Fogo no Borba Gato ‘é uma resposta da sociedade a uma indignação coletiva’, diz Erica Malunguinho

Na visão da deputada estadual, a população não admite mais símbolos de figuras genocidas da história do país que são compulsoriamente “enaltecidos, glorificados sem que haja uma crítica”; estátua de bandeirante foi incendiada neste sábado (24), na zona sul de São Paulo

Incêndio na estátua de Borba Gato na zona sul de São Paulo em 24/7/2021 | Foto: Reprodução Instagram Revolução Periférica

Na tarde do último sábado (24/7) um grupo de cerca de 15 pessoas ateou fogo na estátua do bandeirante Manuel de Borba Gato, localizada na Praça Augusto Tortorelo de Araújo, em Santo Amaro, zona sul de São Paulo. A ação foi feita por um grupo intitulado Revolução Periférica. Os membros compartilharam imagens do ato simbólico em redes sociais e colaram lambe-lambes em postes da capital com a pergunta “Você sabe quem foi Borba Gato?”. Não houve feridos na ação, uma pessoa foi detida no domingo (25/7) mas foi solta no mesmo dia.

Inaugurada em 1963, a estátua do escultor Julio Guerra (1912- 2001) é alvo de críticas por ser uma homenagem a um bandeirante paulista que matou e escravizou negros e indígenas entre os séculos 16 e 17, segundo estudos como o do livro Vida e Morte do Bandeirante (1929), de Alcântara Machado, que também narra estupros e tráfico de mulheres indígenas realizados pelos paulistas. 

Um abaixo-assinado de autoria de indígenas Guarani de São Paulo já pedia a retirada da estátua. “Nós, Guarani das aldeias de São Paulo, nos sentimos humilhados todas as vezes que passamos ao lado dessa estátua. Borba Gato foi um assassino de povos indígenas e não pode ser considerado um herói”, diz o grupo, que em 2016 fez uma intervenção na estátua com um banho de tinta vermelha com o objetivo de retratar o sangue indígena derramado pelas mãos do bandeirante. Marcos Tupã coordenador da Comissão Guarani Yvyrupa diz em um artigo que “a tinta vermelha, que para alguns de vocês é depredação, já foi limpa e o monumento já voltou a pintar como heróis os genocidas do nosso povo”.

A última manifestação em torno da estátua levantou novamente a discussão sobre o anseio popular pela sua retirada e a necessidade de mudanças nas formas de narrar a história do Brasil, debate há tempos reivindicado pelo movimento negro, conforme apontou a deputada estadual Erica Malunguinho (PSOL-SP) nas redes sociais. À Ponte Malunguinho diz que vê a ação como uma “resposta da sociedade a uma indignação coletiva”, conta.

“Nós temos uma ampla capacidade de entender que a história não pode ser contada de forma única”, diz Erica Malunguinho (PSOL) | Foto: Carol Jacob/Alesp

Em 2020 Erica Malunguinho protocolou um projeto de lei na Assembleia Legislativa do estado de São Paulo (Alesp) para estabelecer uma política pública de combate ao racismo no que diz respeito ao reconhecimento do direito à verdade e memória da população negra. 

O PL 404/2020 proíbe homenagens a escravocratas e a eventos históricos ligados ao exercício da prática escravista no âmbito da administração estadual direta e indireta e está em análise na Comissão de Constituição, Justiça e Redação (CCJR) da Alesp. A ideia do projeto é responder à revolta de sábado em torno do monumento de Borba Gato, que a deputada analisa como uma “indignação coletiva em torno de discussões que estão em pauta, de que são importantes e que precisam ser feitas”. “Revisar a história é algo que é muito comum, é muito natural e também importante e então aquilo que é uma resposta da população sobre ter uma imagem de um genocida, de um que escravagista de uma pessoa que a capturou e assassinou pessoas indígenas, é uma resposta da sociedade”, avalia. 

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Para ela, é preciso revisar a história e fazer uma comissão da verdade sobre todo o conjunto escultórico presentes em São Paulo. “É preciso fazer uma espécie comissão da verdade de todos esses símbolos que estão presentes e que enaltecem imagens e uma história que foi de violência, de dor e opressão. Imagina uma imagem de Adolf Hitler espalhada na Alemanha, isso seria inadmissível, ou como a gente tem aqui no estado interior do Estado a festa confederada que tem uma bandeira que é notadamente associada ao nazi fascismo. Então, é importante sim que a sociedade rediscuta, como é que esses símbolos adentram o imaginário e estão compulsoriamente sendo enaltecidos, glorificados sem que haja uma crítica”, avalia.

Além de protocolar um projeto de lei, Erica diz propor comissões com urbanistas, arquitetos, historiadores e museólogos, “para que a gente consiga pensar num plano para dar um destino plausível a esses monumentos. Obviamente eu não estou determinando nada, a minha posição pessoal seria de retirada esses símbolos, mas acho que diante de uma negociação, uma conversa, pode ser pensado se eles devem ir para o museu, se eles devem ter um uma legenda, uma decisão histórica que não deixe a imagem sozinha sem a contextualização necessária, acho que tem muitos caminhos para serem pensados.” 

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Nesse sentido, ela reafirma a necessidade de a história ser contada de forma plural. “A questão do direito da memória é fundamental. Assim como a gente aprendeu que o Brasil não foi descoberto, mas sim invadido, nós temos uma ampla capacidade de entender que a história não pode ser contada de forma única, uníssona e exatamente por aqueles que foram responsáveis ​​pelas violências e pelas desigualdades, pelas relações de poder tortas que nós vivemos hoje”, finaliza.

Além de Erica, parlamentares como o deputado federal Ivan Valente (PSOL-SP) e a vereadora paulistana Erika Hilton (PSOL) denunciaram em suas redes sociais o histórico por trás da estátua. “O que vocês acham que deve ser feito com monumentos que homenageiam homens cujo passado é marcado pela exploração e pelo genocídio?”, indagou a vereadora. Por outro lado, o advogado Arthur Weintraub, ex-assessor da Presidência da República, caracterizou a ação dos manifestantes como “terrorista” para “apagar nossa história, e criar o caos. Fora, fizeram igual com estátuas históricas. Estão importando o método”.

No sábado, o prefeito de São Paulo Ricardo Nunes (MDB) lamentou o ocorrido em postagem pelo Instagram, onde classificou a ação como um “ato de vandalismo”, dizendo que “nada justifica a ação” e pedindo mais “união e tolerância”.

Postagem do prefeito de São Paulo condenando a queima da estatua de Borba Gato | Foto: Reprodução Instagram

Assim como Nunes, o governador João Doria (PSDB) chamou o incêndio de “vandalismo” e incluiu na sua crítica os protestos contra o presidente Jair Bolsonaro (sem partido). “Quem age como vândalo é tão autoritário e violento como aquele que é alvo do protesto. Democracia significa diálogo, equilíbrio, jamais baderna”, disse.

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A Ponte questionou a Prefeitura de São Paulo sobre a possível retirada da estátua, a reportagem aguarda uma resposta. Em nota, o governo de São Paulo afirmou que o “caso é investigado pelo 11º DP. Um dos suspeitos do crime foi preso na madrugada  de domingo e solto após decisão judicial. As investigações seguem para identificar e responsabilizar os demais envolvidos no caso.”

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