Marcelo Pimentel: ‘A maior ala ideológica, se houvesse duas alas no governo, seria justamente a ala militar’

O coronel da reserva do Exército Marcelo Pimentel criticou a politização das Forças Armadas e comentou as recentes crises envolvendo militares no governo Bolsonaro no 14º episódio de Da Ponte pra Cá: “Bolsonaro não enganou ninguém, quem enganou foram os generais”

Diante da presença de militares em cargos do alto escalão do governo federal, como no Ministério da Saúde, envolvidos na crise política e sanitária junto ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido), levantou-se o debate sobre o presente e o futuro das Forças Armadas. Na última quarta-feira (28/7), o Da Ponte pra Cá recebeu o coronel da reserva do Exército, Marcelo Pimentel, oficial da artilharia formado na Academia Militar das Agulhas Negras (Aman) em 1987. O editor Amauri Gonzo comandou a conversa no canal do Youtube da Ponte.

No início da live, como oficial da reserva do Exército, Pimentel lembra que está garantido por lei a livre manifestação do seu pensamento.  Marcelo é uma das vozes mais críticas da relação entre as Forças Armadas e a política. A participação de militares da reserva e da ativa no governo Bolsonaro traz discussões tanto em relação à politização dos oficiais quanto à militarização dos ministérios e da segurança pública. Também se soma ao debate o envolvimento de militares nas investidas do presidente em discursos autoritários e as ameaças de ruptura democrática nas eleições de 2022.

No fim de março, um dos mais recentes episódios da crise política terminou na troca de ministros e dos comandantes da Marinha, do Exército e da Aeronáutica após a demissão do então ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva. Nesse cenário, boa parte da imprensa atribuiu aos militares certo tom moderador, em oposição a Bolsonaro, para “preservar a democracia” – versão que é refutada por especialistas, pesquisadores e por Pimentel.

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Para Pimentel, estamos diante de um governo militar sob o comando de Jair Bolsonaro do vice-presidentte, o general Hamilton Mourão. “Os militares ocupam cabeça, membro, entranhas e alma do governo. Retrata bem o governo em todos os seus aspectos políticos, executivos e ideológicos a mentalidade da geração dos oficiais formados na Aman [na década de] 1970”, analisa.

“Os militares, de uma forma geral, sempre estiveram presentes na cena política brasileira como protagonistas desde o Segundo Império. Não se pode esquecer que os dois primeiros Ppresidentes da República foram marechais, o Deodoro e o Floriano. A partir de 1930 até 1985, os militares estiveram presentes ou pelo rompimento institucional por intermédio de golpes e autogolpes, que executaram em 64 ou apoiaram como em 1930 e em 1937, ou pela via das eleições”, completa Pimentel.

Partido Militar

O processo de politização das Forças Armadas desvia os militares de suas funções institucionais à serviço da sociedade. Marcelo Pimentel comenta que os 21 anos de ditadura e repressão militar mostram um protagonismo que desgastou a imagem das Forças Armadas e que deveria ter acabado com a redemocratização. Ao mesmo tempo, a presença militar na segurança pública brasileira aumentou de forma expressiva nas últimas décadas.

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Estas atuações, para Pimentel, são defendidas por uma geração de militares que ele denomina de Partido Militar que “é hierarquizada, disciplinada, coesa, forte, ou seja, usa armas, e tem características autoritárias, de autoridade próprias da vida militar, e um projeto político de poder”.

O coronel afirma que os militares que embarcaram no governo Bolsonaro fazem parte deste grupo que se consolidou nos últimos anos e tem uma mesma base ideológica. A figura de Jair Bolsonaro entre os militares já era conhecida pelo seus 27 anos como deputado federal, bem antes de 2018. Pimentel considera que Bolsonaro seria um sintoma do fenômeno Partido Militar e foi utilizado para um projeto que se desencadeou em 2014 quando a ex-presidente Dilma Rousseff (PT), militante contra a ditadura, foi reeleita.

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“Quando a presidente Dilma resolveu fazer a Comissão Nacional da Verdade, durante o seu primeiro mandato, causa ainda mais insatisfação, principalmente porque a geração do capitão Bolsonaro, dos anos 70, começava a chegar ao alto comando do Exército, da Marinha e da Aeronáutica”, explica. Outros dois fatos ligados à segurança pública são destacados por Pimentel para esclarecer esse protagonismo político dos militares: a participação do Exército nas missões da ONU no Haiti e, posteriormente, as operações de Garantia da Lei e da Ordem (GLO) no Brasil.

O futuro dos militares e da política

No fim de julho, a crise política e militar ganhou um novo capítulo após o jornal Estado de S.Paulo revelar que o Ministro da Defesa Braga Netto, um dos generais mais próximos do presidente, teria mandado um recado ao presidente da Câmara Arthur Lira (PP-AL) condicionando as eleições de 2022 à aprovação do voto impresso.

Os sucessivos episódios de crise da política brasileira, para Pimentel, mostram que o Brasil vive um “estado de crise” com o governo Bolsonaro desde o dia primeiro de janeiro de 2019. O próprio governo criou uma crise entre ala militar e ala ideológica que, segundo Pimentel, é uma dicotomia inexistente alimentada pela mídia.

“A maior ala ideológica, se houvesse essas duas alas [no governo], seria justamente a ala militar. E se há essa ala, a ideologia é derivada da experiência do protagonismo militar nos 21 anos de ditadura. A representação maior dessa ideologia é o próprio capitão Bolsonaro que é um oficial do Exército e representa muito bem o pensamento político dessa geração”, ressalta.

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No ponto de vista de Pimentel, o próximo passo do grupo que compõe o chamado Partido Militar está em “se manter no poder, seja pela dita primeira via, isto é a continuidade do governo, seja pela oposição de centro-direita ou de centro que é chamada de terceira via”. O poder político de oficiais se encontra em diversas áreas do governo, com destaque para o Ministério da Saúde, que já foi comandado pelo general da ativa Eduardo Pazuello, centro da crise sanitária e das investigações da CPI da Covid.

O desgaste da imagem dos militares na atuação durante a pandemia reforçou a aproximação ideológica com o presidente Bolsonaro. “Essa imagem está arranhada e vai ser necessário recuperá-la. As Forças Armadas não podem ter imagem ruim pois quando precisamos mobilizar o país para enfrentar uma ameaça real à nossa soberania, será necessário a todos, de esquerda, de direita, os evangélicos, os católicos, os judeus, do candomblé etc”, observa.

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“O capitão Bolsonaro não enganou ninguém. Quem enganou foram esses generais que emprestaram o prestígio dos seus cargos e a sua bela história profissional para apoiar esta pessoa que esta se revelando como sempre foi”, completa Pimentel.

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