Perseguição contra cabelo afro expõe face racista do mercado de trabalho

12/10/16 por Juca Guimarães

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Em São Paulo, funcionária grávida ouviu da chefe: “A verdade é que isso [penteado] não se adequa à sua função. Se fosse o [nome de outro funcionário negro] tudo bem. Mas na sua função, de líder, não cabe”

Enfermeira A. mudou o penteado e foi vítima de racismo em empresa - Foto: Arquivo Pessoal

Enfermeira A. mudou o penteado e foi vítima de racismo em empresa – Foto: Arquivo Pessoal

A ancestralidade e a beleza também estão nos cabelos. O cantor e compositor Chico Cesar, nascido em Catolé do Rocha, no interior da Paraíba, carregando uma bela herança africana nas veias, escreveu um canção com o título “Respeitem os meus cabelos, brancos”, onde a vírgula deixa bem evidente a intensão da letra que diz: ‘Respeitem os meus cabelos, brancos/Chegou a hora de falar/ Vamos ser francos/ Pois quando um preto fala/ O branco cala ou deixa a sala/ Com tamancos de veludo”.

A vida real, porém, é bem diferente dos versos da poesia. Há cerca de um mês, uma enfermeira de 28 anos, funcionária exemplar, líder de equipe e grávida de quatro meses, foi humilhada pela diretora da empresa onde trabalha porque estava usando um penteado afro. As tranças da funcionária A. , que lembram o estilo empoderado da cantora Beyoncé na capa do álbum Lemonade (2016), foram o motivo para a diretora N. F. O. C. , de 57 anos, destilar o seu racismo, respaldada, segundo ela, em regras da empresa que proíbem esse tipo de penteado.

“A verdade é que isso não se adequa à sua função” disse a diretora durante uma reunião, onde estavam presentes outras duas pessoas (M. que é enfermeira e G. que é ouvidora da empresa), referindo-se ao penteado afro que A. passou a usar. Anteriormente, ela fazia escova e tinha os cabelos lisos, mas quando engravidou decidiu abandonar os produtos de alisamento.

A reunião, com duração de mais de oito minutos, foi gravada para servir de prova em um possível processo criminal. No dia 17 de setembro, o boletim de ocorrência foi registrado no 2º DP (Bom Retiro) e a denúncia também foi protocolada no Núcleo Especializado em Defesa da Diversidade e da Igualdade Racial da Defensoria Pública do Estado de São Paulo, que vai acompanhar o caso.

Essa foi apenas uma das diversas ofensas raciais que A. e outros funcionários da empresa ouviram dessa mesma diretora ao longo dos últimos anos. Na manhã da reunião onde foi humilhada, a enfermeira já tinha sido ofendida, por isso, decidiu gravar o encontro seguinte com a diretora.

“Me senti horrível. Quando ela diz que minha aparência diminui a minha eficiência no trabalho e que eu tenho que me adequar para ser um exemplo pro meu filho, foi duro. Isso me matou por dentro. Como uma pessoa pode ser tão cruel?”.

A diretora N. afirmou também que a moça estava irreconhecível e que ela estava “arrependida” de tê-la promovido.

A. é enfermeira líder do setor de callcenter da empresa de serviço particular de ambulância e trabalha orientando as equipes de médicos e enfermeiros, tratando demandas administrativas de hospitais e convênios por telefone ou rádio.

A. entrou na empresa em janeiro de 2013, como enfermeira reguladora, e foi promovida ao cargo de chefia em junho de 2015. Segundo amigos e funcionários da empresa, ela é uma profissional esforçada, organizada, cumpre os horários, se veste de forma elegante e trata os colegas de trabalho com cordialidade e respeito.

Na reunião onde foi humilhada pela diretora ela  ouviu: “A verdade é que isso [penteado] não se adequa à sua função. Se fosse o [nome de outro funcionário negro] tudo bem. Mas na sua função, de líder, não cabe”, disse a diretora N.

“A inserção ao mercado de trabalho é um desafio para uma gama de pessoas pobres e pretas.  A expressão ‘boa aparência’ frequentemente é utilizada nas entrevistas e nas exigências de fotos nos currículos e nesse caso foi a mudança do cabelo. O que esconde ou revela atrás dessa exigência é o crime de racismo. Não dá para continuarmos pensando que vivemos num país democrático quando a população negra vive em desvantagens acumulativas nas garantias de seus direitos”, disse a advogada Dina Alves.

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Para a empresária Shirley de Souza, dona do salão Afro Zion, a aparência da enfermeira com as tranças segue uma tendência mundial que é adotada também por médicas, executivas, advogadas, entre outras profissionais de sucesso em todo mundo. “Estamos em 2016. Não entendo como um penteado pode ser argumento para julgar o desempenho profissional de alguém”, disse.

