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‘Não aguento mais ver a gente sendo morto todo dia’, diz manifestante em ato antirracista

08/06/20 por Caio Castor, Flávio Galvão e Pedro Ribeiro Nogueira

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Em SP, protestos lembraram das mortes de pessoas negras, como João Pedro e Ágatha, mortos em ações policiais no Rio, e Marielle Franco, assassinada há 2 anos

“Eu tô aqui porque vidas negras importam. Não aguento mais ver a gente sendo morto todo o dia”, afirma a enfermeira que se apresentou apenas como Cláudia. Essa foi a bandeira predominante no ato puxado por diversos movimentos sociais, unificando a pauta antirracista e antifascista. Muitas bandeiras pela democracia e contra Bolsonaro também tremulavam na manifestação.

Por imposição de uma decisão judicial, o ato não pode acontecer na avenida Paulista e foi deslocado para Pinheiros, na zona oeste da cidade de São Paulo, neste domingo (7/6). Na Paulista, alguns bolsonaristas ficaram em frente ao prédio da Fiesp, pediram intervenção militar e a criminalização do comunismo. A reportagem observou que o policiamento era intenso na região e pessoas estavam sendo revistadas pela PM indiscriminadamente.

Foto: João Leoci/Ponte Jornalismo

No Largo da Batata, uma multidão de pessoas se reuniu com punhos cerrados e pediu um basta à violência de Estado. Em jogral, manifestantes foram lembrando de mortes de pessoas negras, como João Pedro, morto aos 14 anos, dentro de casa com um tiro de fuzil durante uma operação da Polícia Federal no Morro do Salgueiro, Ágatha Felix, morta no Complexo do Alemão, e a vereadora Marielle Franco, fuzilada no centro da cidade do Rio de Janeiro, em 14 de março de 2018.

Manifestantes cobraram: “Quem mandou matar Marielle?” | Foto: João Leoci/Ponte Jornalismo

“O Estado brasileiro não pode continuar ceifando vidas negras, o atual Estado fascista é apenas uma resposta estrutural por um processo de descaso com a população negra que existe desde o fim da escravidão, da falsa abolição, que continuam nos matando até os dias de hoje”, declarou à Ponte o manifestante Gabriel Prado, bacharel em Direto pela USP e que participava do protesto com as mãos pintadas de vermelho, justamente para denunciar o genocídio da população negra e periférica.

Leia também: Protesto antirracista e contra Bolsonaro em SP termina com bombas e pelo menos 32 detidos

Nomes importantes do rap como Mano Brown. Dexter, Big da Godoy e Thaíde, e algumas figuras políticas do campo progressista, marcaram presença.

Na saída da estação Faria Lima do metrô de São Paulo, uma iniciativa chamou a atenção dos presentes: um ponto de higienização feito por profissionais da saúde e outros voluntários com álcool em gel e distribuição de máscaras para os participantes do protesto. “É difícil como médica, mas vivemos a iminência de um golpe”, disse Mariana Pércia para a reportagem.

Ponto de higienização na saída do metrô Faria Lima | Foto: João Leoci/Ponte Jornalismo
Protestar sem esquecer a prevenção: voluntários distribuem máscaras e orientam participantes a se prevenir da Covid-19 | Foto: João Leoci/Ponte Jornalismo

De acordo com a Secretaria de Segurança de São Paulo, 32 pessoas foram detidas ao longo do dia. A PM informou que com os detidos foram encontrados objetos como desodorante, garrafas, óleo de cozinha, que seria usados para fabricar coquetel molotov. Até mesmo um planfleto do MPL (Movimento Pase Livre) do início deste ano foi usado de desculpa pelos policiais para levarem um jovem “para averiguação”. Na rua dos Pinheiros, já no final do ato, a PM bloqueou a passagem pela via e lançou bombas de gás lacrimogêneo para dispersar as pessoas.

Entregadores de aplicativo também se uniram ao protesto denunciando as condições precárias de trabalho e o contexto social e racial que os colocam em condições de alto risco durante a pandemia. “A gente não pode ter medo deles. Eles têm que estar aqui para nos proteger”, gritou um deles durante um momento de tensão entre o cordão de manifestantes e o Choque da PM, que recebeu vaias e panelaço de moradores da região.

Choque da PM na rua dos Pinheiros | Foto: João Leoci/Ponte Jornalismo

Cerca de três horas depois do fim do protesto, policiais foram filmados abordando com violência pessoas nas ruas de Pinheiros, muitas delas que tinham saído do protesto no Largo da Batata. Para o consultor voluntário da Educafro e doutorando e Mestre em Direito Processual pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Irapuã Santana, a atuação das polícias neste ato em comparação ao que ocorreu no domingo passado (31/5), “mostra o Estado atuando com dois pesos e duas medidas”.

Irapuã questionou as detenções para averiguação e o episódio do panfleto. “Não faz o menor sentido criminalizar ou colocar o panfleto como prova de que a pessoa estava cometendo crime, é liberdade de expressão”, pontua.

Irapuã comparou a cena que foi gravada de uma mulher bolsonarista com taco de beisebol sendo escoltada por um PM, no protesto do último domingo. “Eles até explicaram que houve reclamações em relação a isso e que atuariam com mais rigidez, mas sabemos que atos que falam da questão racial no Brasil são sempre mais duros do ponto de vista da repressão policial”, afirma. “É lamentável você aplicar a lei apenas para um dos lados”.

Sobre as ações policiais, o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), em coletiva sobre o coronavírus nesta segunda-feira (8/6), elogiou o trabalho da polícia nos atos do domingo e atribuiu à ação de “baderneiros” as situações de violência ocorridas.

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“As manifestações ocorreram de forma democrática e em paz. Apenas no Largo da Batata, após o término da manifestação e sem anuência dos que organizaram o protesto, cerca de 60 baderneiros percorreram as ruas do bairro de Pinheiros com a deliberada intenção de vandalizar. A polícia agiu de forma correta evitando danos ao patrimônio privado e público”, declarou.

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