Nunca Mais?

16/07/15 por Maria Teresa Cruz

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Documentário Coratio, sobre o livro Brasil: Nunca Mais, estreia no ano em que a publicação que abriu os documentos da ditadura pela primeira vez completa 30 anos
Cartaz do filme que coloca logo no título a dualidade entre razão e emoção

Cartaz do filme que coloca logo no título a dualidade entre razão e emoção

Uma inquietação diante do desconhecimento da população média com relação ao conteúdo e a história da publicação “Brasil: Nunca mais” foi uma das motivações para que os diretores Ana Castro e Gabriel Mitani contassem a história desse livro em “Coratio”, que teve a primeira exibição realizada no emblemático Memorial da Resistência, no início de julho.

Emblemático porque o museu fica no prédio onde na época da Ditadura (1964-1985) funcionou o Deops, o Departamento Estadual de Ordem Política e Social de São Paulo, que existiu entre 1940 e 1983. Em 1985, o Brasil: Nunca Mais, fruto do trabalho de um grupo que resistiu ao regime ditatorial e que teve o apoio e ação direta de membros progressistas da Igreja – com destaque para Dom Paulo Evaristo Arns, da católica, e o reverendo Jaime Wright, da presbiteriana –, era publicado.

O BNM examinou mais de 900 mil páginas de processos que corriam na Justiça Militar e que comprovavam, em depoimentos registrados oficialmente, que a tortura, a que muita gente se refere como prática dos “porões da ditadura”, era na verdade uma política de estado. Mas se engana quem pensa que o filme é simplesmente um memorando sobre o que passou. A primeira parte do filme é dedicada a ouvir vítimas da Ditadura e essas vozes da resistência que, clandestinamente, se debruçaram nos documentos por mais de 5 anos, vivendo sempre sob o risco de serem descobertos pelo regime. Ao longo de 30 anos, 19 novas edições do BNM chegavam ao mercado e embora milhares de pessoas tenham lido e discutido o assunto na época, hoje em dia perdeu força, a ponto de muita gente não ter a mínima ideia do que é Brasil: Nunca Mais. O conteúdo do livro foi digitalizado e está disponível em http://bnmdigital.mpf.mp.br/

A segunda parte do longa cria um diálogo com a primeira ao mostrar os movimentos de resistência atuais, especialmente os que vêm denunciar o genocídio contra a população negra, pobre e jovem. Os entrevistados são pesquisadores – um deles o jornalista da Ponte Jornalismo e integrante do Núcleo de Estudos da Violência da USP Bruno Paes Manso – que buscam entender o fenômeno da violência da polícia atual – dividida, tendo um braço civil e outro ainda militar – e o lado mais frágil dessa cadeia – que, paradoxalmente tem uma força indiscutível no discurso – que são as “Mães de Maio”, grupo de mulheres que perderam os filhos naquele maio de 2006, em São Paulo. A expressão resistência seguida de morte, muito comum nos inquéritos policiais atuais, é o eco de um passado em que aniquila aquele que incomoda em nome da “ordem” e pela “segurança nacional”.

“Coratio” coloca as duas faces de um mesmo problema, da violência injustificável e sustentada por uma visão de mundo distorcida e vingativa. A importância desse preâmbulo é trazer a luz uma discussão que de passado não tem nada. Como o próprio Dom Paulo Evaristo Arns costumava dizer quando falava do BNM: “Para que não se esqueça. Para que nunca mais aconteça”. E esse nunca mais é, infelizmente, ainda uma voz utópica e que resiste como catalisador para mudanças que se mostram urgentes.
O documentário Coratio, dos diretores Ana Castro e Gabriel Mitani, foi realizado com financiamento coletivo da plataforma Catarse e ficará disponível, dentro de alguns meses, na internet para download gratuito. Antes disso, os diretores pretendem fazer exibições em universidade e escolas, mas ainda não há um calendário fechado. Quer ver o trailer? https://www.youtube.com/watch?v=vG3y3VoAjGc

A Ponte Jornalismo bateu um papo em uma sala virtual via Facebook, onde a reportagem e os diretores puderam colocar as impressões com relação ao documentário simultaneamente. Confira:

No dia da exibição, sábado (dia 4/7), vocês citaram algo que me chamou a atenção, algo como a justificativa para a razão de existir o Coratio, que é um desconhecimento geral do que foi Brasil: nunca mais. Ana e Gabriel, quando vocês conheceram/leram o Brasil: Nunca mais?
Ana Castro – Eu conheci adolescente, li quando tinha uns 16 anos, por influência dos meus pais. E agora uso a documentação produzida pelo projeto no meu doutorado. Mas só fui conhecer a história por trás do livro quando comecei a pesquisar para o doutorado.
Gabriel Mitani – Eu conheci por meio da Ana. Ela que me apresentou o livro pra sugerir de fazermos um documentário. Isso foi há dois anos, em 2013.
Então era uma inquietação inicial sua, né, Ana? E aí, Gabriel, quando Ana chegou com o desafio, como viu que ali tinha um potencial – e como – para fazer esse documentário?
Ana Castro – Isso, eu comecei a descobrir toda a história da clandestinidade para fazer o livro, fiquei encantada e ao mesmo tempo incomodada que ninguém sabia disso. E então fui conversar com o Gabriel.

