Família e testemunha culpam PMs por acidente que matou garoto de 13 anos

08/01/19 por Arthur Stabile

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Kesley Alexandre estava na garupa de uma moto em fuga e, segundo parentes e moradores de comunidade, policiais jogaram intencionalmente a viatura, causando o acidente; PMs afirmam que condutor perdeu o controle do veículo

Pai de Dolinha, seu Sebastião segura um retrato do filho vestido como marinheiro | Foto: Arthur Stabile/Ponte Jornalismo

Sebastião Araújo Pereira Neto, de 57 anos, tem dificuldade para se levantar da cama inferior da beliche. Ele é cego dos dois olhos. A primeira cegueira foi causada por acidente, há dez anos, enquanto trabalhava como caminhoneiro. A outra, decorrente de um derrame sofrido em dezembro do ano passado. Antes essa fosse a maior perda daquele mês. No dia 25 de dezembro de 2018, seu Sebastião já estava de cama quando recebeu um telefonema da irmã. “Você não sabe o que aconteceu com o Dolinha?”. A pergunta se referia ao acidente de moto sofrido pelo seu filho mais novo, Kesley Alexandre Barros Araújo Pereira, 13 anos, que morreu na hora.

Dolinha, como o adolescente era conhecido, estava na garupa de uma moto roubada por outro jovem de 14 anos. Ambos moravam na comunidade Spama, localizada na região de Pirituba, zona oeste de São Paulo, mesma região da Lapa, onde foi feita a queixa de roubo do veículo no dia anterior. Kesley estava na longa fila do cabeleireiro, culpa da data festiva. Foi quando o amigo passou e o chamou para dar um rolê com a moto. Ao saírem da comunidade e entrarem na Avenida Raimundo Pereira de Magalhães, uma viatura da Polícia Militar que esperava o semáforo abrir viu dois garotos no veículo e iniciou a perseguição.

Até então, os PMs não sabiam se tratar de um veículo roubado, conforme consta em B.O. (Boletim de Ocorrência). Daí por diante, as versões sobre o acidente fatal são diferentes. De um lado, os familiares acusam os policiais de terem causado intencionalmente um choque que provocou a perda de direção do motorista e, consequentemente, a batida. De outro, os PMs dizem que a queda e choque com o poste aconteceu unicamente por erro do garoto que pilotava a moto. Em ambas as versões, o fim é a morte de Dolinha em decorrência do impacto de sua cabeça com o concreto.

Os policiais militares Luciano Marques da Cruz e Eden Samuel de Araújo Silva informaram à Polícia Civil que passaram a perseguir a moto ao notarem que ela estava sem placa de identificação. Além disso, os dois ocupantes não usavam capacete. Segundo eles, deram sinais de luz e com a sirene para a dupla parar, o que não aconteceu, motivando o “breve acompanhamento” – termo usado do b.o. – antes do acidente. A dupla aponta que o motorista “sempre ficava olhando para traz”.

“Em dado momento, o condutor da moto perdeu o controle da mesma quando passou pela altura do número 123 da Rua Rosálio José da Conceição, quando veio a chocar-se contra o poste. Como consequência seus ocupantes caíram e sofreram lesões”, descreveram os policiais. No relato, sustentam ter acionado imediatamente socorro para Kesley Alexandre, em estado mais grave, então levado ao Pronto Socorro Pirituba e “vindo a óbito minutos após dar entrada naquele nosocômio [hospital]”, de acordo com o documento.

O motorista que conduzia a moto, de 14 anos, teve ferimentos leves e, levado ao 33º DP (Distrito Policial), acabou apreendido pelo delegado Caio Normande Colombo diante da “gravidade da ocorrência”, “tendo em vista a garantia da ordem pública, conforme o artigo 174 do ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente)”, sustenta.

Maria Freitas, a mãe de Kesley, conta que chegou a ver o filho caído, mas ele já não reagia | Foto: Arthur Stabile/Ponte Jornalismo

Parentes e moradores da Spama contestam a versão oficial. Para eles, os PMs demoraram a acionar o socorro, além de terem sido os causadores do acidente. “Os policiais disseram que o moleque olhou para trás e caiu, mas na verdade eles bateram no pneu de trás da moto e causaram o acidente”, descreve um morador, que pediu anonimato com medo de sofrer retaliações. “O corpo ficou duas horas até chegar socorro, demorou demais. Ele já estava sem reação”, continua.

