O que já se sabe sobre o assassinato de Marielle e Anderson

23/03/18 por Maria Teresa Cruz

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Nove dias após as execuções da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, a polícia ainda não encontrou suspeitos; veja seis elementos da investigação que já vieram a público

Marielle na campanha contra o assédio no carnaval | Foto: Reprodução/Facebook

Marielle Franco e o motorista Anderson Pedro Gomes foram mortos na quarta-feira (14/3), quando a vereadora do PSOL tinha acabado de deixar a Casa das Pretas, na Lapa, no centro da cidade do Rio de Janeiro, onde participava de um evento justamente sobre o que era a razão de sua militância: negritude, violência policial e os direitos humanos dos marginalizados. Eram pouco mais de 21h, quando Marielle, a assessora dela e o motorista deixaram o evento e seguiram para o carro. Imagens de câmeras da rua conseguidas pela TV Globo mostram que havia um carro logo atrás que sai segundos depois da partida do veículo da vereadora.

Até agora, a polícia não encontrou suspeitos nem de terem sido mandantes nem de terem executado o crime. O alvo era Marielle e Anderson teria morrido apenas por causa do ângulo dos disparos, dados de trás para frente. Ela foi atingida quatro vezes na cabeça quando o carro seguia pela rua João Paulo I, no Estácio. Uma das linhas de investigação é que a morte tenha ligação com milícias. Além do ativismo pró-direitos humanos, antes de ser vereadora, Marielle foi assessora do deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL) na CPI das Milícias, que completa dez anos em 2018. A polícia ouviu, essa semana, mais uma vez a assessora da parlamentar e outras pessoas ligadas a ela, como o próprio Freixo, para tentar desvendar a real motivação do crime.

Na esteira das investigações, surgiram inúmeras notícias falsas a respeito do passado de Marielle Franco como uma tentativa de desqualificar a militância e, de certa forma, encontrar justificativa para culpar a vítima pelo crime. Parte dessas informações foram inventadas pelo deputado federal Alberto Fraga (DEM) e chanceladas por outras pessoas, desde cidadãos comuns que repassaram em grupos de whatsapp as fake news, até gente do judiciário, como a desembargadora Marília Castro Neves, que chegou a dizer que Marielle era “engajada com bandidos”, em postagem nas redes sociais. Embora tenha dito, depois, que não checou as informações, entrou na mira do CNJ (Conselho Nacional de Justiça) que está apurando o comportamento dela. Desde invenções sobre a maternidade até um suposto relacionamento com o traficante Marcinho VP entraram nesse grande caldeirão de mentiras. O PSOL, legenda da vereadora, criou um canal para receber as tais fake news e até o meio da semana tinham contabilizado 11 mil denúncias. O partido também entrou com representação no Conselho de Ética da Câmara dos Deputados para pedir a cassação de Fraga, que à exemplo da desembargadora, também disse que “faltou checar as informações”. Nesta sexta-feira (23/3), a Justiça determinou a retirada de pelo menos 16 conteúdos em vídeo no Youtube que propagavam mentiras sobre o passado da vítima.

Abaixo listamos seis informações sobre as investigações:

1. Dois carros participaram das execuções

A Polícia Civil do Rio de Janeiro, que comanda as investigações, informou que disparos partiram de pelo menos um carro, Cobalt com a placa de Nova Iguaçu, município da baixada fluminense. Os investigadores refizeram o trajeto da saída da Casa das Pretas até o local do crime e foram atrás de imagens de câmeras de segurança. No mesmo dia, a TV Globo divulgou parte dessas imagens que mostram esse veículo estacionado atrás do carro de Marielle. Na gravação, é possível ver quando a vereadora, a assessora e única testemunha do crime e o motorista saem do evento e entram no carro. Segundos depois, o Cobalt da seta, espero um outro carro passar, e sai. Logo depois, a polícia informou que havia um segundo carro envolvido, um Logan, que participou da perseguição. A polícia ainda informou que o Cobalt era clonado e que o veículo original também é da baixada fluminense. O carro em questão ainda não foi localizado. Não há imagens do momento dos disparos.

2. Treze disparos de pistola 9 mm e munição desviada

Os tiros que acertaram Marielle e o motorista foram de calibre 9 mm de um lote de munições que teria sido desviada em 2006. A informação exclusiva foi da TV Globo na sexta-feira (16/3). Os projéteis desse mesmo lote teriam sido usados na maior chacina de São Paulo, em agosto de 2015, quando 17 pessoas foram assassinadas em Osasco e Barueri. A venda desse calibre foi autorizada pelo Exército para uso pessoal de policiais fora de serviço em agosto do ano passado. Antes era de uso restrito da Polícia Federal e das Forças Armadas.

3. Ministro da Segurança Pública comete gafe ao afirmar que balas foram roubadas nos Correios

No mesmo dia a noite, Raul Jungmann disse em coletiva de imprensa que o lote UZZ-18, que deveria ter chegado à Polícia Federal, teria sido roubado na sede dos Correios na Paraíba. Na ocasião, Jungmann disse que essa o desvio dessa munição foi alvo de mais de 50 inquéritos, descartando a possibilidade de ter sido alguém das forças de segurança a atirar em Marielle. “Eu acredito que essas cápsulas encontradas na cena do crime foram efetivamente roubadas. Também tem a ver com a chacina de Osasco, já se sabe”, disse, referindo-se à morte de 17 pessoas pela Polícia Militar de São Paulo, ocorrida em 2015. De acordo com Jungmann, o carregamento das balas foi dividido em três partes: uma parte ficou em Brasília, a segunda foi roubada dos Correios no estado nordestino e outra, segundo informações preliminares, teria sido desviada por um escrivão da Superintendência da PF no Rio de Janeiro.

