Indígenas Wajãpi denunciam invasão de garimpeiros e assassinato de liderança no Amapá

28/07/19 por Caê Vasconcelos

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Cerca de 50 garimpeiros invadiram as terras indígenas da aldeia Mariry, em Pedra Branca do Amapari, a 200 km da capital Macapá; Emyra Waiãpi, liderança da região, foi morto a facadas no último dia 22 de julho

Indígenas Wajãpi ao lado de Marina Sá, de blusa vermelha, em Pedra Branca do Amapari | Foto: arquivo pessoal

Desde o dia 22 de julho a aldeia Mariry, terras indígenas do povo Wajãpi, está sob tensão. Tudo começou com o assassinato da liderança Emyra Waiãpi, 68 anos, morto a facadas. Segundo a PM (Polícia Militar), ainda não há confirmação se o assassinato de Emyra pode ser atribuído aos garimpeiros, mas as forças policiais confirmam que o corpo do líder foi encontrado com marcar de perfurações e cortes na região pélvica.

Em entrevista à Ponte, Marina Sá, moradora de Pedra Branca do Amapari e uma das facilitadoras do contato dos indígenas Wajãpi e o senador Randolfe Rodrigues (REDE-AP), relatou o que aconteceu nos últimos seis dias na aldeia. “Mataram ele [Emyra Waiãpi] com facas, cortaram o pescoço dele e jogaram no rio. Ele foi encontrado no dia seguinte pela esposa. Depois os indígenas começaram a ver que os garimpeiros invadiram a aldeia e começaram a ameaçar os outros Wajãpi”, explica Marina.

No último sábado (27/7), Marina Sá recebeu mensagens de socorro do vereador Jawaruwa Waiãpi (REDE-AP), liderança política da aldeia, informando que cerca de 50 garimpeiros armados invadiram o local. Mas, de acordo com os garimpeiros, eram 15 homens armados.

“Ontem eles entraram em contato comigo depois de ficar dois dias sem contato, sem avisar, tentando resolver, aí chegaram à conclusão de que eram garimpeiros armados e foi quando eles me acionaram pedindo socorro. Segundo eles foram cerca de 50 garimpeiros. Eles me pediram socorro porque não era qualquer garimpeiro, eles estavam bem equipados e alguns com roupas tipo a do exército”, relata Marina.

Foi neste momento que Marina contatou o senador Randolfe Rodrigues, que acionou a PF (Polícia Federal) e o Bope (Batalhão de Operações Policiais Especiais) da PM. Segundo Marina, o clima na aldeia continua tenso, mesmo com a presença das forças policiais e da Funai (Fundação Nacional do Índio).

Momento em que a PF chegou à aldeia no último sábado (27/7) | Foto: arquivo pessoal

“Eu falei há pouco com um deles e me disseram que a polícia continua por lá e esse pessoal estão em outra aldeia. Quando tudo isso aconteceu e os indígenas descobriram que eram garimpeiros, eles se reuniram em um local só, todos os indígenas, e os garimpeiros ficaram em volta, arrancando a macaxeira dele, procurando comida. Parece que estão revezando para ficar vigiando”, denuncia Sá, que completa que “essa região é muito rica, eu acredito que seja por causa de ouro”.

Em nota enviada à Ponte, o Apina (Conselho das Aldeias Wajãpi), relatou o que se sabe até agora sobre a invasão. Confira a nota completa aqui.

“No dia 27, sábado, nós começamos a divulgar a notícia para nossos aliados, na tentativa de apressar a vinda da Polícia Federal. Um grupo de guerreiros wajãpi de outras regiões da Terra Indígena foi até a região do Mariry para dar apoio aos moradores de lá enquanto a Polícia Federal não chegasse. No dia 27 à tarde, representantes da Funai chegaram à TIW e foram até a aldeia Jakare entrevistar parentes do chefe morto, que se deslocaram até lá. Os representantes da Funai voltaram para Macapá para acionar a Polícia Federal. Os guerreiros wajãpi ficaram de guarda próximo ao local onde os invasores se encontram e nas aldeias que ficam na rota de saída da Terra Indígena. Durante a noite, foram ouvidos tiros na região da aldeia Jakare, junto à BR 210, onde não havia nenhum Wajãpi. No dia 28 pela manhã um grupo de policiais federais e do BOPE chegou à TIW e se dirigiu ao local para prender os invasores”, diz nota.

O MPF (Ministério Público Federal), em coletiva à imprensa no fim da manhã deste domingo (28/7), garantiu que segue acompanhando a situação no local e não confirmou a origem do suposto conflito. A reportagem procurou a Funai, mas até o momento de publicação não obteve retorno.

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