Mãe de Dolinha, Maria Freitas Barros Araújo estava com amigas quando foi avisada de que algo havia acontecido com o filho. “Vieram me avisar que a polícia estava batendo nele, saí correndo e cheguei com ele no chão”, conta. Logo estava no poste em que o filho estava. Ao seu lado, uma poça de sangue. “Me disseram que ele tentou levantar a cabeça, mas não conseguiu. Quando cheguei, ele já não se mexia mais. Mexi na mão, não teve reação nenhuma”, descreve dona Marisa, como é conhecida na comunidade.

Com semblante cansado, ela conta que “acabou a graça até de comer” para ela e o companheiro, Sebastião. “Não está sendo fácil, quase não comemos direito. É muito recente e em uma data especial. Eu não acredito até agora que o Dolinha ia viver tão pouco tempo. Pensei que ele estava arrumando o cabelo, disse que ia mexer no topete que tinha”, lembra. “Nós não dormimos direito… Quero logo ir em Perus arrumar o lugarzinho dele”, continua, se referindo ao cemitério de Perus, onde o adolescente foi enterrado. Os pais têm recebido auxílio da Rede de Proteção e Resistência Contra o Genocídio da Juventude após a morte de Dolinha.

Seu Sebastião ouve um programa policial na televisão ao receber a Ponte e um líder comunitário da Spama. Reclama da forma como o filho foi tratado pela imprensa e pelos moradores de condomínios ricos em volta da comunidade. “Não era bandido, estudava e me ajudava. Eu fiquei completamente cego, o Dolinha me ajudava a fazer as coisas, andar em casa e até mexer no caminhão que tenho. Sou mecânico, um bom mecânico. Ainda que cedo perdi a visão, mas ele servia de meus olhos e ajudava”, conta.

“Sempre falei para ele ficar na comunidade, não me ouviu. Fez uma molecagem junto com o outro, coisa de menino. Errados, mesmo, estavam os policiais, totalmente despreparados”, diz, revoltado. “Nunca ouvi dizer que tem um acidente desse e o motorista não morre, ele é o primeiro a sofrer o impacto. Os policiais são a causa da morte do meu filho. Não foi acidente, foi homicídio. Me contaram: meu filho levantou a mão para se entregar e os PMs aproveitaram para bater na traseira da moto. E ainda fizeram hora para chamar o resgate”, continua Sebastião.

Protesto e truculência da PM

Com a morte de Kesley Alexandre, um grupo de moradores fez um protesto na tarde do dia 25 de dezembro. Saíram do local do acidente até a entrada da comunidade, uma caminhada de aproximadamente 500 metros. A revolta os movia: jogaram lixo na avenida como forma de chamar atenção para a morte de Dolinha. Como reação, a Tropa de Choque da PM paulista foi acionada e entrou na Spama com truculência, segundo relatos.

Pai totalmente cego desde um derrame conta que o garoto tinha se tornado ‘os seus olhos’ | Foto: Arthur Stabile/Ponte Jornalismo

“Jogaram bomba em tudo quando é canto. Teve um morador que estava fazendo churrasco de Natal com a família e precisou sair correndo com duas filhas no colo pela quantidade de gás. A comunidade inteira ficou com aquela fumaça. Tem muita criança aqui”, conta Hélio Quinteiro Parreira, coletor comunitário de 55 anos, 18 deles vivido na Spama. Vestido com uniforme de coletor, ele relembra da primeira moradora da comunidade, citando sua entrada há 30 anos e morte, além da herança deixada para a filha. “A menina não quis mais tocar as coisas, ficou para a gente”, conta.

Até quem não estava na manifestação sofreu com a repressão por parte da polícia, conforme contam os moradores. “Eu nem estava no protesto, saí atrás da minha família quando eles entraram. Ninguém subia para a comunidade nem descia dela. Tomei porrada e eles perguntavam se eu queria ir preso, dizendo ‘eu não moro nessa bosta, vocês fedem’. Foi a primeira vez que a polícia entrou aqui”, relembra Eduardo José de Paula Costa, 44 anos.

São aproximadamente 400 famílias no espaço, divididas em casas de alvenaria e palafitas separadas por pequenos corredores. Algumas das casas têm estrutura mais desenvolvida, com azulejo e janelas de metal, enquanto outras são mais precárias, com chão de terra batida e de buracos improvisados como janelas entre as madeiras. Acima, é possível ver a saída para a Avenida Raimundo Pereira de Magalhães e, embaixo, a rede da Eletropaulo separa o morro da Rodovia dos Bandeirantes, que liga São Paulo ao interior paulista. As laterais da comunidades dão para condomínios ricos e parte deles considera a Spama um inimigo.