Como vocês avaliam o que pensaram para o filme e o resultado final? O que mudou nessa caminhada, ou seja, do que pretendiam e do que conseguiram?
Gabriel Mitani – Eu vi nos bastidores do livro um roteiro de cinema. E achava que aquela história fantástica tinha que ser documentada. As pessoas precisam saber do que o BNM representou. Por que na escola eu nunca ouvi falar desse livro?

Fiquei pensando nisso também, Gabriel. É um poderoso documento – pouco utilizado até
Gabriel Mitani – Eu sempre me inquietei com o fato de só falarmos do passado. Achava que tinha que trazer pro presente, pra jovens como eu – e até pessoas mais novas – se comoverem e se instigarem.
Ana Castro – Outra preocupação nossa desde o começo era que o filme tinha que ter uma linguagem moderna, que fizesse as pessoas mais jovens se interessarem.

Isso é muito importante mesmo, Ana. E creio que vocês conseguiram. O Vannuchi (ex-ministro da pasta de Direitos Humanos do governo Lula e jornalista Paulo Vannuchi é um dos entrevistados do filme e participou da elaboração do livro) mesmo falou em ter “cinema” ali. Tem muito. Tem uma história, mas tem um discurso na montagem, nas escolhas…
Gabriel Mitani – Quebramos muito a cabeça pra conseguir ligar todos os pontos.
Ana Castro – A gente fez algumas entrevistas e acabou não usando. Foi dolorido cortar muita coisa, mas acho que valeu a pena. Já tínhamos o filme montado e resolvemos começar do zero, de novo. O Gabriel passou madrugadas quebrando a cabeça para montar daquele jeito.

Mas o roteiro foi se construindo durante e após a captação? Ou quando vocês começaram a se debruçar sobre o tema, já sabiam a linha narrativa a ser adotada?
Gabriel Mitani – Não, não sabíamos. A Ana produziu tudo. As entrevistas estavam mapeadas. Mas depois das entrevistas é que nos debruçamos sobre a montagem e o roteiro.

Quantas foram no total?
Ana Castro – Fizemos as entrevistas, algumas bem longas e depois começamos a pensar na forma.
Gabriel Mitani – umas 25 entrevistas, né Ana? Para mais.
Ana Castro – Acho legal dizer que o documentário foi se fazendo no caminho. Um entrevistado dava a dica de outro, de algum texto, de alguma linha que estávamos esquecendo. Foi importante não sair de cara com algo já pronto, mas estar aberto ao que iríamos ouvir.

Até porque muita gente pode imaginar uma sistematização. Mas a história vai se construindo com a engrenagem funcionando né? E aí nesse sentido, chegaram a um conceito que está explícito no título. Eu tenho uma percepção do título, já digo a vocês. Mas antes quero que vocês digam: qual o sentido de colocar a dualidade razão e emoção, ao batizar o documentário de Coratio? Onde veem ali a as tintas mais fortes da razão e onde as da emoção? Elas estão claramente definidas como “personagens” no filme?
Ana Castro – Algo que eu queria desde o começo era fazer algo que tocasse as pessoas, que quem assistisse se colocasse no lugar do outro, tivesse empatia. Para isso a gente precisa de emoção. Mas também queríamos um debate, com dados, com informações que fizessem as pessoas refletirem Dados concretos sobre a nossa realidade.
Gabriel Mitani – Não sei se personagens, Maitê. Mas coragem, razão e emoção estão nos depoimentos de todos. Está na história do Brasil: Nunca Mais. Está na história das Mães de Maio, que também abordamos no filme. Está no sangue de quem foi torturado, de um ex-policial que investiga a corporação…

Isso senti mesmo, tanto que as lágrimas foram inevitáveis em algumas delas.
Ana Castro – Exatamente… A emoção e a razão estão em todas as entrevistas.

Eu acho que a Ditadura é a razão, sabia? E a resistência é a emoção, mas é uma leitura de quem assistiu ao filme, de fora. Chegou às minhas mãos nessa semana, coincidentemente, a biografia do Cabo Anselmo. Na segunda, acreditem. Aí lembrei do filme Orestes, vocês viram esse trabalho do Rodrigo Siqueira?
Ana Castro – Eu ainda não vi. Antes de parir o filme, tinha acabado de parir meu filho! hahahahaha

Dois filhos então muito próximos, Ana.
Gabriel Mitani – Eu vi só o trailer, fiquei muito curioso.

