Investigação de lavagem de dinheiro do PCC durou 12 anos e fracassou

22/11/19 por Josmar Jozino

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Documentos exclusivos apontam que um dos denunciados foi Alejandro Juvenal Herbas Camacho Junior, irmão de Marcola, o líder máximo da facção

Alejandro Juvenal Herbas Camacho Junior (à esq.), um dos denunciados na investigação, e o irmão, Marcola, apontado como o líder máximo do PCC | Foto: reprodução

Durou longos 12 anos e terminou em fracasso a primeira e principal investigação sobre lavagem de dinheiro e ocultação de valores envolvendo líderes do PCC (Primeiro Comando da Capital).

Após uma década de exaustivos trabalhos de investigação realizados por uma força-tarefa dos Ministérios Públicos Estadual e Federal, Receita Federal, Polícias Civil e Federal, a Justiça de São Paulo não aceitou a denúncia oferecida contra os acusados.

As apurações tiveram início em setembro de 2006, quatro meses depois dos ataques de maio, quando o PCC paralisou São Paulo, matando dezenas de agentes públicos e se rebelando em 74 unidades prisionais do Estado. A resposta das forças de segurança foi sangrenta: 564 pessoas foram mortas no episódio que acabou conhecido como Crimes de Maio.

Os trabalhos foram realizados pelo DPPC (Departamento de Polícia de Proteção à Cidadania), da Polícia Civil, e coordenados pelo GEDEC (Grupo Especial de Delitos Econômicos), do Ministério Público Estadual (Leia aqui íntegra da denúncia do MP).

A princípio foram investigadas 56 pessoas e, segundo relatórios do antigo Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras), elas movimentaram, juntas, R$ 3.179.690,00 em 342 contas bancárias nos anos de 2005 e 2006.

Em julho de 2010, quase quatro anos após o início das investigações, o número de suspeitos caiu de 56 para 40 pessoas. Porém, em 7 de novembro de 2016, apenas quatro pessoas foram denunciadas à Justiça pelo crime de lavagem de dinheiro. Até hoje ninguém foi punido.

Um dos denunciados é Alejandro Juvenal Herbas Camacho Júnior, irmão de Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, apontado como líder máximo do PCC.

Documentos do Coaf revelam que Júnior abriu uma conta bancária com o nome falso de Paulo Cezar Albuquerque de Souza e movimentou R$ 504 mil entre 2002 a abril de 2006.

Uma das páginas de documento do Coaf
Documento do Itaú que comprova que traz as movimentações feitas por Junior no nome falso que usava | Foto: reprodução
Uma das páginas do extrato da conta em nome de Paulo Cezar | Foto: reprodução

Nesse período ele ainda se encontrava foragido. Entretanto, até maio de 2006, um mês após a sua prisão, ainda foram efetuados saques e depósitos bancários na conta dele.

Júnior tinha, com nome falso, ficha de identificação civil do Instituto Ricardo Gumbleton Daunt, departamento da Polícia Civil responsável pelas emissões de carteira de identidade em São Paulo.

Ficha de identificação falsa no nome de Paulo Cezar usada por Alejandro Camacho Junior

Outro líder do PCC também denunciado é Paulo Felipe Esteban Gonzalez, o Teco-Teco. Ele coordenou a movimentação de R$ 636.817,00 em uma conta bancária.

A conta foi aberta em nome de seu ex-vizinho, Paulo Thiago Ribeiro da Silva. A movimentação bancária ocorreu entre 1º de junho de 2005 a 25 de maio de 2006.

Em depoimento à Polícia Civil, Paulo Thiago disse que Teco-Teco “pediu sua conta corrente emprestada e ele aceitou, recebendo em troca a quantia de R$ 1 mil por mês no período de um ano”. A mulher de Paulo Thiago, Débora Vacarim dos Santos, também foi denunciada à Justiça.

Júnior e Teco-Teco foram ouvidos pela Polícia Civil, quando estavam presos na Penitenciária 2 de Presidente Venceslau, e negaram a movimentação de dinheiro em conta bancária.

Em 7 de agosto de 2017, a Justiça rejeitou a denúncia feita pelo GEDEC contra os quatro acusados “por ausência de justa causa”. O Ministério Público recorreu da decisão.

Novas investigações

Há rumores no Ministério Público Estadual de São Paulo de que uma nova investigação sobre lavagem de dinheiro envolvendo o PCC está em andamento.

O MPE tem informações de que filhos de presos da alta cúpula da facção estão vivendo há alguns anos em Londres e na Ilha de Malta, cidades na Europa, e também na Austrália.

As informações dão conta ainda de que mulheres de líderes do PCC moram em casas de luxo em bairros ricos da capital e também na região metropolitana de São Paulo.

 Já os presos da cúpula da organização são suspeitos de lavar dinheiro arrecadado com o tráfico de drogas investindo em postos de combustíveis e concessionárias de veículos e adquirindo ônibus e vans para atuar no transporte coletivo.

Os principais líderes da facção criminosa foram transferidos em fevereiro deste ano para presídios federais.

Outro lado

Em nota enviada à Ponte, a assessoria de imprensa do MPSP afirma que a reportagem contém “imprecisões, para dizer o mínimo, que prestam um grande desserviço à opinião pública”, sem mencionar quais.

Ainda segundo a nota, “as investigações capitaneadas pelo Grupo de Combate aos Delitos Econômicos (Gedec) e pelo Departamento de Polícia de Proteção à Cidadania (DPPC) foram compartilhadas com inúmeras autoridades, que processaram e condenaram integrantes do PCC em vários Estados” e que, por isso, “o trabalho do MPSP e da Polícia Civl teve sim resultados concretos, ao contrário do que tenta fazer crer a equivocada reportagem”.

A nota também afirma que, embora a denúncia tenha sido rejeitada em primeira instância, é possível que seja aceita em instâncias superiores, e que o MPSP está “absolutamente confiante em virtude das provas recolhidas ao longo da investigação”.

Matéria atualizada às 20h24 do dia 23/11 para inclusão da nota do MPSP.

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