“Temos dois condomínios do lado: um é mais antigo e nos trata bem e dialoga, o outro, entregue há dois anos, mais ou menos, não quer nem olhar para a nossa cara. Se estão no ponto e veem gente, saem rápido achando que vamos assaltar”, explica Fernando dos Santos, o Baixinho, líder comunitário da comunidade. “Uma vez, o pessoal do prédio antigo falou que tinha um vazamento vindo da comunidade, nos deram canos e nós unimos moradores e fizemos o serviço. Agora, os desse prédio novo são o contrário, até abaixo assinado fizeram contra a gente”, detalha.

Uma campanha no Avaaz.org (site de petições online), cobra da Prefeitura Regional de Pirituba, comandada pelo engenheiro Ivan Renato Lima, a “reintegração de posse da favela do Spama”. “Solicitamos o remanejamento da favela do Spama devido a sujeira na avenida, falta de respeito aos moradores dos condomínios próximos, falta de segurança e principalmente após o vandalismo e violência ocorridos na tarde de 25/12/2018, onde a polícia precisou intervir de forma firme”, aponta o pedido, iniciado pela usuária Keith G.. São 3.610 assinaturas até o momento, mais de 70% da meta de 5 mil assinaturas.

Favela da Spama fica entre a Avenida Raimundo Pereira de Magalhães e a Rodovia dos Bandeirantes, na zona oeste de SP | Foto: Arthur Stabile/Ponte Jornalismo

Segundo os moradores da Spama e entidades que auxiliam a regularização do espaço, parte da área é de posse da Prefeitura de São Paulo. “Já estão passando por processo de regularização fundiária. A maior parte é da Prefeitura e parte é privada. Infelizmente, a questão da especulação imobiliária vem engolindo as ocupações, as comunidades. É o que está acontecendo aqui no Spama. O processo é para trazer dignidade, tirar da informalidade a Spama e trazer para o mundo”, explica Zenate Souza, assistente jurídica da Associação Trabalhadores Sem Teto, em entrevista ao canal TVT.

“Nós estamos aqui desde antes desses prédios, eles querem nos tirar. A Prefeitura nunca entrou aqui, nunca fez nada. Tem espaço para fazer uma usina de reciclagem com os moradores, é só nos dar apoio que fazemos. Tem um espaço lá embaixo para plantio, precisa acordar com a Eletropaulo. Eu consegui e tenho um pedaço lá que planto horta”, conta Baixinho. “Só não não vou chamar o pessoal para trabalhar de graça, mexer na terra sem garantia de ter seu sustento”, continua.

O líder comunitário explica que boa parte da população local é de crianças e jovens, cerca de “80% de todo mundo”. A falta de políticas públicas afeta tanto as possibilidades de vida para esses jovens como a visão dos condomínios vizinhos sobre quem mora ali. “Tendo esse apoio, a gente bota jovem para trabalhar e ter perspectiva de vida. Muitos ficam aqui o dia todo sem ter o que fazer, sem opção de estudo ou emprego. Isso faz gente pensar que são vagabundos. Não tem nada disso”, conta.

A Ponte procurou a SSP (Secretaria da Segurança Pública) de São Paulo, comandada pelo general João Camilo Pires de Campos, através de sua assessoria de imprensa terceirizada, a InPress. Em nota enviada às 20h21 desta terça-feira (8/1), a pasta explicou que “que a Polícia Militar apura todas as circunstâncias do fato. O outro menor envolvido na ocorrência foi autuado por ato infracional de furto e encaminhado à Vara da Infância e Juventude”. No entanto, não detalhou as circunstâncias sobre a morte de Kesley Alexandre Barros Araújo Pereira, o Dolinha. As seguintes perguntas foram feitas à SSP:

Qual a ocorrência em que Kesley Alexandre estava envolvido?
Qual a suspeita dos PMs para iniciarem a perseguição?
Os policiais envolvidos neste caso apontam qual versão para a perseguição e para o acidente?
Solicitamos nome, idade, sexo e patente dos policiais envolvidos nesta ocorrência.
É padrão da PM que seus integrantes forcem a parada de suspeitos em perseguições, mesmo com a possibilidade de ocorrerem acidentes?

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