Investigado por pregar homicídios, ex-PM continua a dar aulas em escola do grupo Somos

06/11/19 por Arthur Stabile

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Google recua em censura à Ponte e libera vídeos da AlfaCon que havia removido do YouTube

Imagens publicadas por Norberto em seu perfil no Instagram, destacando trabalho na AlfaCon | Foto: Reprodução/Instagram

O professor de Direito Norberto Florindo Júnior, investigado por confessar assassinatos quando integrantes da Polícia Militar do Estado de São Paulo e ensinar técnicas de tortura e execução em sala de aula, segue como professor de aspirantes a PM que estudam na AlfaCon. A empresa tem como acionista a Somos Educação, controlada pela Kroton, maior grupo privado de educação do Brasil.

Norberto permanece trabalhando normalmente na instituição. Ele faz publicações em suas redes sociais, como o Instagram, chamando para revisões e aulas online. Em seu perfil no Facebook consta como funcionário da Alfa Concursos. Procurada, a AlfaCon ignorou o questionamento se Norberto permanece atuando ou se sofreu algum tipo de sanção pelo conteúdo de suas aulas.

No dia 24 de outubro, a Ponte denunciou as falas de Norberto, que exaltava a tortura como técnica de interrogatório, ensinava aos que pretendem se tornar PMs a como matar uma pessoa baleada durante o socorro médio. Posteriormente, outros vídeos mostram o ex-PM dizendo que realizava chacina, inclusive de mulheres grávidas e bebês, para “acabar com o mal na raiz”.

'Quando entrava chacinando, matava todo mundo: mãe, filho, bebê', diz professor da AlfaCon

Vídeos da AlfaCon, escola para concurseiros do grupo Somos Educação e Kroton, estão sendo removidos do YouTube após a Ponte revelar que professores ensinavam como torturar e executar suspeitos em suas aulas. Veja, a seguir, o que estava em um dos vídeos.Nele, o professor de Direito Norberto Florindo Júnior critica o fato de que mulheres grávidas não poderem ser transportadas algemadas e conta ter matado bebês em chacinas, diz ser o professor "que mais matou e torturou" dentro da AlfaCon e se vangloria de ter recebido uma ligação do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do presidente Jair Bolsonaro. "Vou dizer mais: Eduardo Bolsonaro, deputado federal por São Paulo, me ligou. Passou um zap [mensagem pelo aplicativo WhatsApp]. 'Capitão, fiquei sabendo que o senhor matou um monte de gente?! Queria agradecer as suas matanças'. 1Que isso, deputado. Que isso…' Me aguarde que estou preparado para morrer em prol da população", conta. Em seu site, a AlfaCon alega que não "censura previamente o que é dito em sala de aula" por respeito à "liberdade de cátedra" de seus profissionais e que "o que é falado por seus professores não reflete, necessariamente, a opinião do AlfaCon", argumenta a empresa, que tem a Somos Educação como sócia.Relembra o caso em reportagem de Arthur Stabile e Jeniffer Mendonça: https://ponte.org/apoiada-por-grupo-bilionario-escola-de-concursos-ensina-tortura-a-futuros-policiais/

Posted by Ponte Jornalismo on Saturday, October 26, 2019

O profissional atuou como policial militar em São Paulo até o ano de 2009, quando foi demitido por infringir regras de comportamento da corporação. O então capitão da PM respondeu processo por ter sido flagrado com um pacote contendo cocaína enquanto dormia no alojamento da Diretoria de Ensino da PM, época em que lecionava Direito aos militares de patente inferior.

As declarações denunciadas pela Ponte renderam uma investigação da Corregedoria da PM sobre Norberto, conforme decidido pela Justiça. A intenção é verificar se o agora professor de Direito cometeu, de fato, os crimes que descreve em salas de aula ou se apenas propaga bravatas. O órgão não será responsável por verificar os crimes de apologia à violência e à tortura cometidos em sala de aula, como analisado por especialistas. Essa função ficará à cargo do MP (Ministério Público) por se tratar de um cidadão civil e não mais militar – o MP não se posicionou sobre os crimes cometidos por Norberto.

Outro profissional da AlfaCon que propaga ações violentas como agente de segurança é Evandro Guedes, fundador da empresa. Em vídeos, ele exalta quando jogou uma bomba em uma cela de presídio, diz que matar “traveco com peru” não é feminicídio e a torturar durante a madrugada suspeitos que estejam preso em delegacias.

No dia 28 de outubro, a Alfacon iniciou uma operação para remover do ar os vídeos com aulas de Norberto e Evandro do YouTube, que acatou o pedido de censura com base em “violação de direitos autorais”. A Ponte permaneceu oito dias com seus direitos jornalísticos cerceados pelo Google, que é dono do YouTube.

Nesta quarta-feira (6/11), as gravações voltaram para a plataforma. Segundo apurado pela reportagem, isso ocorre de forma temporária enquanto a queixa sobre violação de direitos autorais é investigada. Em um primeiro momento, o YouTube tira o vídeo do ar, o dono do canal questiona a retirada e, enquanto a plataforma cobra mais informações de quem supostamente teve o direito violado, recoloca as imagens.

No entanto, o retorno pode ser apenas temporário. O YouTube agora analisará a resposta que será enviada pela AlfaCon e, caso considere que, de fato, os direitos autorais forma violados, retirará definitivamente os vídeos do ar.

Fundada em 2009, a AlfaCon foi comprada no ano de 2012 pela Abril Educação, atualmente conhecida como Somos Educação, que pagou R$ 5,5 milhões por 51% da participação na escola feita para treinar concurseiros. Em abril de 2018, a Somos Educação foi comprada pela Kroton, a maior empresa de educação no Brasil. Nos últimos anos, a AlfaCon tem demonstrado vínculo com o deputado federal por São Paulo Eduardo Bolsonaro, filho do presidente Jair Bolsonoro (PSL). Ele aparece em mais de um vídeo palestrando na empresa e, em um deles, no dia 9 de julho de 2018, falou que bastariam “um cabo e um soldado” para fechar o STF (Supremo Tribunal Federal).

A Somos Educação, em mais de um momento, se posicionou à reportagem dizendo que “não cabe a ela se manifestar sobre o tema em questão, pois como acionista minoritária, não está envolvida no dia a dia da operação da Alfacon Concursos Públicos, não possuindo qualquer autonomia ou função executiva para a tomada de decisão no que tange à gestão da empresa, ao conteúdo das aulas ou aos executivos, apenas, parcialmente no que diz respeito a parte financeira da companhia”. “Como empresa, obviamente, a Somos não corrobora com nenhum ato discriminatório ou que denigra seus colaboradores. Muito pelo contrário, a companhia é uma instituição conhecida pelo zelo e cuidado com seus funcionários”, diz a Somos.

A Ponte questionou o Google sobre a reinserção dos vídeos e recebeu como resposta que a empresa “não comenta casos específicos” e enviou um link (leia clicando aqui) que detalha como funciona o tratamento de direitos autorais na plataforma.

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