Ele adota um discurso muito semelhante ao de vocês, aí fiquei pensando nessa necessidade de apontar as semelhanças do que passou com o que vivemos hoje. A Eny Moreira (ex-presa política, torturada e uma das idealizadoras do BNM) em algum momento fala sobre isso no filme de vocês. De a ditadura ter a tortura institucionalizada. Eu vejo que a polícia hoje tem a chancela da tortura também. Será que há tantas diferenças no ontem e no hoje? Estão mais na linha de pensamento da Eny ou na minha?
Gabriel Mitani – Na da Eny.

Por que?
Ana Castro – Na época da ditadura era uma política de Estado. Os mais altos comandos sabiam, davam aval e incentivavam a prática dentro da lógica da Lei de Segurança Nacional.

Evidentemente os tempos são outros. Mas a institucionalização da tortura, a permissão, ela existe. E, assim como Cabo Anselmo – lembrando essa leitura minha do inicio da semana – dizia que estava fazendo o bem para a pátria, no discurso do policial também tem essas tintas. De estar fazendo o “certo”….
Ana Castro – Hoje é uma questão de omissão do Estado. O Estado sabe o que acontece e se omite.
Gabriel Mitani– Hoje é tudo muito velado. Na ditadura também era velado, mas tinha um quê de “oficial”. Todos sabiam, mas não tinha o que fazer, digamos assim. Hoje é na base da ilegalidade. Existe a violência do estado e do sistema, mas muita gente simplesmente não vê. Não acredita.

Mas acham que hoje não? Acham que o secretário de segurança pública não sabe? Os desmandos das polícias não têm anuência, lá no íntimo, ao menos na construção da mentalidade, do governador?
Gabriel Mitani – E se você parar pra pensar, hoje temos instrumentos pra denunciar, pra processar, pra acabar com isso.

Temos? E na sua visão são eficientes?
Ana Castro – Acho que é mais uma questão de semântica. É claro que o Estado sabe e, se quisesse, poderia interromper o ciclo. Mas não é uma política deliberada do Estado.
Gabriel Mitani – Opa. No papel, temos. A Corregedoria, o Ministério Público. A democracia, no papel, oferece diversos instrumentos pra denúncia, para que a lei se cumpra.
Ana Castro – A grande questão é que hoje esses crimes atingem uma parcela da sociedade que é praticamente invisível.

As Mães de Maio podem ser colocadas como local de resistência?
Ana Castro – As Mães de Maio são a maior resistência contra esse genocídio.
Gabriel Mitani – Sim! Eu vejo as Mães de Maio sendo sistema destruindo o sistema.

Mas a lei se cumpre? Pergunto, porque, por exemplo, as Mães de Maio são um exemplo disso, mas qual a imprensa que deu voz a elas? A imprensa tem uma formação de discurso que corrobora com essa tortura que continua endossada, até pelo estado…
Ana Castro – Eu vejo um movimento muito forte na periferia. Ele está crescendo e ganhando força, espaço na mídia.
Gabriel Mitani – Eu acho que a própria imprensa está se esgotando como modelo. Internet, redes sociais estão aí pra confrontar as versões oficiais.
Ana Castro – Mas acho, graças a internet, temos outras formas de dar visibilidade que não seja através da mídia.

Também vejo, Ana. E acho lindo e importante. Mas qual a mídia?
Ana Castro – Uma mídia ainda marginal, mas que também cresce.

De acordo. Mas continuando a falar da formação de discurso. Vocês já se deram conta que o filme de vocês também pode servir a isso?
Ana Castro – O Emicida lançou um clipe há uma semana. Achei algo sensacional. Mostra a revolta das pessoas que sempre sofreram. Acho que essa revolta está perto de se realizar.
Gabriel Mitani – Com certeza. Somos produtor e produto.

Uma resistência.
Ana Castro – Se o documentário ajudar a aumentar o debate, acrescentar informação de qualidade para as pessoas, já vou me sentir realizada.

Qual a semelhança para vocês do desejo de produzir o Brasil: nunca mais, lá atrás, e essa panela de pressão citada por você, Ana, ou ainda esse copo que está transbordando? Tem alguma semelhança, melhor dizendo?
Ana Castro – Acho que são várias, mas também há diferenças importantes. O nosso trabalho não foi clandestino. Contamos com a colaboração de 199 pessoas que também demonstraram que se interessam por essa história.
Gabriel Mitani – Incomparável o nível de coragem deles e o nosso. Hoje temos muitas formas – e liberdade – pra criar. Eles fizeram isso há 30 anos com medo de prisão, tortura, morte. Mas se formos pegar a indignação e o fato de querer transformar a realidade por meio da informação, sim, vejo semelhança.
Ana Castro – A tortura e a violência da ditadura estavam sendo cada vez mais explicitadas com a anistia e abertura. Mas a violência de hoje é infinitamente maior. Estamos matando uma geração de homens negros e jovens. Estamos alijando famílias.

