Há 43 anos, mestra Saruê se passou por menino para ser aceita na capoeira

3 minutos atrás

‘Primeira capoeirista mulher de Ribeirão Preto’, como faz questão de dizer, Ana Lúcia conta como a capoeira transformou sua realidade em luta e resistência

Mestra Saruê e seu pandeiro | Foto: Daniela Penha

Para ser aceita como aluna de capoeira 43 anos atrás, Ana Lúcia precisou fingir que era menino. Hoje, é mestra. Conta história de uma vida toda dedicada ao esporte e frisa, cheia de orgulho: “Sou a primeira capoeirista mulher de Ribeirão Preto!”. A mestra Saruê, apelido que a capoeira lhe deu, começou na arte aos sete anos, no interior de São Paulo.

Ela conta que na saída do colégio escutava uma batida que chamava a atenção. Um dia, resolveu investigar. Descobriu o berimbau, a roda de capoeira e, antes que pudesse aprender a gingar, veio a reprimenda. “Eles me disseram: ‘É só para meninos!’”. Então ela decidiu mentir. “Mas e esse cabelo?”, questionaram os capoeiristas sobre os cabelos crespos e volumosos da menina. “Ué, só menina pode ter cabelo comprido?”

Saruê foi aceita no grupo e passou a aprender a arte. A mentira só foi descoberta em dois ou três anos, quando ela começou a ficar mocinha e, depois de um treino, saiu correndo do banheiro masculino na hora do banho. “Eles vieram atrás e começaram a perguntar: ‘Você não é homem, sô?’. Eu acabei respondendo que era menina”, diverte-se. Como a pequena era boa no gingado, os mestres a deixaram continuar nas aulas.

“Naquela época, não tinha mulher. Depois que eu entrei, abriu esse espaço e outras meninas começaram a entrar”, conta Mestra Saruê, que abriu portas e rompeu preconceitos. “As pessoas me chamavam de ‘macho’, porque eu era a única mulher. Também tinham a ideia de que só marginal praticava capoeira”.

Fingindo não ver os olhares tortos, seguiu em seu caminho.

Mestra Saruê com seus alunos | Foto: Daniela Penha

A capoeira foi caminho na vida de Ana Lúcia. Nascida na periferia, ela conta que vivia mais na rua do que em casa, pelas condições que a família enfrentava. Quando começou a jogar, se encantou e encontrou um rumo a seguir. Pela capoeira, foi sozinha para São Paulo com não mais que 15 anos. Morou em uma perua por uma semana, até conseguir emprego de office girl e alugar um quarto. Passou a integrar o Cordão de Ouro.

Voltou aos 16 anos, grávida do primeiro filho. Trouxe a capoeira consigo, porém. Em Ribeirão Preto, a mestra compartilhou a arte. Trabalhou como professora, inclusive na prefeitura, e criou projeto social no bairro Paulo Gomes Romeu, periferia de Ribeirão, onde mora. Integra o grupo Terra Preta. “Sem a capoeira, eu não seria quem eu sou. Não sou nada”, afirma.

Há dois anos, Saruê conquistou a titulação de mestra. “Tem uma preparação, sabe? E no dia de receber o título a família toda está presente. É como uma formatura de faculdade. Mas a faculdade demora quatro, cinco anos. Eu demorei mais de 40 anos para ser mestra”.

Não consegue jogar mais, por problemas no joelho, mas continua dando aulas e não quer parar. “Não sei fazer outra coisa. Pela capoeira eu me sustentei, construí minha família”, conta, demonstrando gratidão.

Agora, planeja ampliar o projeto social do bairro, com espaço próprio, biblioteca e outras aulas além da capoeira. Quer continuar a abrir caminhos, como o seu. “A capoeira faz o resgate da molecada, retoma a autoestima. A capoeira é resistência”. Aos 54 anos, depois de tanta luta gingada, a mestra se diz realizada. Pela arte, aprendeu a resistir.

*Publicado originalmente em História do Dia

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