“Foi bala da polícia, sim”, afirma professora

Documento do HC de São Paulo aponta que professora Patrícia Rodsenko foi atingida por uma bala de borracha e contraria versão da Secretaria de Segurança Pública

“Pedido de Consulta e Encaminhamento” com o timbre do Hospital das Clínicas de São Paulo, datado de 15 de maio, e obtido com exclusividade pela Ponte, comprova que a professora Patrícia Paulo Rodsenko, de 29 anos, foi mesmo atingida por uma bala de borracha. No documento, o médico que a atendeu registrou: “FAF [ferimento por arma de fogo] bala de borracha região nasal esquerda e periorbitária esquerda. Fratura nasal…”

O documento contraria a versão oficial da Secretaria de Segurança Pública de que a polícia militar em momento algum usou balas de borracha na manifestação.

Patrícia Rodsenko logo depois de ser atingida. Foto: arquivo pessoal

A professora, formada em Filosofia na USP, diz ter sido atingida naquele dia por um artefato disparado pela Polícia Militar do Estado de São Paulo, quando esperava pela reabertura da estação Paulista da linha 4-Amarela do metrô, que havia fechado devido a uma manifestação contra os impactos da Copa do Mundo em São Paulo, no Dia Internacional de Lutas Contra a Copa.

Patrícia foi atingida bem perto do olho esquerdo (região periorbitária). Quebrou o nariz e o osso ocular.

Mais de um mês depois, o rosto da professora continua inchado e ela conta que respira com dificuldade. Em julho, ela deve voltar ao hospital para saber se há a necessidade de outra cirurgia.

Dois dias depois de ser ferida por policiais militares, a professora ainda sofreu um forte desgaste moral, quando, em pleno “Jornal Nacional”, foi lida uma nota oficial emitida pela Secretaria de Segurança Pública de São Paulo que pretendia desmentir a versão dela. Segundo a nota, “em momento algum a Polícia Militar usou balas de borracha para conter os atos de vandalismo” e que “houve garantia do direito à livre manifestação”.

A professora atingida nem sequer estava participando dos atos contra a Copa, quanto mais das ações de vandalismo.

Patrícia saiu de casa, em Itaquera, na zona leste da cidade, por volta das 14h do dia 15 de maio, para assistir ao filme “Hoje eu quero voltar sozinho” com uma amiga, a geógrafa Alessandra Batista da Cruz, de 32 anos. O cinema era o Espaço Itaú, na rua Augusta. A sessão teve início às 16h e terminou às 17h36.

Ao perceberem a concentração do ato na praça do Ciclista, as duas decidiram ir até uma cafeteria na rua Haddock Lobo esperar o tempo passar e a região ficar mais vazia.

AdornoFoto_5Para voltar para casa, elas precisariam pegar um metrô na estação Paulista. A intenção dos manifestantes naquele dia era caminhar até o estádio do Pacaembu, mas logo na segunda quadra da rua da Consolação houve confronto entre policiais e black blocs, fazendo com que as 800 pessoas presentes no ato se dispersassem.

Quando acharam que o clima já estava mais ameno, as duas amigas tentaram ir embora. Elas e mais 30 pessoas, aproximadamente, deram de cara com a estação fechada. Esperaram reabrir, na entrada que fica na rua da Consolação, sentido centro.

No sentido bairro, duas viaturas pararam e dispersaram o grupo que não estava na manifestação com artefatos que seriam bombas de efeito moral e balas de borracha.

Outro lado

Em nota, a SSP (Secretaria da Segurança Pública) afirma foi instaurado inquérito policial para investigar os fatos relatados por Patrícia. Segundo a delegada Victoria Lobo Guimarães, titular do 78o DP (Distrito Policial), onde está o BO (Boletim de Ocorrências) registrado pela professora, a vítima fez o exame de corpo de delito e foi orientada a voltar ao IML (Instituto Médico Legal) para realizar exame complementar.

Victoria afirma que vai “apurar se realmente o artefato que atingiu a professora partiu da PM.”

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