O advogado Estevão Silva avalia que a diretora executiva da empresa praticou um ato de racismo. “É de espantar a teoria diretora sobre a não aceitação da funcionária no mundo corporativo. Não que não exista este pensamento diabólico, mas ao externar essa ideia, a diretora o tira do mundo das possibilidades e assume o papel de autora, ou seja, um agente ativo”, disse.

Silva também destaca o tom usado pela diretora em parte da gravação. “Ela foi bem dissimulada ao falar tudo aquilo, mas em tom de conselho, falando sempre do que o mundo corporativo acha, tentando isentar ela própria e a empresa”.

A coordenadora do SOS Racismo, Eliane Dias, ficou chocada com o conteúdo do áudio. “Os racistas estão cada vez mais abusados. Infelizmente sabemos como essas histórias terminam. O objetivo é mexer com a autoestima, tirar o negro do mercado de trabalho, da faculdade e jogá-lo na margem”, disse Eliane.

Sobre o penteado, Eliane diz que não há razão para a empresa proibi-lo. “O problema não é o cabelo. O racista é que tem problema para aceitar a liberdade de cada pessoa. Não aceita a ousadia da moça e sua autoafirmação”, disse.

A coordenadora do SOS Racismo também lamentou que, por conta do desemprego recorde, as pressões racistas no mercado de trabalho estão cada vez mais evidentes. “Muitos negros e negras estão vivendo um dilema. São pessoas que se submetem porque precisam daquele emprego no momento, mas elas também estão lutando, um dia de cada vez. Se esforçando para melhorar de vida e ir para um trabalho melhor onde exista respeito e dignidade. É dever da sociedade se unir e combater juntos todas as formas de racismo, porque quem está lá sofrendo nem sempre tem condições de lutar sozinho”, disse.

O caso da enfermeira A. repercutiu muito nas redes e movimentos sociais. Foram muitas mensagens de apoio e relatos de negros e negras que também passaram por situações semelhantes. A mãe da enfermeira também desabafou após ouvir o áudio da reunião. “Até o meu neto que nem nasceu ainda foi citado”, lamentou.

A face racista no mercado de trabalho também aparece no processo de seleção. Em março, o jovem M. se candidatou a uma vaga para trabalhar no estacionamento de um hospital, na zona Sul de São Paulo. O anúncio da vaga foi feito na internet pela empresa terceirizada responsável pelo estacionamento. M. se classificou e fez todos os procedimentos de pré-contratação _entrevista, exame admissional e a abertura da conta salário no banco. No primeiro dia de trabalho, M., que usa cabelo rastafari, ouviu da coordenadora as seguintes frases:

“É rapaz só que com esse cabelo feio você não vai trabalhar aqui, não” e “você sabe que terá que cortar esse cabelo”.

O funcionário então disse que não sabia que cortar o cabelo era obrigatório, pois essa determinação não estava no processo de seleção. Porém, se era  essa a regra ele iria cortar o cabelo, pois precisava do emprego.

Por e-mail e depois por telefone, o jovem foi informado pela empresa que não seria mais contratado. O jovem fez um boletim de ocorrência e entrou com uma ação trabalhista contra a empresa. A audiência está marcada para junho de 2017.

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Outro lado
A empresa onde a funcionária foi discriminada existe há 17 anos e tem 500 funcionários. A reportagem da Ponte Jornalismo fez um pedido de entrevista com um representante dela para esclarecer a denúncia e explicar quais são as regras de postura.

Em nota, a empresa afirma que “não houve nenhuma prática de injúria racial, discriminação ou qualquer outra conduta contrária aos bons costumes. Jamais houve práticas de racismo contra a pessoa indicada ou qualquer outra, como certamente restará comprovado se houver apuração legal dos fatos”.

No entanto, eles comentam que “exigir posturas, condutas de aparência, apresentação, entre outros, não significa praticar racismo ou injúria, pois não se dá em relação a raça, religião, orientação sexual e afins, mas sim a todos os empregados de maneira igual”.

Essas são as perguntas  da Ponte Jornalismo sobre o caso que a empresa não quis responder:
– Desde quando existe um “protocolo” de racismo e discriminação velada dentro da empresa?

– Qual o impacto do penteado de uma funcionária no atendimento aos clientes? Num call center?

– Foi mesmo contratada uma empresa para treinar os funcionários? A diretora que discriminou a funcionária fez o curso?

– A empresa é da área de saúde, correto? Existe alguma etnia ou grupo social que a empresa recusa como cliente?

– Quais os critérios de promoção e plano de carreira adotados pela empresa?

– Existem canais internos para as reclamações dos funcionários? A empresa tem alguma política de melhoria da relação/colaboradores?

– A funcionária discriminada pela diretora está gravida, no quarto mês de gestação, e por recomendação médica não pode fazer tratamento químico no cabelo. A empresa sabe disso?

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