‘O amor vai vencer o ódio’, gritam frentes evangélicas contra Bolsonaro

Centenas de religiosos foram às ruas de SP para gritar ‘ele não, eu sou cristão’; frentes reforçam que o discurso de ódio propagado pelo candidato não está no evangelho

Ato de evangélicos contra Bolsonaro | Foto: Fernando Martins/Ponte Jornalismo

Insatisfeitos e contrários às falas do presidenciável Jair Bolsonaro (PSL), religiosos de frentes evangélicas se juntaram para mostrar que o discurso aprendido no evangelho é diferente do que prega o candidato à Presidência da República. Com gritos de ‘o amor vai vencer o ódio’, ‘ele não’, ‘amor sim, ódio não’ e ‘ele não, ditadura nunca mais’, o ato aconteceu na noite de quinta-feira (25/10) na Avenida Paulista, em São Paulo.

Dezenas de pessoas foram às ruas demonstrar repúdio ao candidato do PSL e apoio ao seu adversário, Fernando Haddad (PT). O ato teve concentração no vão livre do Masp e, em seguida, caminhada até a praça dos Ciclistas, ambos na região da Avenida Paulista.

Para Heber Farias, 22 anos, um dos articuladores do ato, as frentes evangélicas sentiram necessidade de organizar um ato repudiando Bolsonaro, pois muitas pessoas começaram a seguir o discurso do candidato, que não está associado ao evangelho como prática religiosa, segundo diz.

Manifestantes levavam cartazes contrários a Bolsonaro | Foto: Fernando Martins/Ponte Jornalismo

“A gente se assustou com isso. Nascemos em igrejas pentecostais e fomos ensinados que ser um bom evangélico, por exemplo, é ir na prisão e passar o amor de Cristo para um preso. Quando vimos nossos irmãos falando que ‘bandido bom é bandido morto’ , vimos que precisávamos fazer algo enquanto evangélicos. Esse discurso não é unânime. Existe muito evangélico que não prega o ódio, prega o amor, que é o principal tema do evangelho. Só com o diálogo e com a prática do amor podemos mudar isso”, conta Heber, que também é integrante do Coletivo ‘O amor vence o ódio’.

Pessoas usavam adesivos contrariando discursos do candidato | Foto: Fernando Martins/Ponte Jornalismo

Para Mônica Francisco, pastora, pesquisadora, socióloga e ex-assessora da vereadora Marielle Franco, assassinada a tiros no Rio de Janeiro em março deste ano, lugar de cristão é entre os pobres, oprimidos e desapropriados. Nessas eleições, ela foi eleita deputada estadual pelo Psol-RJ.

“A importância de parte do corpo evangélico, da população evangélica, progressista, antifundamentalista, que respeita a vida, que respeita a humanidade e as liberdades individuais, civis e de expressão, é imensa. É fundamental e imprescindível que nós, cristãos, evangélicos ou católicos, saiamos às ruas para mostrar que nós não estamos alinhados com um discurso machista, de ódio, que promove a violência contra a população negra, contra as mulheres, contra a população LGBT”, declara Mônica à Ponte.

Mônica Francisco, ex-assessora de Marielle Franco, eleita deputada pelo RJ | Foto: Fernando Martins/Ponte Jornalismo

A pastora Alexya Salvador também esteve presente no ato. Com um discurso emocionante, muito aplaudido pelo público, Alexya relembrou que o Brasil é um país que causa medo em LGBTs. “Eu estar aqui hoje, diante de vocês, é histórico. Uma mulher trans, pastora, falando desse Deus que é amor. Nós vamos sim viver a liberdade que somos. Jesus foi torturado assim como minhas irmãs travestis ainda são. O Brasil é o país que mais mata LGBTs no mundo. Eu sou a primeira pastora trans, a gente sai de manhã e não sabe se vai voltar de noite”, disse Alexya.

Alexya Salvador, pastora trans | Foto: Fernando Martins/Ponte Jornalismo

Patrícia Carneiro, 21 anos, integrante do Movimento Negro Evangélico, acredita que nem a figura de Bolsonaro nem a da Bancada Evangélica, no Congresso Nacional, representam os ensinamentos cristãos. “A gente tá aqui hoje porque entendemos que a nossa fé não é conivente com nada que é pregado por Bolsonaro nem pela Bancada Evangélica. Eles não nos representam. Por isso que a gente tá aqui, pra defender o nosso Cristo. A maior parte dos cristãos que estão aqui aprenderam o ensinamento cristão corretamente, a gente pratica o amor ajudando as pessoas, vendo que é importante ter ações afirmativas, que é importante a gente ajudar o próximo não só com palavras, mas com atitudes”, conta Patrícia.

Foto: Fernando Martins/Ponte Jornalismo

O pastor Henrique Vieira contou à Ponte a importância do ato. “É um compromisso com o evangelho, com os valores do reino de Deus, um testemunho público de que a igreja de Deus precisa estar a serviço da vida, dos pobres e contra uma cultura de violência e ódio. Lamentavelmente, grandes lideranças religiosas têm se posicionado de uma maneira muito triste, mas nós estamos aqui como irmãos em Cristo para dar um testemunho público sobre os valores mais essenciais, como a produção da paz, a defesa da dignidade humana, uma cultura de não-violência e o compromisso com os pobres nesse país”, explica. “A campanha de Bolsonaro mostra tudo aquilo que o evangelho não é, ou seja, se distancia muito. Daqui para frente, haverá resistência, muita resistência, cada vez maior e não na evolução do ódio, e sim com amor”, entona Henrique.

Foto: Fernando Martins/Ponte Jornalismo

A produtora musical Michelle Serra, 33 anos, considera que Bolsonaro ainda não encontrou sua espiritualidade. “Ele usa o nome de Cristo que prega amor e ao contrário vai contra a palavra daquilo que a gente crê, que é a base do amor. O Senhor ensinou a amar o próximo como a ti mesmo. Acabamos nos unindo, pois a gente acredita que só o amor pode mudar tudo. Eu acredito que ele não tenha tido encontro com o Cristo de verdade. Os ataques são reflexo daquilo que ele fala”, garante Michelle.

Luiz Fernando, 66 anos, pastor da Igreja Metodista, relembra que a democracia está em risco. “A gente está observando manifestações de violência e de ódio cada vez mais presente. O amor tem que vencer essa onda de ódio, de preconceito, de racismo, de homofobia que está presente na nossa sociedade hoje. Por isso estou na rua, por isso acho importante e fundamental que o povo que acredita na democracia e no amor venha para a rua”, defende.

Foto: Fernando Martins/Ponte

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