Especial Mulheres | De ‘Vovó do crime’ a ‘Dora’ dos presídios

Maria da Penha foi presa pela Rota, viu a reputação ser assassinada em um programa de TV e hoje tem como meta de vida ajudar aquelas mulheres com quem dividiu a cela

Maria da Penha na sede da Associação Cidadã | Foto: Maria Teresa Cruz/Ponte.org

“Sonhei que eu estava na sua casa, que eu terminei a escola e fomos na casa da minha genitora (sim, genitora, não mãe) e colocávamos o diploma de conclusão do ensino médio por baixo da porta com um bilhete com os seguintes dizeres: ‘colocar junto com o diploma do meu irmão'”. Essa é uma das dezenas de cartas que Maria da Penha Silva, de 52 anos, recebe de reeducandas, como ela faz questão de chamar, de unidades prisionais de São Paulo e da região metropolitana.

A atriz, agente e produtora cultural foi presa no dia 29 de setembro pela Rota (a tropa de elite da PM paulista), que estava com um mandado de busca e captura no nome dela, dentro da própria casa. Passou apenas 7 dias no Centro de Detenção Provisória de Franco da Rocha, tempo suficiente para entender que o sistema de encarceramento não é uma opção para reinserir pessoas e ter, como meta de vida, ajudar as mulheres com quem conviveu.

Nascida e criada no Jardim Bonfiglioli, região do Butantã, na zona oeste de São Paulo, Maria da Penha foi assim batizada porque, quando nasceu, tinha problemas respiratórios a ponto de a mãe fazer uma promessa à santa. Penha conta suas história e as das reeducandas sentada na sede da Associação Cidadã, a qual ela ainda faz parte e teve participação ativa na criação da Rádio Cidadã FM, na década de 90. Durante anos, o canal foi criminalizado e denunciado como transmissora pirata.

“A gente abria os microfones para o povo falar com os políticos. Tivemos um programa feito por crianças, chamado ‘Cala a boca já morreu’. Estou falando de 1994, 1995. A Polícia Federal às vezes fechava a rádio. Tem várias histórias boas da importância da rádio, uma delas de quando deu uma chuva forte e teve enchente. Foi a rádio que mais deu informação de utilidade pública para a população local. Em 1997, a gente sofreu um fechamento sob a acusação de ser pirata e, no ano seguinte, a Luci Martins reuniu um conselho e falou: ‘vamos nessa luta pela radio comunitária’. E aí deu certo”, lembra.

De família de policiais, Penha teve relação marcada por conflitos com o pai, que chegou a atuar na comunicação do Dops (Departamento de Ordem Política e Social) na época da ditadura. Ela saiu de casa logo que terminou o ensino médio com uma mochila nas costas e pediu abrigo na casa de um casal de amigas para seguir com o sonho de trabalhar com teatro.

“Meu pai queria que eu fosse médica. Doutora Penha. Não aconteceu”, conta. “Quando cheguei na casa dessa amiga, tive meu primeiro choque de diversidade. Era 1983 e eu não sabia que ela tinha um relacionamento com outra mulher. As duas me acolheram muito bem, até que eu fui compreendendo que era uma relação super afetuosa, super respeitosa. Eu nunca fui cabeça fechada, que é bem diferente da minha família, formada por funcionários públicos. Meus irmãos seguiram a profissão do meu pai na secretaria da segurança”, explica.

Ela conta que foi por causa da mãe que conseguiu ter algum desenvolvimento artístico ainda adolescente. “Ela era de igreja e foi justamente a teologia da libertação que me inseriu no teatro. Foi com padre João, lá no Jardim Macedônia, que eu comecei a ensaiar, fazer teatro amador e ver que era aquilo que queria da vida”. A mãe já é falecida e hoje em dia Penha diz que consegue compreender o pai.

“Eu ouvia as histórias e imaginava que nem todo servidor era complacente com o que acontecia. Meu pai passava mal. Assim como a experiência que eu tive agora, em Franco da Rocha. Nem todas (agentes penitenciárias) eram daquela forma ostensiva, agressiva. Eu tive contato com algumas que eram humanas, que entendiam a situação. A verdade é que o sistema vai poluindo você. E quem tem que filtrar e fazer depuração de comportamento são os gestores. Aí você pega um gestor incompetente que acha que humilhando o ser humano ele vai corrigir qualquer delito, mas isso não existe”, pondera.

Foto: Maria Teresa Cruz/Ponte

Maria da Penha acabou não passando na Escola de Artes Dramáticas (EAD) da USP, a menina dos olhos de todo mundo que quer ser atriz, e acabou indo fazer curso técnicos. Passou por alguns grupos, entre eles os Satyros, tradicional grupo paulista que tem sede na Praça Roosevelt, e se virava como podia para seguir no seu sonho. Penha seguia tranquila seu trabalho artístico casado com militância social, em especial no seu território, repleto de comunidade, como a favela do Remo, por exemplo. No dia 29 de setembro, ela estava pintando com tinta spray algumas pinhas para a festa do dia das crianças em uma comunidade do bairro, quando ouviu as cachorras dela latindo.

