‘Não se trata de tacar fogo, mas de deixar queimar’

    Para produtores do documentário ‘Limpam com fogo’, incêndios em favelas de São Paulo têm ligação direta com especulação imobiliária

    Não é a primeira vez que uma construtora paga do próprio bolso para “limpar” favelas próximas a seus empreendimentos. Para os produtores do documentário Limpam com Fogo, que ainda está em fase de finalização, Conrado Ferrato e Rafael Crespo, não é possível dissociar incêndios em favelas de São Paulo e especulação imobiliária.

    Reprodução/Limpam com Fogo
    Reprodução/Limpam com Fogo
                             [alert type=”e.g. block, error, success, info” title=””]       “Pode-se afirmar que há uma relação direta entre incêndios em favelas e a especulação imobiliária.As comunidades que estão localizadas em terrenos de maior valor são, em geral, as que mais sofrem com o fogo. No caso da favela da Fazendinha, a construtora agiu diretamente para a retirada daquela comunidade do local onde estavam anteriormente”,  Rafael Crespo.[/alert]

    Para Ferrato, “o que existe é um mecanismo sutil operando em silêncio para garantir que comunidades pobres não se estabeleçam nas regiões mais valorizadas da cidade”, diz. “O que garante que vai haver um incêndio e que ele vai ser severo é a débil condição construtiva das favelas. Pequenos acidentes com fogão ou velas, que renderiam sustos e prejuízos localizados em construções da cidade ‘legalizada’, podem render tragédias de grandes proporções em favelas. É aí que entra a especulação imobiliária”.

    Reprodução/Limpam com Fogo
    Reprodução/Limpam com Fogo

    Conrado diz que os bairros que se valorizam atraem mais interesses. E esses interesses se traduzem em maior demanda por melhorias de mobilidade, lazer e segurança. “Quase sempre isso se traduz em uma vigilância sobre as favelas da região. Essa vigilância impede a consolidação dessas comunidades, com construções de materiais mais seguros como acontece nas periferias. Não se trata de tacar fogo, mas de deixar queimar”, afirma.

    [alert type=”e.g. block, error, success, info” title=””]“Empresas como a Cyrela, que se beneficiou diretamente da remoção da favela da Fazendinha, pagou do próprio bolso a retirada dos moradores, foi auxiliada pela subprefeitura na negociação e ainda saiu como benfeitora, aos olhos do poder público”, Conrado Ferrato.[/alert]

    Segundo dados da prefeitura, de 2008, a estimativa da população moradora de favela em São Paulo é de mais de 1,5 milhão pessoas, ou seja, 14% da população total do município. O número não inclui moradores de cortiços, ocupações e outras moradias subnormais. “A cidade encara, de braços cruzados, a situação de ter um sétimo dos paulistanos convivendo com a possibilidade real de que a qualquer momento um incêndio pode destruir a vida deles, enquanto as ações necessárias para contornar a situação são barradas para garantir o lucro e um setor da economia”, finaliza Conrado.

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