinadores do Cespe”. O Cespe (Centro de Seleções e de Promoções de Eventos) da Universidade de Brasília é uma das bancas avaliadoras mais bem conceituadas do país.

O site do Correio Braziliense salvou o vídeo antes que fosse removido. Confira:

O post ainda tem como legenda que “o concurseiro estuda com material pouco profundo, sem clareza, não faz questões da banca; ou seja, sem a retaguarda de conhecimentos que aguente a profundidade em que a banca introduz os conteúdos e diversas posições doutrinárias! E aí a situação fica preta!”.

Em nota encaminhada para a Ponte, a empresa nega que a postagem seja racista ou que faça apologia ao estupro. “Estão nos imputando crimes que não foram cometidos. Não haverá retratação pois consideramos o caso encerrado. Já deletamos o post, inclusive”, diz trecho do comunicado.

Racismo, apologia ao estupro e sexismo

A advogada Dina Alves, coordenadora do departamento de Justiça e Segurança Pública do IBCCrim (Instituto Brasileiro de Ciências Criminais), analisou a publicação a pedido da reportagem. Para ela, há ocorrência de três crimes: racismo, apologia ao crime de estupro e constrangimento contra as mulheres.

Na análise de Dina, “a mulher aparece como objeto sexual e o incentivo à cultura do estupro e a naturalização da violência de gênero”. Ela também pontua “o racismo explícito na forma como é mostrada a imagem mítica do homem negro como estuprador. Essa imagem e o post devem ser contextualizados com o imaginário que se tem do corpo negro como nato à criminalidade e inapto à cidadania”, pontua.

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Para Dina Alves, é revelador como a escravidão passada se transforma em novas formas de naturalização do racismo na atualidade. “O corpo negro perpassado por diversas formas de violências: sexual, estigmas, promíscuo, delinquente. A estratégia do racismo e a forma como ele opera na mentalidade dos seus perpetradores é justamente atribuir aos negros, negras e indígenas, a marca de estupradores e criminosos”.

Questionada sobre a nota encaminhada pela empresa, que negou o racismo e outros crimes, Dina Alves foi enfática. “Se não tinha intenção de serem racistas, porque então utilizou pessoas negras e a frase para se referir que a situação fica preta?”, conclui.

Para instituição, crítica é “mimimi”

A Estratégia Concursos é famosa em seu segmento, o que se pode notar através de sua conta no Instagram que tem 1,2 milhão de seguidores. Lá, em sua biografia, se coloca como “líder na preparação de alunos para concursos públicos”.

A empresa tem como diretor presidente Heber Felipe Araujo de Carvalho, além dos sócios Mario Rodrigues Pinheiro, Ricardo Vale Silva e Antonio Sergio da Silva Mendes Junior. Segundo publicação do site Brazil Journal, os quatro são ex-oficiais do Exército Brasileiro.

Ainda de acordo com a publicação do site, a Estratégia Concursos conseguiu, no final do ano passado, levantar R$ 100 milhões com a gestora Axxon, que adquiriu uma parte minoritária da escola. Somente no ano de 2018, a Estratégia teve um faturamento de R$ 140 milhões.

Indignada com a publicação, uma mulher chegou a cobrar uma retratação da instituição de ensino nos comentários da própria postagem. No entanto, recebeu como resposta que era “mimimi”.

Empresa respondeu ser tratar de “mimimi” pedido de explicações feito por advogada | Foto: Reprodução/arquivo pessoal

Durante uma live do professor Torque, que ministra aulas para a instituição, mais uma vez a publicação foi criticada. O docente, por diversas vezes, minimizou o ocorrido e afirmou que não iria ficar “polemizando a respeito da postagem”, já que teria sido “uma brincadeira entre professores”. Ele encerra a questão sobre a cobrança dizendo “vamos tentar deixar isso de lado, pode ser?”

A Ponte conversou a autora das reclamações, que é advogada e, embora o tuíte dela tenha tido mais de 45 mil interações, pediu para que não fosse identificada na reportagem. “Fiquei indignada com a situação por ser da área [concursos] que dedico meu tempo integral”. Ela também se mostrou revoltada com a “postura da empresa em apagar comentários e bloquear pessoas” que se mostraram contrárias à publicação.

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Não é a primeira vez que a empresa foi criticada por uma postagem. Em abril de 2018, assim que foi anunciado o mandado de prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), a Estratégia Concursos publicou em seu site um desconto de 12% em seus cursos em alusão aos 12 anos de prisão a que Lula havia sido condenado.

Instituição usou situação de Lula em 2018 para atrair novo alunos | Foto: Reprodução

Na mesma postagem ainda houve menção subliminar a Jair Bolsonaro (sem partido). “É melhor jair aproveitando“, segundo matéria do jornal O Globo.

Outro lado

Procurada através de seu Instagram, a Estratégia Concursos respondeu que não houve intenção em ofender ninguém. “Sentimos muito que tenha se sentido(a) ofendido com nosso post. Nossa intenção foi apenas publicar um meme, usando o famoso meme do funeral (que ficou bastante popular). Em um vídeo na internet, selecionamos um que já estava inclusive pronto”.

Além disso, negou que o conteúdo fizesse apologia ao estupro, porque, segundo a instituição, a moça está consentindo o ato. “Você pode perceber um sorriso nela que deixa bastante claro que se trata de uma encenação e que ela está consentindo o que vai acontecer. Ao mesmo tempo, o vídeo não contém nudez. Para terminar, aparece o tradicional meme do funeral, brincando com a situação. É um meme. Como tal, pode ofender muitas pessoas, como, de fato, ofendeu”, diz trecho da resposta.

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A instituição informa que o post foi deletado e que não houve cometimento de crime. “Não haverá retratação pois consideramos o caso encerrado”, escreve a Estratégia e finaliza que eles se sentem muito “tristes” e é “muito sério” imputarem crimes que não foram cometidos.

Mais tarde, por volta das 19h desta terça-feira, no entanto, a Estratégia Concursos mudou de ideia e enviou nova nota, chamando a publicação de “equivocada” e reiterando que já havia sido retirada do ar “por não retratar a política e nem mesmo o espírito educacional da empresa”.

“Nossa intenção não foi, em nenhum momento, ofender e desrespeitar ninguém, por isso, poucos minutos depois retiramos a postagem do ar. Não compactuamos com qualquer ato preconceituoso ou de violência e a instituição está tomando medidas internas para que esse tipo de situação não ocorra novamente”, diz outro trecho da nota.

Por fim, a Estratégia Concursos afirma que “já auxiliou mais de 1 milhão de alunos desde sua fundação” e que isso é motivo de orgulho, além de reiterar o “pedido de desculpas a todos que fazem parte da sua história e a todos que se ofenderam com a publicação”.

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