O encontro de Débora, das Mães de Maio, com Rute Fiuza

15/05/16 por Por Arthur Stabile, especial para a Ponte Jornalismo, e Caio Palazzo

Compartilhe este conteúdo:

Negras, pobres e guerreiras, elas dividiram a mesa de debates que abriu o Primeiro Encontro Internacional de Vítimas do Estado, promovido pelo Movimento Independente Mães de Maio. Rute teve o filho desaparecido em ação da PM na Bahia

De um lado, dez anos de luta contra o genocídio da população preta, pobre e favelada. Vanguarda e inspiração para mães de todo o Brasil. Do outro, uma nova guerreira, que está apenas no começo de uma etapa na vida, brigando por Justiça após a morte do filho em Salvador. Débora Maria da Silva e Rute Fiuza têm em comum mais do que apenas a mesma guerra. Negras, pobres e guerreiras, elas dividiram a mesa de debates que abriu o Primeiro Encontro Internacional de Vítimas do Estado, promovido pelas Mães de Maio.

Os Crimes de Maio, série de ataques do Estado em represália à ofensiva da facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital) após transferência de seus líderes nas prisões paulistas, em 2006, vitimaram, em meio à quase 500 pessoas, Edson Rogério da Silva, filho de Débora. Ali começava a luta da mãe que virou símbolo do movimento. São protestos, palestras e apoio a outras mães, um trabalho diário que não tem hora para acabar. Mas, para ela, a única razão que a fez entender a perda.

20160512-DeboraeRute-Arthur
Rute Fiuza (à esq.) e Débora, das Mães de Maio, durante encontro em SP | Foto: Caio Palazzo/Ponte Jornalismo

“Este movimento é o ar que respiro. Já são 10 anos de caminhada. Não vendo Justiça para as mães que pretendem brigar pelos filhos desaparecidos ou mortos. Eu vendo luta. Vamos lutar, sim, até o fim, e juntas. Mostro à elas qual o caminho a seguir. É a experiência que juntei nesse tempo”, descreve Débora, quando questionada sobre o suporte dado por ela, representando a liderança das Mães de Maio, à outras mães cujos filhos foram vítimas.

Rute está neste grupo. Seu único filho, Davi, desapareceu em outubro de 2014 após ser abordado por um grupo de 23 policiais de Salvador, capital baiana. Nascido em outubro de 1998, o garoto tinha 16 anos. Até hoje o seu paradeiro não foi explicado. Fato que fez Rute ir para a luta após encontrar-se com Débora.

“Eu digo que meu filho viveu um holocausto. Foram 23 homens contra ele, uma verdadeira barbárie. Só consegui seguir em frente na luta pela Débora, que me mostrou como brigar por Justiça. É um caminho longo”, comenta Rute, que veio da Bahia para representar o grupo nacional das Mães de Maio no Encontro. Foram três dias de debates, oficinas e atos culturais para relembrar os dez anos dos Crimes de Maio.

Comentários

Comentários

Compartilhe este conteúdo: