Festival Fala! reforça o papel social do jornalismo e da arte: ‘ler o mundo de todas as camadas’

De sexta (1) a domingo (3), jornalistas, artistas e ativistas debateram o futuro da comunicação e o compromisso com a diversidade e a democracia em evento online criado por veículos independentes

Mesa de abertura do Festival Fala!, no Sesc Av. Paulista, discute a contribuição do jornalismo e da arte para reconstruir o mundo em ruínas | Foto: Daniel Arroyo/Ponte

Na voz da cantora e pesquisadora Fabiana Cozza, o Festival Fala! deu início na última sexta-feira (1/10) a uma série de debates sobre comunicação, cultura e diversidade. Idealizado por quatro organizações independentes – Ponte Jornalismo, Alma Preta Jornalismo, 1PapoReto e Marco Zero Conteúdo -, o evento reuniu durante três dias experientes jornalistas, novos comunicadores e ativistas, de diversas regiões do Brasil, em 5 painéis transmitidos no Youtube do Sesc Avenida Paulista. 

Diretamente da unidade que fica na região central de SP, a abertura oficial do festival juntou o repertório da cantora paulistana, nas músicas “Bravum de Elegbara”, “Voz Guia” e “Oração a Ossain”, à uma performance de “Tempos Quase Modernos”, poema do compositor baiano José Carlos Capinan que provoca o receptor: qual o assunto que mais lhe interessa?

Diante das questões e crises do mundo moderno, o jornalismo tem o desafio de se apresentar como um agente de transformação. Este foi o tema da conversa mediada pelo jornalista Laércio Portela, co-fundador da Marco Zero Conteúdo, que contou com a participação de Fabiana e das jornalistas Rosane Borges e Donminique Azevedo. Ao longo do debate, os quatro ressaltaram a importância do afeto e da escuta para enfrentar os tempos de intolerância e negacionismo.

Fabiana Cozza canta e enaltece sua ancestralidade afro-brasileira na abertura do Fala! | Foto: Daniel Arroyo/Ponte

“Se o jornalismo é uma forma minimalista de ler e dizer o mundo, eu tenho que ler o mundo de todas as camadas. A miséria do jornalismo é exatamente esta. A gente vê uma camada restrita, diminuta e diz aos nossos leitores que esse é o mundo a ser visto”, refletiu Rosane citando a forma como o próprio jornalismo ajudou a consolidar pensamentos racistas e preconceituosos. Nesse sentido, Donminique comentou que o jornalismo de causas tem um papel fundamental em se posicionar e continuar contando histórias que não são narradas em grandes veículos.

Em outro momento, Rosane e Fabiana também reiteraram a relação do jornalismo e o poder das imagens, a estética, e criticaram como a imprensa, e a sociedade no geral, descuidaram das formas, naturalizando a narrativa que “prenuncia a barbárie”. “Temos no comando desse país uma figura que é absolutamente grotesca, entre outras coisas. Ele é a síntese maior de uma decadência estética que a gente descreveu”, apontou a jornalista.

A programação do festival continuou no fim de semana, de forma online e gratuita, e deve seguir a partir desta terça-feira (5/10) com o curso “Jornalismo, o mundo moderno e as novas formas de mediação”, ministrado por Rosane Borges. As inscrições estão abertas no site do Sesc

Democracia e a resistência narrativa

Abrindo os trabalhos no sábado (2/10), a mesa “Jornalismo e Democracia: ou vai ou racha!” reuniu a editora da Alma Preta, Nataly Simões, a ativista do Canal Corpo Político, Ana Paula Rosário, e as jornalistas Cecília Oliveira e Cristina Serra para debater o trabalho jornalístico e o cenário de ataques à imprensa.

Cristina pontuou que um dos erros cometidos pela imprensa neste momento está em pautar o “mito da falsa equivalência” entre políticos de esquerda, que defendem a democracia, e políticos da extrema-direita, com tendências autoritárias e golpistas. “Eu diria que a grande imprensa fabricou esta armadilha e que os consumidores dessas notícias caem nesta armadilha, da farsa dos dois extremos”. 

Para Cecília, a própria imprensa precisa fazer uma autocrítica em relação à sua contribuição para o momento político que vivemos e que tem atrapalhado, em certa medida, a democracia. “Como seria o país hoje se não fosse essa assessoria gratuita e ostensiva que a operação Lava-Jato teve? O impacto é gigantesco”, exemplificou. 

Ana Paula criticou, no decorrer da conversa, o fato de que o poder no jornalismo continua concentrado na mão de pessoas brancas, de grandes empresários, que contribuem para narrativas racistas, como a criminalização da cultura negra e periférica. “Penso o quanto nós, populações negras, compreendemos que entre a esquerda e a direita nós somos pretos, porque dentro desse processo, pós-escravização de pessoas, que vivemos governos de esquerda e de direita, o povo negro continua morrendo, sendo a maior população em situação de pobreza”.

A questão das novas narrativas dos meios de comunicação foi tema da segunda mesa do dia. O ativista Raull Santiago, da Perifa Connection, conduziu um debate sobre o jornalismo digital e influencer, com os jornalistas Xico Sá e Martihene Keila e a comunicadora da Apib (Articulação dos Povos Indígenas) e do Canal Reload, Samela Sateré Mawé. Durante as duas horas de conversa, eles ressaltaram a importância do jornalismo local e mais diverso que “mantém os pés no Brasil real”, como citaram Raull e Xico ao falarem dos erros da imprensa hegemônica.

Segundo Samela, as redes sociais têm sido uma plataforma fundamental para a luta dos povos indígenas, como os atuais protestos contra a tese do “marco temporal”, além de uma forma de levar a informação às aldeias. “Por muito tempo muitas pessoas já falaram por nós. Agora não, agora nós estamos tendo esse protagonismo. Estamos nas mídias sociais, nós povos indígenas falamos ‘está acontecendo isso na nossa comunidade, nosso ritual é esse, nossa língua é essa’. Somos múltiplos e diversos”, ressaltou.

Outra iniciativa neste sentido é o Coletivo Sargento Perifa, que surgiu na periferia da zona norte do Recife. Martihene, uma das idealizadoras do projeto, contou que a ideia foi desenvolver a educação antirracista dentro da comunidade: “conseguimos mudar o interesse e a aceitação de muitas mulheres”.

Jornalismo latino-americano e independente

No último dia de painéis do Fala!, o futuro do jornalismo independente pautou o bate-papo mediado por Rosenildo Ferreira, fundador do 1PapoReto. Os convidados Rogério Christofoletti, professor da UFSC, Dani Moura, editora do Maré de Notícias, e Elaine Silva, co-fundadora da Alma Preta, destacaram que as organizações devem buscar múltiplas formas de financiamento para se sustentar. Segundo Elaine, a Black AdNet surgiu, inclusive, desta necessidade e criou uma rede entre anunciantes e veículos independentes. 

A iniciativa é um passo importante para diminuir os chamados “desertos de notícias”. Rogério explicou que “o jornalismo de causas pode ver nestes locais uma ‘avenida’ a ser trabalhada”, apesar das dificuldades. Complementando esta ideia, Dani Moura contou que o apoio do público, isto é, os moradores da comunidade, veio a partir do momento em que o Maré de Notícias apresentou uma nova narrativa e noticiou violações do Estado que a grande imprensa não pautava. “As possibilidades nem sempre passam pela questão financeira, que também é importante. Há uma outra que também pode fazer, a gente que é pequeno, aparecer por incidência política.”

Fechando o ciclo, a mesa “Diálogos Sul-Sul” mostrou como organizações latino-americanas estão trabalhando para democratizar a informação. A editora de relacionamento da Ponte, Jessica Santos, conversou com Alejandro Valdéz, diretor e co-fundador do El Surti no Paraguai, Cesar Batiz, diretor de Poderopedia e El Pitazo na Venezuela, e Alecsandra Matias, doutora em Artes Visuais pela USP. Para eles, a inovação no fazer jornalístico é o ponto chave para crescer e alcançar novos públicos.

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Cesar contou que o El Pitazo precisou resistir às censuras do governo venezuelano, que em 2017 bloqueou os domínios do site. “Se fecham a porta e a janela, nós pegamos um martelo para abri-las e chegamos com a inovação”, disse destacando a evolução do veículo nas redes sociais. Foi também no ambiente virtual que o El Surtidor se consolidou, segundo Alejandro, por meio de investigações aprofundadas e um jornalismo que explica e ilustra a realidade.

Além do formato das notícias, Jessica e Alecsandra destacaram a importância do jornalismo de causas para falar de narrativas em uma perspectiva de raça e gênero. “Fora da hegemonia dos meios de comunicação, temos uma onda reacionária muito forte. Temos que operar pela questão da resistência, todos os latino-americanos são resistência. Temos que colocar a questão da gente cada vez mais ser a pedra no sapato do capitalismo e desse sistema que nos envolve e custa as nossas pautas”, concluiu a pesquisadora.

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