“Olhei no portão aberto, tinham três caras da Rota entrando armado na minha casa, cheguei a pensar que era assalto. Joguei as latas de spray para um lado e fui até a porta, quando um deles disse: ‘A senhora é a Maria da Penha?’. Eu confirmei e o soldado disse que tinha uma denúncia anônima contra mim. O que aconteceu é que eu fui processada em 2011 por causa de uma prestação de contas de um serviço, por apropriação indébita. Desengavetaram o processo, eu mudei de endereço. Passou um tempo, fui intimada por causa dessa ação, mas ninguém me achava, até que entraram com busca e captura. Só que quem fez a denúncia anônima poderia ter feito a denúncia pra mim, né?”, desabafa.

Pega de surpresa, Penha nem lembrou de pegar o celular antes de ir para o 51º DP e depois seguir para o 89º DP onde passou duas noites. Quando ainda estava na delegacia, aguardando atendimento, um policial chegou e pediu pra ela segurar um papel para ser fotografada. “Eu questionei. Nisso, um policial da Rota, um dos que participou da minha prisão, ligou o celular e começou a me filmar”. Penha só saberia depois que saísse da prisão, que o vídeo dela foi parar no programa da TV Band “Brasil Urgente” e que o apresentador José Luiz Datena a chamou de “Vovó do crime”. 

Maria da Penha mostra a imagem guardada no computador dela | Foto: reprodução

“Eu fui exposta pelo Datena sem ele conhecer minha vida. Ele falou que eu sou a vovó do crime e até hoje eu ando no bairro e tem gente que olha torto. Eu trabalhava numa produtora quando fui presa, acabei saindo sem emprego. Tem uma comunidade aqui perto, onde uma senhora acha que eu sou a chefe do tráfico. Veja se tem cabimento?”, desabafa. A agente cultural pretende processar Datena. “Ele vai ter que pagar o que me fez”.

A transferência para o Centro de Detenção Provisória de Franco da Rocha, ou como ela diz, a porta do inferno aconteceu no dia 2 de outubro. Por ter ficado algemada praticamente o tempo todo, Penha chegou a machucar as costas com os solavancos da viatura. Maria da Penha conta que as humilhações dentro do CDP são diárias e que, claro, há exceções. Porém, de uma forma geral, a truculência e a violência verbal imperam. Além disso, existe uma constante tentativa de provocação.

“Aquele lugar precisa de uma imersão de instrumentalização daquelas agentes, de como tratar o ser humano. Se elas soubessem a importância que têm. É como um médico que está na base da cirurgia numa UTI, elas estão pegando pessoas que precisam voltar para a sociedade. Elas não podem transformar a vida dessas pessoas num inferno”, avalia. Penha faz questão de dizer que, para começo de conversa, não é presa, é reeducanda. “Na noite em que dormi nessa cela do castigo, uma das agentes começou: ‘reeducanda, reeducanda’. Aí eu olhei ela, ela disparou ‘presa, presa, presa’. Parecia uma criança. Hoje eu dou risada, mas ficou evidente que elas fazem isso pra provocar e aí você dar razão para te baterem, de colocarem no castigo”. 

Maria da Penha foi para o raio 7 e ficou na cela 2, onde tinha outras 15 mulheres, onde lotação máxima deveria ser 12. Os dias que passou dentro da prisão serviram para ela ter convicção de que o encarceramento, tal qual acontece ali, não reabilita ninguém. “O centro é ou deveria ser de detenção provisória, né? Na minha cela eram meninas que estavam lá há 7, 8 meses. A maioria por tráfico, claro, a maioria negra e jovem, uns 18, 21, no máximo 23 anos. Tinha uma que estava lá, aguardando julgamento há 1 ano e meio”, conta.

Para Penha, além do ócio que, na visão dela, é bastante prejudicial, outro elemento que chamou a atenção é a situação de abandono pela qual aquelas mulheres são submetidas. “Na minha cela, de 16, só duas recebiam visita. Aí quem não recebe visita é chamada de ‘veneno’ e precisa fazer uns corres dentro da prisão [limpar cela, lavar roupas, cozinhar] para conseguir ter alguma coisa”. E quando ela diz ter alguma coisa são coisas básicas, como produtos de higiene, até um complemento alimentar, já que a comida, segundo Penha, peca em qualidade.

Dentro da penitenciária, Penha é considerada preferencial, ou seja, por ter mais de 50 anos, não pode realizar algumas tarefas. Sem vislumbrar a possibilidade de visitas e ainda sem muitas informações do que acontecia na rua, ela arriscou fazer massagem nos pés de uma companheira de cela. A moda pegou e ela virou a massagista do pavilhão. Isso rendia a ela alguns maços de cigarro – a moeda da prisão – e uma vida um pouco mais digna com acesso a alguns bens que só quem recebia visita podia ter. Com isso, ela acabou estabelecendo laços com muitas das reeducandas.

