França e Doria apoiam a violência policial, mas de maneiras diferentes

25/10/18 por Arthur Stabile

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Enquanto tucano criminaliza ativismo e defende polícia que atira para matar, atual governador usa fala mansa, mas adota ações questionáveis, como armar PMs com fuzis

França (à esq.) e Doria se encaram no 2º turno | Foto: Montagem sobre fotos de Divulgação/Patrícia Cruz e Rovena Rosa/Agência Brasil

De um lado, o candidato que literalmente veste a farda da PM. Do outro, o que atualiza bordões populistas famosos, como o “Rota na rua”, para vencer. Está é a análise de especialistas quanto aos perfis de Márcio França (PSB) e João Doria (PSDB) para governar a segurança pública do estado de São Paulo. Eles se encaram no segundo turno das eleições no domingo (28/10) e expõe diferentes propostas, mas em ambas há o apoio à violência policial, seja com fuzis ou de forma explícita nos discursos.

Márcio França assumiu o governo em abril, quando o então governador Geraldo Alckmin (PSDB) se licenciou para concorrer à presidência. Dali por diante, o novo governador colocou a segurança pública como foco, ao mudar o comandante-geral da PM e tentar separar as lideranças das polícias Militar e Civil, ambas submetidas à SSP (Secretaria da Segurança Pública), levando a Civil para a Secretaria da Justiça – ideia que não vingou por resistências internas das corporações e no próprio governo.

França tem usado repetidamente a imagem da PM em suas propagandas, bem como escolheu uma coronel como vice-governadora na chapa. Antes, premiou e posou para fotos com uma PM por ter reagido e matado um assaltante em Suzano, na Grande São Paulo – ela concorreu na eleição e foi eleita deputada federal. O socialista ainda pretende aumentar o uso de fuzis pela PM, colocando ao menos uma dessas armas em casa viatura, hoje usada em ações específicas, para “ampliar ainda mais o poder de reação”. Este armamento é utilizado em guerras e não indicado por especialista em conflitos em áreas urbanas com grandes aglomerações de pessoas.

Por outro lado, expõe no plano de governo a busca por “atacar causas sociais da violência”, colocar uma meta para reduzir os crimes e criar uma ronda da lei Maria da Penha, contra violências sofridas por mulheres. Recentemente, o MST (Movimento Sem-Terra) e outros movimentos sociais declararam apoio à candidatura do PSB.

João Doria também coloca a segurança pública como tema-chave na campanha, ao ponto de apoiar a eleição de Jair Bolsonaro (PSL) à presidência, contrariando sua própria visão de que, além de se tratar de um candidato “extremista”, não seria “preciso empunhar armas” para resolver a crise da violência. Ele mudou de visão. Doria, agora, é favorável ao direito à arma e tem seguido a linha de raciocínio de Bolsonaro com carta branca para a PM matar – atualmente, a polícia militar paulista registrou o ano mais matador em duas décadas.

Em 2 de outubro, dia em que o Massacre do Carandiru (quando 111 pessoas foram assassinadas por PMs após uma rebelião no Pavilhão 9 do Complexo) completou 26 anos, o candidato do PSDB alertou “a bandidagem”. “Não façam enfrentamento com a Polícia Militar nem a Civil. Porque, a partir de 1º de janeiro, ou se rendem ou vão para o chão. Se fizer o enfrentamento com a polícia e atirar, a polícia atira. E atira para matar”, disse Doria, em entrevista para a Rádio Bandeirantes. Em outros momentos, Doria chamou membros do MST de “criminosos” em post no seu Twitter.

Doria tem atrelado sua imagem à de Bolsonaro, tendo criado a hastag #BolsoDoria | Foto: Reprodução/Facebook

Em seu plano de governo, o candidato fala em levar batalhões da Rota (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar, a elite da tropa da PM paulista) para todo o estado, blindar as viaturas da PM, melhorar o armamento e recompor gradualmente o salário dos militares. A intenção do empresário é colocar 40 delegacias para a mulher atendendo 24 horas por dia e triplicar as 400 bases para 1,2 mil, também 24h.

