GCM de São Paulo atira em pessoas dentro de tendas da prefeitura

Foto: Ed Peixoto/Craco Resiste

Em ação na Cracolândia, guardas trancaram 800 pessoas, fazem revista em massa e vexatória em mulheres

A Guarda Civil Municipal (GCM) agiu com truculência e coagiu pessoas em situação de rua nesta quinta-feira (28/9), na região da Luz. Cerca de 800 pessoas foram encurraladas por bombas de gás lacrimogêneo, balas de borracha, gás de pimenta e cassetetes até serem contidas dentro do espaço Atende 2, local da própria prefeitura.

Sem poder sair, os usuários só foram liberados mediante revista individual por guardas da GCM – as mulheres foram submetidas a revistas vexatórias. Os funcionários dos espaços da prefeitura não foram avisados e também foram submetidos à violência da ação. Além de violar as regras estabelecidas pela própria gestão, a guarda fez cordão de choque jogou bombas de gás e disparou balas de borracha indiscriminadamente contra as pessoas dentro da tenda.

Uma militante do coletivo Craco Resiste que não quis se identificar relata que a limpeza diária prosseguiu como de costume, por volta das 8h da manhã. Quando os usuários voltavam ao local e começaram a montar as primeiras barracas, os agentes da GCM chegaram de forma truculenta.

Beatriz Falcón, da Craco Resiste, conta que os agentes “cercaram as ruas de forma que todo mundo teve que correr pra Rua Helvétia e ficaram presos entre a Cleveland e Agino Bueno. Eles empurraram as pessoas com bombas, cassetetes e balas de borracha e obrigaram elas a entraram na tendas do De Braços Abertos, no CAPS e no Atende 2”, relata. Ambos são espaços da prefeitura, originalmente destinados justamente ao auxílio dos usuários de drogas e à população em situação de rua.

Foto: Ed Peixoto/Craco Resiste

Ela relata ainda que qualquer um que resistisse à entrar ou pedia para ir buscar alguma coisa era tratado com violência pelos agentes. “Eu tive até que intervir quando eles estavam batendo de cassetete em uma menina de 20 anos”, enfatizou. Após reunidos, os usuários foram trancados. “Eles trancaram as pessoas lá e o IOPE (Inspetoria Regional de Operações Especiais) parou na frente da tenda do De Braços Abertos e ficou atirando e jogando bomba nas pessoas lá dentro, que já estavam contidas”, afirma Beatriz. O fato foi confirmado por outra testemunha da situação que preferiu não se identificar.

A militante da Craco Resiste que pediu anonimato aponta mais um agravante na situação: “jogaram essas bombas com os funcionários e o pessoal da igreja lá dentro. Todos os serviços que estavam trabalhando ali ficaram presos dentro da tenda e tomando gás de pimenta junto”. No vídeo é possível ver funcionários saindo correndo, com máscaras e tossindo. A pastora Nilde, referência na região, saiu desmaiada.

Foto: Craco Resiste

Após algum tempo, Beatriz afirma que eles centralizaram todos as pessoas no espaço do Atende 2, retiraram todos os funcionários e lá começaram uma sessão de tortura. “Eles entraram batendo mesmo em todo mundo e fizeram um esquema de cadeia; depois de bater em todos, colocou todo mundo sentado no chão enfileirado abraçando as pernas.”

Como mostra o vídeo, as pessoas foram transferidas algemadas em um corredor criado pelos agentes. “Elas ficaram presas ali dentro muito tempo, sem comer, ir ao banheiro ou beber água. Isso é uma violência muito grave, tira o direito das pessoas”, colocou Beatriz. “Só depois as pessoas começaram a ser liberadas uma por uma, pelas portas dos fundos do Atende 2. Uma barreira de agentes impedia a saída de qualquer um antes da revista individual “muito violenta”, segundo relato da militante.

Golpes de cassetete deixaram marcas nas pessoas atingidas | Foto: Craco Resiste

A presidente do Condepe, Maria Nazareth Cupertino, afirma que as mulheres foram submetidas à revista vexatória, proibida atualmente mesmo nas cadeias. Áudio obtido pela Ponte uma usuária confirma que ela foi submetida à revista vexatória. “Foi igual cadeia. Três de frente, três de costas, tirando as roupas”. Segundo o advogado da Conectas, Henrique Apolinário, revista não pode ser feita pela GCM, apenas a Polícia Militar em investigação, com elementos suficientes para suspeitar, pode executar uma revista pessoal. Ele afirma ainda que não existe revista em massa.

Há algumas semanas, os agentes da GCM vem usando essa prática de reunir de forma truculenta os usuários nos espaços da prefeitura destinados teoricamente ao apoio dessa população, ainda segundo Beatriz. “Mas nunca assim todo mundo numa tenda só e tão violenta como foi hoje”, afirmou.

O Ouvidor-Geral da Defensoria Pública do Estado de São Paulo, Alderon Costa, confirma nunca ter visto algo assim antes. Ele, a presidente do Condepe e o Ouvidor da Polícia foram averiguar a situação e tiveram a entrada no local dificultada pelos agentes da operação, só podendo entrar após 30 minutos.

A Secretaria Especial de Comunicação Social alega que a ação foi uma resposta à movimentação dos traficantes de drogas.

Segundo Raona Martins, que trabalha há 6 anos no Centro de Convivência de Lei, havia um “contingente muito significativo de agentes da GCM, Guarda Civil Ambiental e até cachorros de operações especiais. Vi pelo menos cinco”, afirmou. Ela relata que, ao questionar o inspetor da GCM sobre o que estava acontecendo, obteve como resposta que “era uma operação de limpeza normal e com as viaturas o pessoal ficou assustado e teve tumulto”.

“Eles justificam como sendo ações para apreender armas, drogas traficantes e nunca saem com quase nada de lá”, pontuou Beatriz Falcón. “O projeto de especulação imobiliária do Dória está acabando com a vida dessas pessoas”, finaliza. Como resultado da ação foram encaminhadas ao Denarc 11 pessoas, sendo três adultos, presos em flagrante, e 8 adolescentes. As sete adolescentes foram liberados às só as 22 horas da noite pelo advogado do vereador Eduardo Suplicy e uma será encaminhada à Fundação Casa.

Pessoas foram atacadas após guarda reuni-las na Atende 2, tenda da prefeitura paulistana | Foto: Craco Resiste

Questionada pela reportagem, a Secom enviou a seguinte nota: “Na manhã desta quinta-feira (28/9), havia diversas barracas montadas por traficantes para promover a venda de drogas na região da Luz. Quando a Guarda Civil Metropolitana tentou coibir essa prática, durante a ação de zeladoria realizada duas vezes por dia no local, houve reação do tráfico. A GCM adotou as medidas necessárias para conter a reação. Vídeos e fotos com registros da ação indicam que não houve registro de revistas feitas de forma inadequada nem apontam excessos nas abordagens”, sustentou.

Onze pessoas foram detidas sob suspeita de tráfico – uma delas procurada pela Justiça. Foram apreendidos 1 kg de crack, 66 papelotes de maconha, 41 frascos de lança-perfume, R$ 1.697,15 em dinheiro, 3 balanças de precisão, 2 celulares, 2 rádios, 9 facas, 3 tesouras e 2 chaves de fenda.

“Apesar das constantes tentativas do tráfico de retomar o controle daquele território, a Prefeitura não recuará e continuará a oferecer acolhimento social e de saúde aos dependentes químicos”, segue a secretaria.

“De 21 de maio até 25 de setembro, a secretaria municipal de Saúde realizou 35.261 atendimentos e 2.024 encaminhamentos para tratamento. A Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social criou três equipamentos emergenciais de atendimento “ATENDE”, que contam com espaços de descanso, banheiros e refeitório. Até 25 de setembro, as unidades contabilizaram 183.388 atendimentos como banhos, pernoites, cafés, almoços, jantares, lanches e cortes de cabelo. Paralelamente, as equipes de zeladoria e da Guarda Civil Metropolitana atuam na limpeza das vias e para impedir a montagem de barracas que eram usadas pelo tráfico. O local também é monitorado por drone. Desde 21 de maio, foram retiradas mais de 437 toneladas de lixo e detritos dessas ruas”.

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