Luta que vem do útero: Débora Silva é homenageada por militância das Mães de Maio

07/12/18 por Autor convidado

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Mães que perderam filhos pela violência de Estado lotaram plenário da Câmara Municipal de Osasco onde Débora recebeu homenagem: ‘Não somos vítimas, somos guerreiras’

Débora Silva foi homenageada pela sua militância no movimento Mães de Maio | Foto: Giorgia Cavicchioli/Ponte Jornalismo

“As lágrimas que rolam no rosto de cada uma dessas mães é uma lágrima que quer ter justiça. Eu luto pelo meu útero. A minha garra vem pelo meu útero. Não tem outro modelo de luta.” Foi assim que Débora Maria da Silva, fundadora do movimento Mães de Maio, começou sua fala durante homenagem que recebeu na Câmara Municipal de Osasco, na Grande São Paulo, na quinta-feira (6/12).

Em entrevista à Ponte, Débora disse ter ficado muito honrada com a homenagem e destacou que esse foi mais um passo de legitimação da luta dessas mulheres e mães. “Nós não somos vítimas. Vítimas foram nossos filhos. Nós somos guerreiras”, disse.

Os Decretos Legislativos 41 e 42/2016, de autoria do vereador Batista Comunidade (Avante), teve como objetivos entregar uma placa comemorativa ao movimento Mães de Maio por sua luta em defesa dos direitos humanos e justiça e dar o cartão de prata à Débora. Na sessão, foi possível ver a emoção de todas as mães que perderam seus filhos para a violência do Estado e que estavam presentes no plenário Tiradentes.

Um dos momentos mais emocionantes do evento foi a exibição do clipe da música Chapa, do rapper Emicida, em que as mães que fazem parte do movimento são protagonistas. Era possível ver alguns dos presentes chorando de emoção. O vídeo foi comentado por Débora em seu discurso, que também emocionou os presentes. “A gente perdeu uma mãe desse vídeo, a Vera Lúcia [Gonzaga]. Se nós morrermos, como a Vera morreu lutando, a gente já travou uma história que meu País não apaga jamais”.

Além de Débora, outras mães estiveram presentes, como Dona Zilda, cujo filho foi morto na chacina de Osasco | Foto: Giorgia Cavicchioli/Ponte Jornalismo

“Eu tenho uma frase que diz que essa luta me alimenta. Eu tenho um marido que precisa de cuidado também, mas eu acabo abandonando porque a luta me chama. E ele compreende”, afirmou. A fundadora do movimento ressaltou que sempre gosta de exaltar, dentro e fora do Brasil, as mães que conhece. “As mães são as verdadeiras lutadoras dos direitos humanos. Elas conseguem, mesmo na extrema pobreza, alimentar seus filhos. Esse dom, o homem não pode tirar”, disse Débora lembrando que as mulheres que fazem parte do movimento não têm medo.

“Ninguém intimida uma mãe de maio”, constatou lembrando do dia em que foi até a região para dar apoio àquelas que tinham perdido os filhos na chacina de Osasco e Barueri. Durante sua fala, Débora disse que, quando o Estado não cuida, “ele encarcera e mata”, que a chamada guerra às drogas é uma falácia para matar a população negra e pobre e que é preciso desmilitarizar a polícia.

Ela também sugeriu que seja implantada a “lei de maio” no município de Osasco, para que as mães dos mortos pela violência do Estado possam dar uma homenagem para eles. “O que elas têm que exigir é uma memória. Eu queria que esse País fosse gigante, mas não pela impunidade. Nossos filhos são heróis. A gente sabe que, espiritualmente, eles estão aqui. Acredite, eles estão aqui. As mães têm que respirar fundo e têm que falar que vamos para a luta. Não se curve perante esse Estado assassino. Queremos justiça e, quando a gente vê que essa casa abriu as portas para nós, a justiça começou a ser feita”, afirmou.

Dizendo que “mãe é amor” e que “iremos parir uma nova sociedade”, Débora lembrou como ela conheceu Zilda Maria de Paula, líder das Mães de Osasco. Em sua fala, Zilda contou como o movimento foi importante para que ela transformasse seu luto em luta. “Eu sabia que tinha violência, mas quando chega na gente, é um choque tremendo. Toda vez que morre um moleque, parece que é o meu que está morrendo naquela hora”, afirmou.

Débora e Zilda com os responsáveis pela homenagem | Foto: Giorgia Cavicchioli/Ponte Jornalismo

A líder do movimento em Osasco também afirmou que queria que os filhos delas estivessem sendo homenageados na solenidade por serem, por exemplo, esportistas de sucesso. “Eu quero agradecer o pessoal aqui da Câmara. Essa homenagem serve muito de conforto para nós. A gente sempre fala que político não tá nem aí pra gente, mas o pessoal aqui mostrou que eles sentem e que estão aqui conosco”, afirmou.

Após sua fala, Zilda presenteou Débora com flores e fez questão de dizer o quanto a ativista foi importante para que ela saísse de sua casa e lutasse pela memória do filho em um momento que ela já não tinha mais forças. “Eu me sinto um grão de areia de mexer com gente grande”, disse Zilda. Porém, em seguida, ela afirmou: “Eu não tenho medo. Eu costumo dizer que já estou morta. Eu não represento só meu filho. Eu represento todos os meninos de Osasco, de Santos, da zona leste, do Brasil inteiro.”

Em sua fala, o vereador Batista Comunidade disse que, como relator da Comissão da Criança e do Adolescente, não poderia deixar essa honraria passar. “Só peço desculpa por não ter acontecido antes. Que Deus possa abençoar e dar muita força para você continuar seguindo seus objetivos”, disse para Débora.

Ele também lembrou que tinha proximidade com a adolescente Letícia Vieira Hillebrand da Silva, 15 anos, uma das vítimas da chacina de Osasco e Barueri. “A Letícia era uma jovem que estudava em frente ao meu gabinete e passava sempre para tomar um café. Perdemos vários amigos”, disse o vereador que pretende que uma das creches que está sendo construída na comunidade receba o nome dela.

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