“Muitas daquelas mulheres são esquecidas pelos ex-companheiros, pela família. Na minha cela, das 16 mulheres, apenas duas recebiam visitas. Era muito comum, ver gente chorando, do nada, no meio da tarde, no meio do ócio”, conta. Maria da Penha testemunhou um sábado de visita em Franco da Rocha. “Chovia bastante e em dia de visita, as celas precisam ficar desocupadas para as visitas. Todo mundo sai e vai para o pátio. Mas como estava chovendo muito, todo mundo ficou sentada no chão do parlatório [espécie de grande galpão usado para reuniões e outras atividades, especialmente com grupos religiosos]. Quando olhei, tinham umas 120 mulheres amontoadas e a minoria recebia a visita. Triste”, relata.

Apesar de se relacionar bem com as companheiras de Pavilhão, no final da primeira semana e sem saber que o alvará de soltura chegaria em breve, Maria da Penha conta que uma das detentas do chamado setor, ou seja, o grupo de líderes do pavilhão que dita regras e toma conta de tudo, tinha invocado com ela. O temor é que descobrissem que ela era de família de policiais. Penha conta que o clima ficou tenso e a companheira de pavilhão chegou a dizer a ela que “ela não era da família”. Naquele mesmo dia, mais tarde, a agente penitenciária abriu o portão e gritou: “alvará, alvará”.

“Quando tem alvará ou transferência é sempre a mesma coisa, todo mundo vai pra porta da cela pra saber quem será. Aí a agente gritou: alvará cela 2. Era a minha. Ela chegou na capa, se abaixou de cócoras e leu: maria da penha silva. Eu disse: eu?”, relembra emocionada. “As meninas começaram a gritar “tia Penha, tia Penha”. E, como sempre acontece, é um rito, sabe? começaram a cantar uma música que é assim:  ‘Jacó segurou o anjo, segurou o anjo e não deixou subir. O anjo perguntou: o que queres que eu te faça? A cela 1 respondeu: me traz o alvará pra eu sair daqui’. E foram cantando enquanto eu saía e eu já estava na administração e continuava ouvindo. Foi emocionante”, lembra.

Maria da Penha conta que ao chegar em casa ficou quase 5 dias de cama. “Eu soube do Datena e aquilo acabou comigo. Eu estava fraca também. Algo veio na minha cabeça: se eu ficasse mais um dia deitada eu não ia levantar nunca mais”. Foi então que Penha teve uma ideia: ajudar, de alguma forma, aquelas mulheres que ficaram presas. 

Hoje em dia, Penha se corresponde com antigas companheiras de cela, que, em muitos casos, já nem estão mais no CDP. Além de um elo afetivo, Penha se tornou uma voz de confiança nas ruas. E é ela mesma quem manda papel, envelope e selos.

Foto: Maria Teresa Cruz/Ponte

Os pedidos são variados. “Há uma delas que pediu que eu fosse atrás da mãe, que era para eu pedir para a mulher ir visita-la que ela sentia saudade dessa mãe. Quer que eu leia? ‘Vá até a casa da minha mãe e convença de que ela precisa vir me ver. Explique que aqui é carente que não tenho nem sabão pra tomar banho. Penha, te agradeço, porque você é o único contato que eu tenho na rua. Estou depositando todas as minhas esperanças’. Elas pedem ajuda, porque ninguém as visita. Eu pego as cartas e tento achar as pessoas. Uma delas, por exemplo, pediu que eu fosse atrás do marido e pedir para ele levar a filha pequena para ela ver. Descobri que o marido morreu e não sei como dizer”, conta.

Outras tantas dividem sonhos: “Penha, tudo bem? Espero que sim. Queria que você soubesse que quero sair daqui e gravar meu clipe. Aproveito e mando umas partes da música”, diz uma das cartas. Em alguns bilhetes, a evidência do abandono. “Fiquei chorosa quando recebi sua carta, porque pensei que tem pelo menos uma pessoa no mundo que se importa comigo, que gosta de mim. Sinto saudade”.

Com uma palavra de carinho ou uma ajuda efetiva, Penha segue com as correspondências, fortalecendo vínculos e preenchendo a solidão de muitas daquelas pessoas com palavras, tal como a personagem Dora, do filme Central do Brasil.

O julgamento de Penha aconteceu no dia 22 de novembro e ela foi inocentada das acusações. Agora, está escrevendo dois livros com os relatos da vivência que teve e continua tendo com o sistema prisional. Um deles, ainda sem data para ser lançado, já tem nome: “Preventivo olhar da verdade”. Segundo ela, o tempo no CDP serviu para entender que o sistema tal como está não ressocializa, só desumaniza. E por isso disse que, sim, vai seguir até onde der com as cartas.

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