Acontece que no dia seguinte, sábado (17/3), os Correios desmentiram o ministro. Em nota, a empresa pública esclarece que “não há, no passado recente, nenhum registro de qualquer incidente dessa natureza e que está apurando internamente as informações”. Em outro trecho do texto, afirma que “não aceita postagem de remessas contendo armas ou munição, exceto quando autorizado por legislação específica. Neste caso, o tráfego, via Correios, de produtos controlados pelo Exército, submete-se às disposições estabelecidas no Regulamento para a Fiscalização de Produtos Controlados, conforme a Portaria nº 015/2009 – Colog/Ministério da Defesa”.

Na segunda-feira (19/3), o ministro extraordinário da Segurança Pública voltou atrás e chegou a dizer que Jungmann se referia a um roubo ocorrido no ano passado e enviou a seguinte nota:

“A Polícia Federal instaurou o inquérito policial 1909/2017 na delegacia de Campina Grande para apurar o arrombamento à Agência dos Correios de Serra Branca/PB ocorrido em 24/07/2017. O arrombamento foi seguido de explosão do cofre de onde foram subtraídos objetos e valores. Na cena do crime a PF encontrou cápsulas de munições diversas, dentre elas do lote ora investigado. O ministro não associou diretamente o episódio da Paraíba com as cápsulas encontradas no local do crime que vitimou a vereadora e seu motorista. Explicou que a presença dessas cápsulas da PF no local pode ter origem em munição extraviada ou desviada e informou que há outros registros de munição da Polícia Federal encontradas em outras cenas de crime sob investigação. O ministro citou os episódios da Paraíba e da superintendência do Rio, esta em 2006, como exemplos de munição extraviada que acabam em mãos de criminosos. A Polícia Federal prossegue no rastreamento de possíveis outros extravios”.

4. MP descartou federalização do caso

A procuradora-geral da União, Raquel Dodge, abre um procedimento para federalizar a investigação das mortes da vereadora e do motorista na quinta-feira após o crime (15/3). Em nota, Dodge chegou a informar que o secretário de Direitos Humanos da PGR, André de Carvalho Ramos, foi enviado ao Rio de Janeiro para acompanhar o início das investigações feitas pelo Ministério Público do estado. Na ocasião, salientou que o pedido de ajuda da PF não pretendia em nenhum momento desabonar a atuação da polícia civil local e que iria prestar apoio ao Departamento de Homicídios. Na sexta-feira (16/3), no entanto, o promotor Homero Freitas, titular da 23ª Promotoria de Investigação Penal, descartou a federalização da investigação. Em entrevista ao GLOBO, Freitas disse que “não existe qualquer razão para isso”.

Na quarta-feira (21/3), no entanto, Freitas solicitou ao procurador-geral de Justiça do Rio, Eduardo Gussem, o reforço de outros cinco promotores na investigação. O pedido foi atendido e passam a atuar no caso os promotores Alexandre Murilo Graças, Alexandre Themístocles de Vasconcelos, Luís Otávio Figueira Lopes, Marcelo Muniz Neves e Márcio José Nobre de Almeida.

5. Investigação vai à Câmara Municipal

Investigadores visitaram a Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro, onde Marielle cumpria mandato desde 2016, três vezes desde os assassinatos da semana passada. O objetivo é também avaliar as movimentações da parlamentar e de outras pessoas que possam ter alguma desavença com ela na Casa. No dia do crime, o Diário Oficial havia publicado a exoneração de quatro funcionários do gabinete da vereadora. No mesmo ato, ela realocou outros, com mudanças em cargos comissionados, segundo informou a Agência O Globo. Outras movimentações podem ter levantado suspeitas na polícia. De acordo com o The Intercept Brasil, o ex-vereador Cristiano  Girão, indiciado na CPI em que Marielle trabalhou, esteve na Câmara exatamente uma semana antes do crime, no dia 7/3, conforme registro interno da Casa.

6. Rastreamento de ligações de celulares e novas imagens

A Polícia Civil aposta em conseguir mais informações a partir da interceptação das linhas de celulares da região do crime. Segundo apurou a TV Globo, foram coletados informações de 26 antenas e os agentes estão analisando os sinais de celulares no percurso da Lapa até o Estácio. Também a Globo divulgou na quinta-feira (22/3) as últimas imagens de Marielle saindo da Câmara dos Vereadores, às 18h39, para ir para o evento, que deveria ter começado às 18h30. Do lado de fora, Anderson aparece entrando no carro e manobrando para Marielle entrar. Contudo, as imagens são inconclusivas no sentido de afirmar que a vereadora já estava sendo seguida quando saiu da Casa. Também, nessa mesma divulgação, foram exibidas novas imagens da rua dos Inválidos em que o Cobalt prata, até o momento apontado como o veículo de onde partiram os disparos, aparece reduzindo a velocidade perto do local do evento antes da chegada do carro onde estavam as vítimas. Um Logan, que seria o segundo veículo envolvido, aparece circulando pelo quarteirão várias vezes. A polícia quer saber se todas as imagens se referem ao mesmo carro.

 

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