PM agride mestre de capoeira com filho de 5 anos no colo em SP

    “Eu estava com o meu filho no colo e muitos policiais, homens e mulheres, vieram para cima de mim. Um deles me deu uma gravata que machucou minha garganta”, denuncia Mestre Nenê

    Era por volta das 19h45 do dia 19 de agosto quando o capoeirista Valdenir Alves dos Santos, 45 anos, mais conhecido como Mestre Nenê, estava com o filho de 5 anos perto de sua casa, na região conhecida como Mangue, na Vila Madalena, zona oeste da cidade de São Paulo. O capoeirista conversava com amigos e seu filho brincava com outras crianças quando a tranquilidade foi interrompida pela presença de diversas viaturas da Polícia Militar.

    Com o barulho das viaturas, o filho de Nenê imediatamente procurou o colo do pai. De uma das viaturas, um policial militar branco desceu, sem se importar com o fato de a criança estar no colo do capoeirista, e foi na direção de Mestre Nenê, com uma arma apontada para eles. Os demais policiais também estavam armados. O PM exigia que o mestre colocasse a criança no chão para ser abordado. Ele se recusou “para me proteger e proteger o filho”, conforme relatou em um vídeo enviado à Ponte.

    Foi nesse momento que as agressões começaram. “O policial me abordou, rasgou meu casaco e me empurrou para a calçada”, narrou Nenê. “Eu estava com o meu filho no colo e de repente muitos policiais, homens e mulheres, vieram para cima de mim. Um deles me deu uma gravata [enforcamento] que machucou minha garganta”.

    Mestre Nenê foi agredido em abordagem quando estava com o filho no colo | Foto: Reprodução/Instagram

    Policiais militares estão proibidos de usar “chave de braço” (golpe de enforcamento) como técnica de imobilização em abordagens desde 31 de julho de 2020. A determinação interna foi assinada pelo subcomandante da corporação, coronel Marcus Vinícius Valério, que também veta uso do corpo para derrubar outra pessoa.

    Algemado, o capoeirista foi arrastado e colocado dentro da viatura. Os momentos de desespero durante a abordagem foram registrados pelas pessoas que ali estavam. Nenê grita perguntando do filho. “Nenhum superior desses soldados, homens e mulheres, mal preparados para nos contar o que estava acontecendo, apareceu”, continuou.

    Leia também: Proibir PM de dar golpe de enforcamento sem discutir racismo não reduz violência, afirmam especialistas

    De lá, foi levado para o hospital, já que estava com machucados causados pela agressão. Nenê conta que ficou dentro da viatura, escondido das pessoas que seguiram a viatura até o PS da Lapa, também na zona oeste. Quando foi questionada do local onde o mestre estaria, a PM informou que já estava dentro do hospital, mas Nenê estava na viatura.

    Nenê é mestre de capoeira | Foto: Reprodução/Instagram

    “Eu gritei e eles ouviram, falando que eu estava com as algemas muito apertadas. A médica viu que estava inchado meus pulsos e uma psiquiatra queria me aplicar uma droga que eu não sei o que é, como eu não quis essa droga me colocaram dentro da viatura”, explicou o capoeirista.

    Em toda essa ação, o capoeirista estava sem calças, apenas de cueca, já que sua calça foi arrancada na agressão da abordagem. “É uma situação muito ruim você estar algemado dentro de um hospital e ser maltratado pela psiquiatra, pelos policiais e por todo o sistema, de cueca, sem saber o motivo daquilo tudo”, lamentou.

    Só na delegacia o mestre soube o que estava acontecendo. Havia sido levado por suspeita de roubar um comércio na rua Wizard, a 700 metros de sua casa. Mas nenhuma das características do suspeito batia com as de Nenê. Segundo descreveu o delegado Mauro José Arthur, no 14º DP (Pinheiros), onde o caso foi registrado como desacato e abuso de autoridade, o suspeito estava “trajando roupa de motoboy e caixa ‘ifood'”.

    Apoie a Ponte!

    Em entrevista à Ponte, a advogada Vivian Oliveira Mendes, que cuida da defesa de Nenê, disse que a descrição que lhe foi dita na delegacia era de que o suspeito usava roupas escuras e não usava dreads. Nenê estava de roupas brancas e usa dreads. Esse suspeito foi preso na mesma rua onde Nenê reside.

    Apesar da descrição de Nenê de que haviam muitos policiais no local da abordagem, apenas os PMs Higor Alexandre Sivelli e Cleber Bezerra de Oliveira estão no boletim de ocorrências.

    Já em casa, o mestre Nenê lamentou o ocorrido. “É assim que o Estado nos trata. Meu filho tá traumatizado, minha comunidade traumatizada”.

    Outro lado

    A Ponte questionou a Secretaria da Segurança Pública e a Polícia Militar. Em nota, a SSP informou que “policiais do 23º BPM foram acionados para uma ocorrência de roubo na Rua Wisard, Vila Madalena, onde foram subtraídos três celulares e três notebooks”.

    A pasta ainda informou que “ao iniciar a abordagem, um dos indivíduos desobedeceu a determinação legal e tentou deixar o local, resistindo à ação dos policiais que precisaram contê-lo”.

    A SSP finalizou a nota informando que “todas as circunstâncias relativas aos fatos são investigadas por meio de inquérito policial instaurado pelo 14ºDP (Pinheiros). A PM também abriu uma investigação sobre o ocorrido”.

    Matéria atualizada às 13h do dia 24 de agosto para incluir o posicionamento da SSP

    Comentários

    Comentários

    Já que Tamo junto até aqui…

    Que tal entrar de vez para o time da Ponte? Você sabe que o nosso trabalho incomoda muita gente. Não por acaso, somos vítimas constantes de ataques, que já até colocaram o nosso site fora do ar. Justamente por isso nunca fez tanto sentido pedir ajuda para quem tá junto, pra quem defende a Ponte e a luta por justiça: você.

    Com o Tamo Junto, você ajuda a manter a Ponte de pé com uma contribuição mensal ou anual. Também passa a participar ativamente do dia a dia do jornal, com acesso aos bastidores da nossa redação e matérias como a que você acabou de ler. Acesse: ponte.colabore.com/tamojunto.

    Todo jornalismo tem um lado. Ajude quem está do seu.

    Ajude

    mais lidas