Disparate x ideia esdrúxula

Para traçar o perfil de cada candidato nesta disputa, a Ponte buscou especialistas tanto com experiência militar quanto de ações acadêmicas. O entendimento é de que há um uso excessivo de marketing em ambas as campanhas, mas com diferenças nas propostas. O coronel da reserva da PM de SP José Vicente da Silva Filho, ex-secretário de segurança no governo FHC (Fernando Henrique Cardoso), aponta erros nos dois lados: seja quando França tenta colocar a Polícia Civil com chefia diferente da Polícia Militar, seja a proposta de Doria em levar batalhões da Rota, considerada tropa de elite da PM, para todo o estado.

“O Márcio França não vem prometendo nada pirotécnico e não mostrou bem o que quer fazer. Soltou um disparate de colocar a Polícia Civil debaixo da Secretaria da Justiça e o demoveram da ideia péssima. A cooperação é fundamental”, aponta.

José Vicente usa um exemplo para sustentar a tese. “O 47º DP (Distrito Policial), no Capão Redondo. Houve queda de 90% de homicídios de 1998 para 2017 porque o delegado que esta lá e o capitão que comanda a PM no local têm que analisar todo o dia a evolução do crime na região. Toda semana eles replanejam, refazem as operações… Se separar mais ainda as corporações, atrapalha a cooperação que atualmente já não é boa”, justifica.

Quanto à análise de João Doria, o coronel tem elemento de sobra. Ele participou do grupo de um trabalho com 15 especialistas de segurança que fez uma espécie de consultoria para Doria. “A idéia que estávamos trabalhando é de que SP está com bons resultados, tem uma boa performance na segurança e precisa trabalhar com as polícias”, conta. Isto aconteceu até o candidato contrariar os apontamentos do coletivo, o que fez o coronel abandonar os trabalhos.

“De repente, numa entrevista no interior, o Doria saiu com a ideia de criar 17 batalhões tipo Rota para combater o crime organizado, que está explodindo carros de transporte de valores. E isso nunca tinha passado pela cabeça de ninguém do grupo. É uma fórmula esdrúxula”, explica José. “É como se resolvesse inovar na cirurgia neurológica no Hospital das Clínicas desprezando os médicos especializados no ramo”, pontua.

Solução errada x populismo

Os perfis com apontamentos errados também são alvo de críticas por parte de Rafael Alcadipani, professor da FGV (Fundação Getúlio Vargas) e membro do FBSP (Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Para ele, França mostra um dos problemas da segurança com uma solução errada, enquanto Doria surge como um “novo Maluf”.

França tem se aliado à imagem da PM durante a campanha | Foto: Divulgação/Assessoria

“Vejo o França como o único cara no debate eleitoral que quer falar da causa do problema que são jovens vulneráveis. Não necessariamente da forma mais correta, com alistamento para trabalho. Tem a vantagem de pelo menos ver o jovem da periferia. Alistamento não é o caminho perfeito, mas pelo menos se tem uma luz no fim do túnel”, pondera, antes de apontar os problemas da campanha.

“O França tem aparecido muito com símbolos da PM e tem uma coronel como sua vice. Ele tenta se mostrar como o candidato da PM. E se o Doria ganhar, como fica a troca? A polícia tem que ser do Estado, não pode ter presença política tão forte. A utilização que fez não é boa para a corporação e nem para a sociedade”, completa Alcadipani.

Sobre as intenções de João Doria para a segurança pública, o especialista relembra uma figura emblemática da política paulista, o ex-governador Paulo Maluf. “Levar Rota para o interior é o velho lema ‘Rota na rua’, e ele perdeu o contato do José Vicente, figura importante. Ainda falou que polícia vai atirar para matar… Tenta surfar na onda populista, uma tentativa de pagar de ‘neo-Maluf’ [o autor da frase ‘Rota na rua]'”, aponta.

Para o professor, a equipe de trabalho de Doria voltada para o tema é composta por “gente séria”, que “conhece o tema”, mas ideias soltas podem complicá-lo. “O Doria é muito bom de marketing, vai falar tudo que acha que pode fazê-lo ganhar a eleição. O governador, antes de assumir, dar licença para matar é complicado. Já temos uma polícia muito letal em SP. E não fala de violência contra a mulher, que cresce no estado”, finaliza.

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