Com Doria, mortes pela polícia devem subir 11% em SP, aponta ouvidor

05/12/19 por Maria Teresa Cruz

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De janeiro a outubro deste ano, PMs em serviço mataram 584 pessoas, uma alta de 9,1% na comparação com o mesmo período do ano passado

Ação em Guararema coordenada pela Rota em abril, tropa mais letal da PM paulista, deixou 11 mortos | Foto: Arthur Stabile/Ponte Jornalismo

Entre janeiro e outubro deste ano, a PM matou 584 pessoas em serviço, um aumento de 9,1% na comparação com o mesmo período do ano passado, quando foram 535 mortes, segundo dados da SSP-SP (Secretaria de Segurança Pública de São Paulo) compilados e divulgados pela Ouvidoria das Polícias. Se somar as mortes provocadas pela PM em serviço e de folga, o número sobe para 697 em 2019, contra 686 no mesmo período de 2018.

Os meses mais letais no período foram abril e outubro. Os dois meses registraram 71 mortos em ações da polícia, o que dá 2,3 mortes por dia. Abril foi o mês que aconteceu a ação da Rota, a tropa mais letal da PM paulista, em Guararema, no interior de São Paulo, quando 11 pessoas foram mortas. Março e agosto ficam em terceiro e quarto, com 67 e 61 mortes.

Benedito Mariano, ouvidor das polícias, destaca que todo aumento é preocupante. “A perspectiva é que até o final do ano a média seja de 10% a 11% por cento de aumento da letalidade comparado a 2018. Isso se aproxima muito de 2017, quando foi o maior número de mortos pela polícia dos últimos anos com 940 mortes”, afirma.

Para ele, só há uma forma de reduzir a letalidade policial: aprimorar a investigação. E isso, na visão de Mariano, só vai acontecer quando todos os IPMs (Inquérito Policial Militar) de mortes de civis forem direcionados para a Corregedoria da PM. Hoje, 97% das investigações são tocadas pelos batalhões de origem do PM que atirou. “É órgão de expertise de Polícia Judiciária militar, os batalhões não são. Estou absolutamente convencido de que a melhor ação do ponto de vista da gestão administrativa da segurança pública para diminuir a letalidade policial é centralizar na Corregedoria essas mortes em decorrência de intervenção policial”, afirmou.

“A Corregedoria da PM tem muito prestígio junto a tropa. Ela é respeitada. De modo que a centralização pode levar os policiais da ponta a terem uma preocupação com aquelas ocorrências onde não há indícios de legítima defesa, porque aí o órgão corregedor será muito duro”, analisa Mariano.

Para Rafael Alcadipani, professor da FGV (Fundação Getúlio Vargas) e membro do FBSP (Fórum Brasileiro de Segurança Pública), o comando da PM paulista deseja reduzir a letalidade, mas a “subcultura do esculacho” e a ideia do “bandido bom é bandido morto” colou na tropa.

“A questão é que nesse atual momento do Brasil, a tropa está se sentido liberada. O cara acha que porque o Bolsonaro é presidente, o Doria [governador João Doria] fala que tem que matar, então ele pode matar. Com certeza esse discurso está afetando [o policial da ponta], ele se sente muito mais liberado para puxar o gatilho”, afirma.

Alcadipani destaca que essa cultura precisa mudar e cita o exemplo do vídeo divulgado pela Ponte, e que circulou nas redes sociais nos últimos dias, do PM batendo com uma barra em frequentadores do baile funk em Paraisópolis e se divertido. “Essa coisa de dar uma paulada e achar engraçado, essa cultura de rua precisa mudar. Precisa mudar a forma de pensar e para isso precisa melhorar a formação dos policias e dos comandantes. Acredito em uma formação que não aconteça apenas dentro da polícia”, explica, citando o convênio que a PM paulista tem com o Insper.

Outra medida que Alcadipani considera urgente vem do governador de São Paulo, João Doria (PSDB). “O governador precisa entender que isso é um problema. Não existe uma diretiva do governo Doria para diminuição de letalidade”, critica.

Ainda sobre os números divulgados pela Ouvidoria, o número de mortos por policiais de folga diminuiu: foram 102 pessoas entre janeiro e outubro deste ano e 143 no mesmo período do ano passado.

“Isso é algo que tem acontecido em são paulo, a transição da morte de folga para a morte em serviço. É difícil cravar mas eu acho que o policial está sentindo que tem segurança para fazer dentro e não fora. O que tem que fugir nessa história é a ideia de ‘todos eles querem que matem’. Isso é muito mais ambíguo dentro da polícia. Isso não é tão simples e trivial. O comando não quer, pode ter certeza”, afirma Rafael Alcadipani.

Segundo ele, o massacre de Paraisópolis, que deixou 9 mortos no domingo (1º/12) mostrou isso. “Há bons policiais que estão envergonhas com isso tudo que aconteceu. É uma crise para a polícia. E eu acho importante dizer que nesse momento de crise a gente deve se aproximar da policia e procurar ajudar e não dar as costas”. E criticou a postura de Doria em todo o episódio. “O Doria falou um monte de coisas, mudou de opinião depois que Moro condenou a ação o que evidencia o caráter político de toda declaração dele nos últimos dias”, conclui.

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