Tem um copo transbordando do outro lado também, não acham? O de movimentos insanos pedindo a volta da ditadura, até mostrada no filme, que traz imagens da Marcha com Deus organizada pela TFP. Por que acha que isso está acontecendo? Desconhecimento ou má fé?
Gabriel Mitani – Gostaria de acreditar que fosse só desconhecimento. Mas lá no fundo, no fundo, também vejo má fé.
Ana Castro – Acho que tem de tudo. A gente mesmo comentou aqui que nas escolas não aprendemos nada sobre o período da ditadura.

E qual dos copos sentem que vai transbordar primeiro: o citado pela Ana, colocando como exemplo o Emicida, ou esse aí, que a gente viu mostrar os dentes mais fortemente nesse ano?
Ana Castro – As pessoas acreditam no mito que na época da ditadura não tinha corrupção, a economia estava bem, que só apanhou quem era bandido. Foi isso que elas aprenderam. Ao mesmo tempo hoje temos muitas fontes de informação e quem quer saber mais e melhor, consegue. Então aí eu vejo má fé… ou ignorância. Falta de vontade de compreender a história real do nosso país.
Gabriel Mitani – Difícil prever, mas acho que tudo tende a convergência em algum momento. Os ratos saem do porão, mas também voltam e precisam sobreviver.

E vocês, no meio das 25 entrevistas, falaram com pessoas da ditadura. Ou assumiram o discurso, a perspectiva de – de certa forma – escolher um lado?
Gabriel Mitani: Não ouvimos. Eu sou jornalista, trabalho em redação. Sempre tenho que ouvir os dois lados. Por que como documentarista não posso assumir um lado?

Perfeito (risos). Precisamos, creio que cada vez mais, em tempos sombrios, assumir um lado. E você, Ana?
Ana Castro – Não falamos com ninguém. Até chegamos a vislumbrar a possibilidade. Mas no fim assumimos o nosso lado.

E, por fim, faltou alguma coisa no filme? Algo que queriam e não conseguiram ou algo que viram e deram por falta só depois na fase de montagem do documentário?
Ana Castro – Não é uma reportagem. Até porque há mil lados possíveis. Mas assumimos que o filme é a favor da vida, sem justificativa para violência.

Assim como os caras do lado da ditadura de ontem, ou da polícia que mata hoje, também assumem e muito o lado deles.
Ana Castro – Eu acho que o filme está redondo. Eu gostaria muito de ter ouvido o Dom Paulo Evaristo Arns. Tentamos muito. Acho que ele é a maior falta. Mas hoje acho que o filme é esse. Nada falta.
Gabriel Mitani – Poxa, eu senti falta do Frei Betto – que não grava entrevista com imagens – e também do Dom Paulo, o grande articulador do BNM. Ele está muito debilitado, até onde sabemos. Bem que tentamos. São duas pessoas fantásticas, iluminadas. Agregariam muito. Mas concordo: o filme é esse. Está redondo.

E vocês tem uma visão até cordata da mídia tradicional, que também assume o discurso do inimigo a ser combatido…
Gabriel Mitani – Aí acho que é porque a mídia tradicional cai no erro de sempre ouvir os dois lados. Alguns meios, como a Vice, já ignoram essa lei. Ela pode ser ótima pra maioria das coberturas. Mas em alguns casos, acho que não.
Ana Castro – Acho que a mídia somos nós, né? A gente tem que se assumir como mídia e também ter o nosso discurso. A grande mídia é essa que está aí, mas nela também há pessoas que pensam diferente.

Aliás, vocês veem uma solução a curto prazo para o Genocídio nas periferias? Desmilitarização da polícia, tema até abordado no filme? Começar do zero? Como?
Ana Castro – A curto prazo, não. Mas acho que se a população da periferia fizesse um levante contra esse genocídio não teria como ser ignorado.
Gabriel Mitani – Pra mim, só a informação e a discussão ampla e irrestrita, como política de estado, para chegar a uma solução. Não adiantar olhar pra trás e tentar enxergar soluções no passado. Temos que olhar pra frente. Discutir. Usar as plataformas a que temos acesso pra encontrar soluções criativas, novas. Pra problemas novos. Acho que isso só rola a longo prazo. Mas tem que começar já.

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